“Nullius in verba”: a reinvenção da autoridade — Insubornavel

“Nullius in verba”: a reinvenção da autoridade

25/08/2026 às 22:420 مشاہدات
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Jornal da USP

Por João Francisco Justo Filho, professor da Escola Politécnica da USP

 Publicado: 25/08/2026 às 19:42
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No efervescente cenário intelectual da Europa do século 17, poucos acontecimentos foram tão decisivos quanto a emergência do empirismo inglês. Opondo-se à autoridade estabelecida na tradição aristotélica e escolástica, Francis Bacon (1561–1626), o principal precursor daquele movimento, propôs um novo método de investigação baseado na observação sistemática da natureza, na experimentação e no raciocínio indutivo. Por outro lado, sua contribuição transcendeu a esfera puramente metodológica, redefinindo os critérios fundamentais de construção do conhecimento ao deslocar o centro da autoridade intelectual da tradição para a experimentação. Dessa inflexão epistemológica emergiriam não apenas os alicerces da ciência moderna, mas também uma nova relação entre ciência, tecnologia e sociedade, cujos efeitos continuam a moldar o mundo contemporâneo.

Florescendo sobretudo em academias científicas e círculos intelectuais relativamente autônomos em relação às universidades, a nova ciência desafiava a autoridade do conhecimento vigente que, por mais de um milênio, havia delineado a compreensão da natureza. Nesse contexto, em 1660, foi fundada a Royal Society de Londres, instituição que se tornou a principal representação da filosofia de Bacon. Seu brasão ostentava o lema Nullius in verba (“nas palavras de ninguém”), uma afirmação de que a autoridade do conhecimento deveria estar sustentada menos na tradição e mais nas evidências obtidas pela observação e pelo experimento.

Na Royal Society, Robert Boyle (1627–1691) consolidou-se como uma de suas figuras mais influentes. Conhecido pela formulação da lei dos gases que leva seu nome, Boyle foi um experimentalista incansável, tendo aperfeiçoado diversos instrumentos científicos, entre eles a bomba de vácuo, cuja precisão permitiu investigar, de maneira inédita, as propriedades da matéria e dos gases. Sua contribuição mais relevante, contudo, foi muito além das descobertas experimentais. Boyle contribuiu para a institucionalização de uma nova cultura científica na qual o experimento se tornou o principal mecanismo de construção do conhecimento, a partir do registro rigoroso dos procedimentos, descrição minuciosa dos instrumentos utilizados, realização de demonstrações públicas e testemunho de observadores reconhecidos por sua integridade. Com o auxílio de aparatos experimentais cada vez mais sofisticados, como balanças, barômetros, bombas hidráulicas e a célebre bomba de vácuo, foi possível alicerçar os princípios que ainda sustentam a investigação científica contemporânea: rigor metodológico, precisão, transparência, reprodutibilidade e escrutínio público.

Entretanto, no núcleo do empirismo inglês, despontaria uma controvérsia que redefiniria os rumos da ciência moderna e cujos ecos ainda ressoam mais de três séculos e meio depois. Thomas Hobbes (1588–1679), um dos fundadores da filosofia política moderna e celebrado por sua obra Leviatã (1651), rejeitava a ideia de que o conhecimento científico pudesse repousar fundamentalmente sobre fatos produzidos em circunstâncias experimentais controladas e demonstrados a um grupo privado de pessoas. Para Hobbes, o verdadeiro conhecimento deveria decorrer de definições rigorosas e demonstrações dedutivas, antes de qualquer experimento. Neste sentido, chegou a divulgar cartas e panfletos que ridicularizavam os experimentos de Boyle e de outros pesquisadores da Royal Society. Não por acaso, permaneceu à margem dessa instituição durante toda a sua vida. Ao questionar explicitamente quem deveria ter a autoridade para certificar o conhecimento, aflorava a sua aguçada percepção da filosofia política. Para ele, toda estrutura social pressupunha uma autoridade hierarquicamente superior para arbitrar controvérsias e estabelecer consensos, sendo que o conhecimento científico não constituiria uma exceção.

