Estreia nos cinemas de todo o país, nesta quinta-feira (3), “Não Existe Almoço Grátis”, documentário que retrata a ação das Cozinhas Solidárias organizadas pelo Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST). Depois de percorrer uma série de festivais e receber prêmios, como o de Melhor Filme do Júri Popular no Festival de Brasília, o filme chega ao circuito comercial.
Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel e distribuído pela Descoloniza Filmes, o documentário acompanha Bizza, Jurailde e Socorro na liderança da Cozinha Solidária localizada na maior favela do país, Sol Nascente, durante a posse do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva como Presidente da República, em 2022.
As Cozinhas Solidárias, como ação militante, foram iniciadas pelo MTST durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e em meio à pandemia de Covid-19, quando a insegurança alimentar se agravou no Brasil. De acordo com o levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), em dezembro de 2020, 55% da população do país sofria algum nível de insegurança alimentar.
“A história das cozinhas solidárias é sobre o combate à fome, mas é também uma história sobre alimentar outro mundo possível. Laços de solidariedade, um trabalho territorial, de base. A gente queria apontar a câmera para esse bastidor popular no momento em que todas as câmeras estavam apontadas ali para o Planalto”, comenta Pedro Charbel em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.
Durante a conversa, uma das lideranças da Cozinha Solidária, em meio à posse de Lula, Socorro Rodrigues fala sobre a expectativa em relação ao filme. “Que as pessoas possam resgatar um pouco do passado, do que a Covid fez com a gente. Quando nós começamos a distribuir comida nas cozinhas solidárias, principalmente daqui do Sol Nascente, a gente distribuía comida, máscara e atenção. As pessoas não buscavam só um prato de comida. Elas buscavam aconchego, afeto, e isso tinha na cozinha solidária do Sol Nascente, compreensão e companheirismo. Isso me orgulha.”
A cozinheira ainda trouxe um relato pessoal de como a produção modificou a visão de alguns de seus parentes quanto às ações dos movimentos populares. “Hoje em dia as pessoas não pensam muito em coletividade, são muito individualistas. Então, se soubessem o tanto que se faz em comunidade, no coletivo, o tanto que isso gera progresso, tanto para quem faz quanto para quem está recebendo, seria uma conscientização das pessoas”, completou.
Segundo a FAO, agência da Organização das Nações Unidas (ONU) especializada em Alimentação e Agricultura, o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2025. Charbel destaca o papel das Cozinhas Solidárias neste contexto.
“Hoje são mais de 77 [cozinhas solidárias] por todo o Brasil, sem contar as cozinhas emergenciais, que são feitas em casos de eventos de crise climática. E essas cozinhas fazem parte da política pública do governo federal de combate à fome. A gente tem muito orgulho de que esse processo tenha contribuído não só para o Brasil sair do mapa da fome, mas para os níveis de insegurança alimentar do país serem os menores na história.”
O diretor do filme reflete que, para além de ser uma denúncia, ele apresenta a forma como os movimentos sociais já estão desenvolvendo práticas para um futuro com menos desigualdades e mazelas sociais.
“A gente fica muito na denúncia, na resistência, e esquece de que imaginar um outro futuro já é cozinhar esse futuro hoje e que o movimento social já bota em prática muita coisa que a gente sonha para o futuro.”
Mais informações sobre o filme podem ser acessadas nas redes sociais do documentário.
Conversa Bem Viver

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