Quando a resistência vestiu preto

Por Alexandre Cruz08/09/2026 às 15:466 visualizações
Elio Rizzo / Ascom / MDA
Elio Rizzo / Ascom / MDA
Brasil de Fato

Durante a Expointer, diante do estande do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, a ministra Fernanda Machiaveli recebeu do prefeito de São Lourenço do Sul, Zelmute Marten (PT), um exemplar de Noivas de Preto, do escritor lourenciano Jairo Scholl Costa. A cena durou poucos minutos, mas o livro colocado em suas mãos carregava séculos. Em torno de um vestido de casamento, a obra recupera uma pergunta que atravessa a história política: quanto tempo uma relação de poder continua vivendo depois que o mundo que a produziu aparentemente desapareceu?

Foi ali que a vice-prefeita Fernanda Bork (PT) me explicou, rapidamente, que se tratava de um romance atravessado pelo feudalismo e pela tradição das noivas pomeranas vestidas de preto. A observação breve abriu uma fresta. Por trás do costume preservado no Sul do Brasil havia não apenas uma singularidade cultural, mas uma narrativa sobre poder, submissão e resistência.

Noivas de Preto: uma saga contra a força da tradição e da lei dos senhores é um romance histórico inspirado em uma narrativa oral trazida ao Brasil por imigrantes pomeranos. A obra relaciona o costume de as noivas se casarem de preto à experiência de comunidades submetidas ao poder feudal na antiga Pomerânia. Segundo essa memória, a vestimenta teria adquirido o sentido de luto, protesto e resistência diante das imposições dos senhores, entre elas o controverso jus primae noctis, o suposto “direito da primeira noite”.

Essa origem não deve ser apresentada como um fato histórico definitivamente comprovado. Ela pertence ao território em que história, literatura e memória coletiva se encontram. Isso, porém, não diminui sua importância. Talvez torne a questão ainda mais reveladora. Uma tradição oral não é uma ata de cartório, mas pode registrar a maneira como uma comunidade interpretou a violência, transmitiu seus temores e deu sentido à própria resistência.

Os últimos casamentos de noivas vestidas de preto teriam ocorrido na região de São Lourenço do Sul no final da década de 1940. A prática, portanto, atravessou o Atlântico e sobreviveu durante gerações, mesmo longe da antiga ordem social à qual sua origem era atribuída. O feudalismo desapareceu, mas a lembrança do poder dos senhores permaneceu costurada ao vestido.

É justamente a presença do feudalismo que aproxima o romance de uma das grandes controvérsias do pensamento político e social brasileiro. Afinal, houve feudalismo no Brasil? Ou determinadas relações de dependência existentes no campo foram indevidamente classificadas como feudais?

Nelson Werneck Sodré identificou a permanência de relações feudais ou semifeudais na formação brasileira, sobretudo no mundo rural. Caio Prado Júnior seguiu outro caminho. Para ele, a colonização não reproduziu o feudalismo europeu, pois nasceu integrada ao comércio internacional e organizada para fornecer produtos ao mercado externo. Jacob Gorender, por sua vez, sustentou que a sociedade colonial constituiu um modo de produção específico, o escravismo colonial, que não poderia ser reduzido nem ao feudalismo nem ao capitalismo europeu.

A divergência entre esses autores oferece uma lição importante para a leitura de Noivas de Preto: conceitos históricos não podem ser transportados mecanicamente de uma sociedade para outra. O romance retrata uma memória vinculada ao feudalismo da Pomerânia. Sua chegada ao Sul do Brasil não significa que a estrutura feudal também tenha desembarcado nos mesmos navios. O que atravessou o oceano foi uma experiência cultural, uma interpretação do passado e uma forma de narrar a dominação.

Raymundo Faoro permite avançar por outro caminho. O patrimonialismo descrito em Os donos do poder não é sinônimo de feudalismo. Em vez da fragmentação do poder entre senhores territoriais, Faoro procura compreender a formação de um Estado centralizado, comandado por um estamento que se apropria da máquina pública e administra o poder como patrimônio particular. Apesar da diferença histórica, permanece uma pergunta comum: a quem pertence a lei?

No universo reconstruído pelo romance, a lei se confunde com a vontade dos senhores. Na interpretação de Faoro sobre o Brasil, instituições públicas podem ser capturadas por grupos que se comportam como proprietários do Estado. Não se trata de traçar uma linha direta entre o castelo medieval e a burocracia brasileira. Trata-se de perceber que a dominação se fortalece sempre que a regra deixa de ser um limite impessoal e passa a funcionar como privilégio de quem manda.

Oliveira Vianna aproxima essa discussão do terreno rural brasileiro. Em Instituições Políticas Brasileiras, ao tratar do “complexo do feudo”, da família senhorial e dos clãs parentais e eleitorais, o autor mostra como a grande propriedade e os vínculos familiares organizaram redes privadas de proteção, dependência e obediência. Nesse ambiente, a lealdade ao chefe local podia se sobrepor à cidadania impessoal, transformando o povo rural em massa eleitoral subordinada aos potentados.

