Milhares participam na Sérvia de funeral de Ratko Mladić, condenado por genocídio em Srebrenica

07/09/2026 às 13:231 visualizações
Apoiadores carregam bandeiras da Sérvia e retratos de Ratko Mladić durante cortejo até o cemitério, em Belgrado, nesta segunda-feira (7)
Apoiadores carregam bandeiras da Sérvia e retratos de Ratko Mladić durante cortejo até o cemitério, em Belgrado, nesta segunda-feira (7)
Brasil de Fato

Milhares de pessoas se reuniram nesta segunda-feira (7), em Belgrado, capital da Sérvia, para o funeral de Ratko Mladić, ex-comandante das forças sérvio-bósnias condenado à prisão perpétua por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995.

Mladić morreu em 27 de agosto, aos 84 anos, enquanto cumpria pena em Haia, nos Países Baixos. Nesta segunda-feira, apoiadores chegaram desde as primeiras horas da manhã à Igreja de São Lucas, onde o corpo foi velado antes do enterro. Segundo a agência Reuters e o jornal The Guardian, muitos carregavam bandeiras sérvias e imagens do ex-general.

Ônibus gratuitos foram disponibilizados para transportar participantes de diferentes cidades da Sérvia e da Republika Srpska, região autônoma de maioria sérvia que integra a Bósnia e Herzegovina. Veteranos das guerras dos anos 1990 fizeram guarda junto ao caixão, enquanto familiares recebiam condolências.

Apesar das condenações internacionais, Mladić continua sendo tratado como herói por setores nacionalistas na Sérvia e na Republika Srpska. Após a morte do militar, novos murais em sua homenagem apareceram em Belgrado, e vigílias foram realizadas na Republika Srpska.

As homenagens a Mladić também provocaram reações em Belgrado. Segundo a Jacobin, moradores de um quarteirão no centro da capital sérvia organizaram uma ação para apagar um novo mural dedicado ao ex-general, pintado durante a madrugada. A publicação relata que esse tipo de homenagem é recorrente na cidade e costuma provocar intervenções de moradores, ativistas pela paz e grupos de juventude, que cobrem ou danificam os murais.

Dirigentes da oposição também se manifestaram após a morte de Mladić, defendendo que os crimes cometidos durante a guerra e o genocídio de Srebrenica não sejam esquecidos ou relativizados. A morte de Mladić ocorreu em meio à preparação para novas eleições parlamentares na Sérvia, convocadas após protestos contra o atual governo, mas ainda sem data marcada.

De acordo com a Jacobin, o episódio voltou a expor a relação ambígua do governo de Aleksandar Vučić, líder do Partido Progressista Sérvio (SNS) e principal força do campo nacionalista no país, com o legado do ex-comandante. O governo atua em um campo nacionalista e recorre politicamente a temas ligados à identidade sérvia, a Kosovo e à memória das guerras dos anos 1990.

O ministro da Justiça afirmou inicialmente que Mladić, por ter sido general, seria sepultado segundo protocolos militares e estatais. Vučić, porém, recuou dessa sinalização e passou a mencionar os “desejos da família”, evitando confirmar a realização de um funeral patrocinado pelo Estado.

A Sérvia é candidata à adesão à União Europeia desde 2014, mas o processo está paralisado nos últimos anos. A comissária europeia para Alargamento, Marta Kos, cancelou uma visita prevista à Sérvia e afirmou que a glorificação de Mladić é incompatível com os valores exigidos no processo de entrada na UE.

Em nota, o bloco também declarou que a exaltação de condenados por crimes de guerra, a negação de genocídio e o revisionismo não têm lugar entre países candidatos à adesão.

Genocídio em Srebrenica e cerco de Sarajevo

Mladić foi oficial do Exército Popular Iugoslavo antes de se tornar, em maio de 1992, comandante do Estado-Maior do Exército da Republika Srpska (VRS), formado durante a desintegração da Iugoslávia. Permaneceu no comando durante toda a Guerra da Bósnia.

Em 2017, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), criado pelas Nações Unidas, condenou Mladić por genocídio em Srebrenica e por perseguição, extermínio, assassinato, deportação, transferência forçada, ataques contra civis, terror e tomada de reféns. A pena de prisão perpétua foi confirmada em 2021.

Segundo o tribunal, Mladić participou de uma operação destinada a retirar permanentemente muçulmanos bósnios e croatas de territórios reivindicados pelas forças sérvio-bósnias. Também foi responsabilizado pela campanha de bombardeios e ataques de franco-atiradores destinada a espalhar terror entre a população civil de Sarajevo.

A principal condenação foi pelo massacre de Srebrenica, em julho de 1995. Depois de tomarem a região, que havia sido declarada área de segurança pelas Nações Unidas, forças sérvio-bósnias mataram cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios. O tribunal considerou que houve intenção de eliminar a população muçulmana de Srebrenica e classificou o massacre como genocídio.

A Guerra da Bósnia foi um dos conflitos que acompanharam a dissolução da Iugoslávia socialista no início dos anos 1990. O massacre de Srebrenica ocorreu nos meses finais da guerra e antecedeu uma ampla campanha de bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra posições sérvio-bósnias.

Fonte
Brasil de Fato
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