“Alinhar uma leitura comum da realidade brasileira e internacional, para [identificar os principais desafios colocados para os povos do campo, das florestas e das águas.”
Assim, Sirley Ferreira, da direção nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e membro da operativa nacional da Via Campesina Brasil, explica o objetivo do “Encontro do Campo Unitário – Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas”, que teve início nesta quinta-feira (3), em Salvador, na Bahia.
“A ideia é construir uma leitura comum dos movimentos do capital, do avanço da extrema direita no mundo e do avanço imperialista contra a América Latina e o Brasil. E, a partir disso, apontar quais são os caminhos para fortalecer a unidade, resistir ao que vemos como ameaça aos nossos direitos e planejar os próximos passos na luta”, explica Ferreira.
A dirigente destaca que hoje existe um cenário de graves ameaças nacionais, como tentativas de criminalização dos movimentos populares, crescimento da mineração, privatização dos bens naturais, destruição de florestas e avanço do capital sobre os territórios em várias frentes.
Também existe um cenário de grave ameaça internacional, com o fortalecimento da extrema direita e a pressão do imperialismo estadunidense sobre o Brasil e a América Latina, interessado principalmente nas terras raras e no petróleo. “É um cenário extremamente desafiador”, pontua Ferreira.
O encontro também espera definir uma plataforma de propostas para avançar em projetos e programas que protejam e beneficiem os povos do campo, das florestas e das águas. “Garantindo seus modos de vida, cultura e desenvolvimento, para que os povos tenham sua soberania assegurada e possam produzir alimentos saudáveis e proteger o meio ambiente”, complementa a dirigente do Movimento de Mulheres Camponesas.
O evento reúne 60 organizações, dentre elas, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores, a Via Campesina Brasil, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Movimento dos Atingidos pela Mineração (MAM) e Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).
Nesta quinta, a abertura do encontro contou com a presença de lideranças populares e representantes dos governos estadual da Bahia e federal. Dom Valdeci, da Comissão para a Ação Sociotransformadora, foi o primeiro a discursar, a partir de um vídeo em que exaltou a luta dos movimentos populares e recordou o lema do Papa Francisco em defesa dos direitos dos mais pobres. “Como nos diz o Papa: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nem um trabalhador sem emprego.”
Lucinha Barbosa, secretária Nacional de Movimentos Sociais do PT, destacou que a movimentação pela unidade é fundamental frente aos desafios que estão colocados interna e externamente. “Estamos vivendo um momento ímpar no Brasil, na América Latina e no mundo. Nosso território é um território em disputa. E as forças imperialistas estão em luta contra nós, que estamos nas florestas, nos rios, campos”, afirmou.
Ela destacou que o imperialismo tem apontado suas forças contra algumas figuras importantes na defesa do povo trabalhador, como o presidente da China, Xi Jinping, o papa Leão XIV e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas que, internamente, a polarização tem sido um desafio igualmente difícil, que demanda grande esforço e articulação na luta, ao mesmo tempo em que os movimentos populares mantêm a pressão para avançar em políticas públicas e no desenvolvimento nacional.
“Se a gente perder o processo eleitoral, poderemos estar em uma terra arrasada ainda pior do que encontramos no terceiro governo Lula. Queremos que esse Estado gire para nós, para as mulheres, para os pobres, para os pretos, para todos que precisam das políticas públicas. Estamos polarizados contra o que tem de pior em nossa sociedade. É um desafio, não só para o presidente Lula, mas para toda a esquerda brasileira”, afirmou Barbosa.
A secretária nacional de Diálogos Sociais e Articulação de Políticas Públicas da Secretaria-Geral da Presidência da República, Kelli Mafort, destacou que a pressão dos movimentos é fundamental para fazer o Estado brasileiro se movimentar e que o encontro é uma ação fundamental para direcionar os esforços de milhares de pessoas.
Ela destaca a atuação dos movimentos no desenvolvimento de políticas para os diferentes povos, mas também específicas para pesca, mulheres, jovens, etc., conquistadas pela cobrança junto ao Estado brasileiro.
“Vocês representam multidões que lutam em trincheiras tão distintas, mas fazem na prática o nosso país ter sentido. E vocês fazem o Estado ter que olhar para essas lutas e nos trazem muitas conquistas. Estar aqui nesse momento, perto da eleição, é um desafio. E vocês mantiveram porque entendem a importância da luta, que não acaba em 30 dias, como a eleição. E, para isso, precisa de elaboração e propostas”, disse Mafort.
“E também é um recado aos imperialistas de que não vamos abrir mão da soberania nacional junto com a soberania popular”, complementou.
Erick Moura, secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário, destacou que não existe saída única ou isolada para os desafios colocados. “A saída é coletiva, é pela participação social, pela construção coletiva, como vocês estão fazendo aqui”, afirmou.
Ele lembrou que, no início do terceiro governo Lula, havia um cenário de terra arrasada: o ministério não tinha servidores, orçamento ou políticas. E destacou os assentamentos criados no governo Lula, apesar dos desafios, prometendo “R$ 1,22 bilhão para obtenção de terras no Incra no orçamento de 2027”.
Moura creditou esse avanço à atuação dos movimentos populares. “A disputa pelo orçamento não é fácil e a pressão de vocês é fundamental para garantir isso. Isso é resultado da organização coletiva vinda da pressão do campo unitário e dos movimentos do campo”, afirmou.
O “Encontro do Campo Unitário – Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas” segue até sábado (5).