Isso não significa aceitar a resposta política de Oliveira Vianna. Seu diagnóstico sobre uma sociedade oligárquica e familística o conduziu à defesa de um Estado centralizador, numa formulação conhecida como autoritarismo instrumental. O problema dos poderes privados, entretanto, não se resolve entregando poder sem limites a uma autoridade central. A contribuição mais útil está em perceber como família, propriedade e mando local podem capturar instituições formalmente modernas. Mais uma vez, o antigo não desaparece: aprende a operar por dentro do novo.

Florestan Fernandes talvez ofereça a ponte mais poderosa com o presente. Em A Revolução Burguesa no Brasil, o sociólogo mostra que a modernização capitalista brasileira não eliminou necessariamente as estruturas arcaicas. Em muitos momentos, incorporou-as. O moderno e o antigo passaram a funcionar juntos, sustentando uma transformação conduzida pelas elites, uma democracia restrita e um modelo autocrático de poder.

Essa reflexão ajuda a compreender por que certas hierarquias sobrevivem ao desaparecimento formal das instituições que as criaram. O poder muda de roupa, adapta sua linguagem e encontra novos instrumentos. Relações de mando antes justificadas pela tradição podem reaparecer como dependência econômica, desigualdade de acesso ao Estado, violência contra as mulheres ou silenciamento político. O castelo desaparece da paisagem, mas a sombra de seus muros pode continuar projetada sobre a sociedade.

Há ainda outra aproximação possível. Em A construção da ordem, José Murilo de Carvalho examina a formação da elite política imperial, sua educação comum, sua circulação pela burocracia e sua capacidade de organizar o Estado. É uma história observada a partir daqueles que dominavam a escrita, as instituições e os cargos públicos. Noivas de Preto aponta para o outro lado desse processo: a memória das pessoas que raramente deixavam documentos oficiais, participavam das grandes decisões ou apareciam nos retratos do poder.

Quando os de cima escrevem leis, os de baixo muitas vezes preservam sua experiência em narrativas, canções, festas, práticas religiosas, roupas e silêncios. O vestido preto pode ser lido como parte desse arquivo popular. Ele não contém decretos nem atas ministeriais, mas guarda uma interpretação coletiva sobre submissão e resistência.

Também é significativo que essa memória tenha sido inscrita no corpo das mulheres. Grande parte dos autores clássicos dedicados à formação política brasileira concentrou sua atenção no Estado, nas classes dominantes, nas elites, na burocracia e nos modos de produção. As mulheres, sobretudo as trabalhadoras rurais, aparecem frequentemente nas margens dessas explicações. O romance de Jairo Scholl Costa permite inverter o enquadramento: a história política também pode ser observada a partir de uma noiva, de seu vestido e daquilo que uma comunidade decidiu transmitir por meio dela.

Isso não significa romantizar a submissão nem transformar todo costume em ato consciente de rebeldia. Uma tradição pode conservar a memória da opressão e, ao mesmo tempo, reproduzir as estruturas que limitam a liberdade. Essa ambiguidade é precisamente o que torna o vestido preto tão expressivo. Ele pode representar luto, obediência, pertencimento e protesto, tudo costurado no mesmo tecido.

A entrega do livro no estande do MDA acrescenta uma última camada à cena. A agricultura familiar não é apenas um setor produtivo. Ela é formada por territórios nos quais trabalho, cultura, imigração, relações familiares e memória coletiva se entrelaçam. Quando uma política pública chega ao território, não encontra uma página em branco. Encontra comunidades marcadas por antigas desigualdades, mas também por conhecimentos, identidades e formas próprias de organização.

Ao passar das mãos de um prefeito para as de uma ministra, o livro percorreu simbolicamente o caminho entre a memória local e o Estado nacional. O gesto será realmente fecundo se essa travessia não terminar na cerimônia. Reconhecer a agricultura familiar exige ouvir as mulheres rurais, proteger o patrimônio cultural das comunidades e compreender que desenvolvimento não se mede apenas pela produção, mas também pela capacidade de as pessoas participarem das decisões que afetam suas vidas.

Noivas de Preto não oferece uma teoria sobre a formação política brasileira, e seria injusto exigir isso de um romance. Oferece algo diferente: uma imagem poderosa para pensar como a dominação se instala, atravessa gerações e se esconde dentro da tradição. Os pensadores brasileiros ajudam a nomear as estruturas. A literatura devolve carne, memória e cor àquilo que os conceitos procuram explicar.

No vestido preto das noivas pomeranas, passado e presente se encaram. A pergunta que permanece não é apenas por que aquelas mulheres se casavam de preto. É quantas formas antigas de mando continuam entre nós, agora vestidas com outras cores.

*Alexandre Cruz é jornalista político.

**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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