Candidatos ao governo do DF levam ao Ministério Público caso de R$ 1,4 milhão ligado à família de Celina Leão 

Por Kennedy Cruz08/09/2026 às 18:541 visualizações
Representantes das candidaturas entregaram o documento ao procurador do MPDFT, Georges Carlos Fredderico Moreira Seigneur, nesta terça-feira (8)
Representantes das candidaturas entregaram o documento ao procurador do MPDFT, Georges Carlos Fredderico Moreira Seigneur, nesta terça-feira (8)
Foto: | / Brasil de Fato

Sete candidatos ao Governo do Distrito Federal (GDF) foram ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), nesta terça-feira (8), para pedir a investigação dos pagamentos que somaram R$ 1,4 milhão feitos pela Real JG Facilities à Faceng Engenharia, empresa ligada ao marido e à filha da governadora Celina Leão (PP). A representação solicita a abertura de investigação civil e criminal e afirma que os fatos precisam ser apurados pelos órgãos de controle.

Participaram da iniciativa José Roberto Arruda (PSD), Leandro Grass (PT), Paula Belmonte (PSDB), Ricardo Cappelli (PSB), Kiko Caputo (Novo), Elisson Ferreira (Agir) e Rico Pinheiro (PRTB). O grupo afirma que a iniciativa não tem caráter partidário e sustenta que o objetivo é esclarecer a relação entre uma empresa com contratos públicos e uma companhia ligada à família da governadora. 

A representação tem como ponto de partida os pagamentos revelados pelo jornal O Globo. Segundo as informações apresentadas no documento, a Real JG realizou 14 pagamentos de R$ 100 mil à Faceng entre maio de 2025 e junho de 2026, totalizando R$ 1,4 milhão. A Faceng tem entre seus sócios Fabrício Faleiro Ferreira, marido de Celina, e Bruna Victória Leão Machado de Araújo, filha da governadora.

Os candidatos também pedem que seja investigado um repasse de R$ 100 mil feito em julho deste ano pela 3J Facilities, empresa que presta serviços à Real JG. Com isso, a representação chama atenção para uma sequência de pagamentos que chegou a R$ 1,5 milhão quando considerados os valores das duas empresas.

Um dos pontos levantados pelos candidatos é a relação da Real JG com o poder público. A empresa mantém contratos com diferentes órgãos do Distrito Federal e, segundo dados já publicados, recebeu valores bilionários do GDF ao longo dos últimos anos. Em agosto de 2024, a companhia também firmou contrato de aproximadamente R$ 2,23 milhões com o gabinete da vice-governadoria, então comandado por Celina Leão. Cerca de nove meses depois, começaram os pagamentos mensais de R$ 100 mil à Faceng.

Representação

A representação pede que o MPDFT tenha acesso ao processo completo desse contrato, incluindo termos de referência, pesquisa de preços, documentos de contratação, identificação dos responsáveis pela fiscalização, ordens de serviço, relatórios, notas fiscais e comprovantes de pagamento.

Os candidatos também querem que Real JG, Faceng e 3J apresentem documentos capazes de comprovar quais serviços foram efetivamente realizados para justificar os pagamentos. Entre os documentos solicitados estão contratos, propostas, ordens de serviço, relatórios, fotografias, vídeos, medições e outros registros relacionados às obras mencionadas pelas empresas.

A representação destaca ainda uma diferença entre as explicações apresentadas até agora sobre os pagamentos.

A defesa de Fabrício Faleiro afirmou ao jornal O Globo que os valores seriam referentes ao “acompanhamento e fiscalização de obras privadas”. A Real JG, por sua vez, classificou os serviços como “acompanhamento e assessoramento na área da construção civil”. Já as notas fiscais emitidas pela Faceng descrevem genericamente serviços de execução, por administração, de obras de construção civil, hidráulica ou elétrica.

Para os candidatos, é necessário esclarecer quais obras foram acompanhadas, onde estavam localizadas, quais serviços foram executados e quais documentos comprovam a prestação. A representação pede, inclusive, que o MPDFT consulte os registros do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) para verificar eventuais Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) relacionadas aos serviços.

A representação também solicita que sejam analisados dados fiscais e financeiros das empresas e, se necessário, que sejam requeridas medidas judiciais para acesso a informações bancárias e fiscais. Os candidatos pedem ainda que o MP examine eventual evolução patrimonial da família de Celina e dados da Faceng antes e depois do início dos pagamentos.

