Posição da China prevalecerá sobre a pressão dos EUA na América Latina, dizem especialistas — Insubornavel

Posição da China prevalecerá sobre a pressão dos EUA na América Latina, dizem especialistas

25/08/2026 às 06:110 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
O governo chinês criticou os Estados Unidos por pressionarem nações latino-americanas a impedir que empresas de tecnologia do gigante asiático investissem na região, usando a segurança como pretexto.
Em coletiva de imprensa, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, defendeu o compromisso com a segurança das empresas de tecnologia de seu país. Isso ocorreu após declarações da nova autoridade dos EUA para o Hemisfério Ocidental, Juan Pablo Segura, que classificou as empresas chinesas Huawei, ZTE, Hikvision, Hytera, Dahua e DJI como de "alto risco" devido aos seus vínculos com o governo chinês e aos riscos potenciais relacionados a "espionagem, ataques cibernéticos e apagões de rede".
"Instamos os parceiros dos EUA nas Américas a mudarem rapidamente para fornecedores confiáveis, a fim de protegerem seus povos e sua soberania", exigiu a autoridade americana.
A resposta da China foi imediata: "Quem é responsável pela vigilância e pelos ataques cibernéticos que geram insegurança nos países da América Latina e do Caribe? Certamente não as empresas chinesas, que são conhecidas como fornecedoras confiáveis, motores de crescimento e geradoras de empregos."
"Exigimos que certas autoridades dos EUA parem de demonizar as empresas de tecnologia chinesas e passem a respeitar a liberdade de escolha dos países da América Latina e do Caribe", concluiu Lin Jian.
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Projetos interrompidos

Em entrevista à Sputnik, a especialista argentina em relações internacionais Carla Oliva — coordenadora do Grupo de Estudos China-Argentina (GeChina) da Universidade Nacional de Rosario (UNR) — afirmou que o governo dos EUA vem "exercendo pressão" para impedir a participação de empresas chinesas em projetos de tecnologia na América Latina "desde o primeiro governo de Donald Trump".
Nesse sentido, ela observou que Washington se opôs fortemente à implementação de redes 5G pela empresa de telecomunicações Huawei na América Latina — particularmente na Argentina e no Brasil —, alegando que as empresas de tecnologia chinesas compartilham informações sensíveis com o governo chinês.
"É uma realidade de longa data que vem ganhando cada vez mais relevância, num momento em que o debate sobre tecnologia passou para o centro da política internacional atual. A rivalidade tecnológica é evidente e decorre da agenda contínua de inovação tecnológica da China, o que gera grande preocupação para os EUA."
Além disso, o especialista ressaltou que a apreensão de Washington deriva do fato de que essa disputa tecnológica não apenas afeta as economias latino-americanas, mas também "se estende ao âmbito da segurança militar".
Carlos Aquino, economista peruano e coordenador do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Nacional de San Marcos, observou em entrevista à Sputnik que a interferência dos EUA conseguiu, por exemplo, inviabilizar um projeto de cabo submarino que ligaria o Chile diretamente à China, forçando uma reformulação que redirecionou a conexão para passar pela Nova Zelândia e pela Austrália. Washington voltou a exercer pressão quando surgiu outro projeto potencial de cabo para a China, desta vez revogando os vistos de ministros envolvidos na iniciativa.
Na visão do especialista, ao contrário do que alegam os EUA, as empresas de tecnologia chinesas "buscam ser mais responsáveis ​​em relação ao uso de dados e informações", plenamente cientes de que essa questão ganhou destaque e será explorada pelos EUA para tentar deslegitimar seus projetos.
"A China está obviamente ciente das críticas e tomando medidas para evitá-las."
Aquino reconheceu que, particularmente na América do Sul, cresceu nos últimos anos o número de governos que parecem — pelo menos em sua retórica — alinhados aos EUA, o que significa que eles poderiam acabar se mostrando mais "maleáveis" à pressão de Washington. No entanto, ele questionou se o investimento chinês na região realmente diminuiu em decorrência desses esforços.
"Os governos podem ser de direita, mas obviamente reconhecem que [Pequim] é um ator muito importante, e negócios são negócios; portanto, não acredito que o investimento chinês vá cair. Eles podem estar sendo mais cautelosos e talvez estejam avaliando o cenário."
Oliva citou o caso de uma estação de espaço profundo estabelecida pela China na província argentina de Neuquén (região central) como exemplo da persistência chinesa, embora os EUA a tenham apontado como um risco de segurança para o país e a região, ela "permanece operacional" hoje, mesmo com o governo de Javier Milei alinhando-se à potência norte-americana.
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A paciência chinesa

Nesse contexto, a especialista argentina em relações internacionais destacou o potencial da "paciência chinesa" como uma ferramenta fundamental de política externa, capaz de permitir que o gigante asiático aguarde uma mudança no cenário regional antes de retomar certos projetos estratégicos.
"Estou convencida de que a paciência chinesa — que atravessa milênios — perdurará. Eles aguardarão uma mudança de governo ou uma alteração nos ventos regionais, pois a China possui a capacidade e a tradição de esperar, de exercer a paciência."
No entanto, ela observou que o fato de o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China ter abordado abertamente a pressão dos EUA na América Latina sinaliza uma postura mais firme de Pequim.
"Há bastante tempo, a China se posiciona como uma potência e age como tal", observou ela, acrescentando que "colocar essa questão em pauta indica que o país negocia e interage com os EUA em pé de igualdade".
Na mesma linha, Aquino enfatizou que a China é "o único país do mundo capaz de dizer 'basta'" aos EUA e que "demonstrou, nos últimos meses, que defenderá seus interesses quando necessário". Nesse sentido, ela apontou a defesa, por parte do governo chinês, da empresa CK Hutchison, cuja concessão no Canal do Panamá foi suspensa após pressão dos EUA.
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