Poucas controvérsias foram tão decisivas para o estabelecimento das bases epistemológicas da ciência moderna quanto o célebre embate entre Boyle e Hobbes. De um lado, Boyle defendia a filosofia experimental como um caminho privilegiado para produzir conhecimento sobre a natureza. Instrumentos ampliavam o alcance da observação e tornavam possível revelar aspectos da natureza inacessíveis aos sentidos humanos. De outro lado, Hobbes argumentava que os experimentos de Boyle não forneciam bases suficientemente sólidas para fundamentar um conhecimento de validade universal sobre a natureza. Um experimento poderia produzir efeitos contingentes, sujeitos às condições em que era realizado e à interpretação de seus observadores, sem que isso constituísse uma demonstração científica autêntica. Segundo Hobbes, nenhum aparato experimental poderia substituir uma demonstração racional.

Essa controvérsia transcendia uma divergência puramente metodológica, pois opunha duas concepções antagônicas em relação à autoridade sobre o conhecimento. O embate, que durou quase uma década, compeliu Boyle a aperfeiçoar sistematicamente seus experimentos, instrumentos e, sobretudo, procedimentos destinados a conferir credibilidade aos resultados obtidos, o que estabeleceu as bases da metodologia científica moderna.

A controvérsia entre Boyle e Hobbes foi explorada com profundidade por Steven Shapin (1943-) e Simon Schaffer (1955-) no livro Leviathan and the Air-Pump: Hobbes, Boyle, and the Experimental Life (1985). Embora a interpretação historiográfica dos autores tenha suscitado intenso debate acadêmico, a obra permanece como uma das análises mais consistentes e detalhadas sobre um período embrionário da ciência moderna e o conflito intelectual que redefiniu os critérios de produção e legitimação do conhecimento científico.

O debate serviu como ponto de partida para o livro discutir uma questão mais ampla: como a ciência moderna conquistou a autoridade para definir o que pode ser reconhecido como verdadeiro e confiável? Para os autores, não há uma separação tão rígida entre a produção do conhecimento científico e a organização política da sociedade. Os mecanismos pelos quais um resultado passa a ser aceito como fato científico estão intimamente relacionados ao modo como a sociedade estabelece a autoridade, credibilidade e consenso. Assim, práticas frequentemente percebidas como estritamente técnicas e científicas carregam inevitavelmente dimensões sociais e políticas. Sob essa ótica, os autores resgatam as inquietações de Hobbes, embora reconheçam que a concepção experimental defendida por Boyle acabou moldando os fundamentos da ciência moderna.

Críticos argumentam que Shapin e Schaffer acabam dando ênfase excessiva aos fatores sociais na construção do conhecimento, ofuscando o papel desempenhado pela própria natureza na validação das teorias, a ponto de até servir de argumento para relativizar a realidade objetiva em favor da subjetividade. Mesmo assim, a obra revelou que a autoridade científica é inseparável dos mecanismos sociais que a sustentam. Em vez de questionar apenas como a ciência produz conhecimento, Shapin e Schaffer questionam como uma sociedade acaba confiando e aceitando esse conhecimento.

Mesmo passados mais de três séculos e meio do célebre debate entre Boyle e Hobbes, a questão da autoridade do conhecimento permanece atual e no centro dos desafios enfrentados pela universidade e pela ciência contemporânea de forma geral. Embora os procedimentos científicos tenham se tornado mais sofisticados desde o século 17, seus princípios fundamentais permanecem notavelmente reconhecíveis e continuam sustentando uma cultura científica fundamentada em rigor, objetividade e transparência. A eles se somam virtudes intelectuais indispensáveis ao cientista, associadas à integridade, autocrítica, imparcialidade e temperança. Esse conjunto de princípios e valores remonta diretamente ao projeto intelectual inaugurado pela Royal Society.