‘Dinheiro da população’

Para Leandro Grass, a questão central é esclarecer se a posição ocupada por Celina no governo teve alguma relação com os pagamentos destinados à empresa de sua família. “Eu defendo que haja uma distinção entre o que é de interesse da família da governadora e dela e aquilo que é interesse da população do DF. O dinheiro da população tem que ser usado para a população e não para interesses privados”, afirmou o candidato.

Grass também cobrou uma manifestação pública da governadora sobre os pagamentos. “Tem alguma coisa a ver com o fato de ela ser governadora? Tem alguma coisa a ver com o poder que ela exerce hoje? Esse dinheiro que chegou para pessoas da família dela? Sim ou não? Então, já que ela não falou sobre o assunto até agora, a gente quer que ela fale e que o Ministério Público investigue”, disse.

O petista afirmou ainda que os candidatos não estão agindo em nome de seus partidos, mas em torno da cobrança por esclarecimentos. “A gente tá aqui em nome do povo do DF, que está de saco cheio, cansado, sofrendo com tudo que está acontecendo e não quer mais a cidade sendo governada por gente que não tem moral”, afirmou.

Candidatos de diferentes partidos participaram da reunião que marcou a entrega da representação ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios |
Candidatos de diferentes partidos participaram da reunião que marcou a entrega da representação ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios | — Roberto Rodrigues
Candidatos de diferentes partidos participaram da reunião que marcou a entrega da representação ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios | Crédito: Roberto Rodrigues

Ricardo Cappelli chamou atenção para a repetição dos valores pagos pela Real JG. Segundo ele, o fato de as notas terem o mesmo valor todos os meses é um dos pontos que justificam a apuração. “Eu nunca vi serviço de engenharia e de fiscalização ter nota fiscal redonda. É R$ 100 mil todo mês. Não é R$ 99 mil num mês, não é R$ 105 mil no outro, não é R$ 87 mil no outro. É R$ 100 mil todo mês por um serviço que, segundo a matéria, não tem a devida comprovação”, destacou.

O candidato também questionou a relação comercial entre a empresa com contratos públicos e a companhia ligada à família da governadora. “É razoável uma empresa que recebe bilhões do governo pagar R$ 100 mil por mês para uma empresa da família da governadora?”, questionou.

José Roberto Arruda classificou a situação como uma questão que deve ser examinada pelos órgãos de investigação. “Nós estamos falando de imoralidade. Quem vai falar na legalidade ou ilegalidade é o Ministério Público e a Justiça. O procurador [Georges Carlos Fredderico Moreira Seigneur] falou que vai instaurar a investigação ainda hoje, de acordo com o que é previsto na lei”, afirmou.

Paula Belmonte afirmou que os pagamentos precisam ser esclarecidos e classificou os repasses mensais como uma “mesada”. “Nós precisamos ter o fio condutor da transparência e da responsabilidade com o dinheiro da população. Estamos falando de uma mesada de R$ 100 mil que foi tirada do nosso bolso, não empregada nas pessoas, e deu para o marido da Celina e a filha”, afirmou. 

A candidata também rebateu a afirmação feita por Celina Leão em entrevistas recentes, chamando o grupo de “bonde do Arruda”, e afirmou que o objetivo é cobrar transparência sobre o uso de recursos públicos. “Aqui não é bonde de ninguém. Aqui tem uma pessoa que defende, sim, a população do Distrito Federal. […] Governadora, bote na mesa o balanço do BRB, bote na mesa a mesada que seu marido e sua filha ganharam, bote na mesa a transparência do dinheiro da população. É isso que nós precisamos”, cobrou.

Repercussões eleitorais

Além da investigação civil e criminal, os candidatos pedem que o caso seja encaminhado à Procuradoria Regional Eleitoral no Distrito Federal (PRE-DF) para análise de possíveis repercussões eleitorais, incluindo eventual abuso de poder político ou econômico.

A representação também solicita que o caso seja levado ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), além de avaliadas medidas cautelares relacionadas a novos contratos, aditivos ou prorrogações envolvendo as empresas citadas, caso os órgãos de controle entendam necessário.

Os autores pedem ainda que a apuração avalie eventual conflito de interesses e atos de improbidade administrativa. No campo criminal, a representação solicita que sejam tomadas as providências cabíveis e, caso seja identificada competência de instância superior em razão do cargo ocupado por Celina, que o caso seja encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR).

Outro lado

Em entrevista recente, Celina Leão chamou os candidatos que participaram da iniciativa de “bonde do Arruda”. Procurada pelo Brasil de Fato DF, a assessoria de Celina indicou a declaração dada pela governadora na entrevista como posicionamento sobre o caso.


Apoie a comunicação popular no DF:

Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]

Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.

Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.

Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304–0102

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.