Os mecanismos institucionais de validação do conhecimento científico tornaram-se progressivamente mais sofisticados ao longo do tempo, mas permaneceram alinhados àqueles princípios fundamentais. A universidade é uma das poucas instituições que submetem continuamente suas próprias conclusões ao escrutínio interno e externo, deixando permanentemente aberto o espaço para a contestação de hipóteses e teorias, revisão de conclusões e aperfeiçoamento de métodos e procedimentos. Diferentemente de empresas, agremiações políticas ou governos, sua legitimidade deriva da disposição de questionar a si mesma continuamente. Foi precisamente a institucionalização da crítica, e não qualquer pretensão de infalibilidade, que permitiu à universidade construir, ao longo de mais de três séculos, a reputação que sustenta sua legitimidade científica.

Por outro lado, os mecanismos de mediação do conhecimento entre a universidade e a sociedade mudaram drasticamente com o tempo, particularmente nas últimas décadas. Por muito tempo, a universidade e as instituições científicas desfrutaram de elevado prestígio e de ampla confiança pública, outorgando-lhes uma posição autoritativa em relação ao conhecimento.

Sobretudo nas duas últimas décadas, houve uma erosão nas relações entre a universidade e a sociedade, com questionamentos crescentes daquela posição autoritativa. A universidade passou a conviver com uma crise de confiança, alimentada pela circulação massiva de desinformação, proliferação de especialistas autoproclamados, inteligência artificial e difusão de narrativas sustentadas por inferências superficiais, correlações espúrias e interesses ideológicos, em detrimento das evidências sistematicamente produzidas. Nesse ambiente, consolidou-se uma tensão inédita entre o conhecimento submetido ao escrutínio permanente da ciência e um ceticismo público, que deixa de exercer sua função crítica para assumir a forma de uma desconfiança generalizada, e até de cinismo em muitos casos, em relação às próprias instituições produtoras de conhecimento.

Essa tensão resgata a contemporaneidade do debate iniciado há mais de três séculos por Boyle e Hobbes e retratado por Shapin e Schaffer. Se a questão é saber se a universidade detém reputação ou autoridade sobre o conhecimento, a resposta é que uma decorre da outra. Sua autoridade jamais foi um atributo inerente nem um privilégio definitivo, mas resultou de uma tradição intelectual que conquistou sua legitimidade ao longo de séculos e depende, desde então, da capacidade de renovar a confiança outorgada pela sociedade. Essa autoridade não se impõe pela força nem pelo prestígio dos títulos, mas pela consistência de seus métodos, pela integridade de seus pesquisadores e pela solidez de seus mecanismos de validação.

Numa releitura contemporânea, o embate entre Boyle e Hobbes não revela uma oposição epistemológica irreconciliável; na realidade, aborda duas dimensões complementares da produção do conhecimento: a validação pelos pares e a aceitação pela sociedade. Assim, essa tensão do conhecimento ganha um novo significado. A universidade precisa manter com consistência e austeridade as estruturas, metodologias e valores que deram origem à ciência moderna. Por outro lado, a validação científica não se encerra no julgamento dos especialistas. A dimensão social permanece inescapável; o conhecimento ainda precisa conquistar credibilidade perante a sociedade. Isso não significa substituir a realidade objetiva por uma que seja socialmente construída, nem relativizar o papel das evidências experimentais.

Essa imprescindível condição, porém, não restabelece a antiga autoridade fundada na posição social, na tradição ou no poder político. O empirismo inglês rompeu definitivamente com essa lógica ao proclamar que nenhuma hierarquia social pode substituir as evidências; a autoridade começa e termina nas evidências. A sociedade pode questionar as conclusões da ciência, mas esse questionamento somente preserva sua legitimidade quando submetido às mesmas regras de argumentação, evidência e escrutínio que tornaram a ciência moderna uma instituição confiável. É esse o significado mais profundo em que o lema Nullius in verba ainda se sustenta: a autoridade não decorre de quem fala, mas da disposição permanente de mostrar como se chegou às conclusões.

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