Que Brasil queremos? Democracia, civilização e dignidade

Por Fabio Potiguar10/09/2026 às 19:380 visualizações
Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores
Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores
Brasil de Fato

Era 1979. Eu tinha 11 anos e começava a descobrir que o Brasil em que eu vivia carregava uma ferida chamada ditadura militar. Descobri que havia exilados, presos políticos, homens e mulheres perseguidos e torturados por defenderem a liberdade e a democracia. Guardo na memória as voltas de Leonel Brizola, Miguel Arraes, Dulce Maia, a presença de Paulo Freire nesse tempo de reencontro com o país e histórias como a da Irmã Maurina Borges da Silveira, religiosa presa, torturada e banida.

Para aquele menino, palavras como ditadura, exílio, tortura, anistia e democracia passaram a ter rosto. Talvez tenha nascido ali uma convicção que nunca mais me abandonou: a democracia não é um presente definitivo, mas uma conquista que precisa ser cuidada todos os dias.

Em 1984, eu estava em Fortaleza com meu irmão gêmeo, Fabiano Piúba, e guardo especialmente a memória da praça do teatro José de Alencar tomada pelas Diretas Já. Ali estavam grandes nomes do campo democrático: Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Luiz Inácio Lula da Silva, Luís Carlos Prestes, Dante de Oliveira e Paes de Andrade. Artistas, trabalhadores, estudantes e gente comum enchiam a praça. O Brasil reaprendia a dizer em voz alta uma palavra sufocada durante tantos anos: liberdade.

Depois da derrota da Emenda Dante de Oliveira, a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral contou também com a contribuição da Frente Liberal, com lideranças como José Sarney, Marco Maciel, Aureliano Chaves e Antônio Carlos Magalhães. É importante recordar isso: a redemocratização brasileira também contou com uma direita democrática, capaz de colocar a defesa da democracia acima das diferenças partidárias. Vieram depois a transição, a Constituinte e, em 1988, a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães.

Anos mais tarde, já adulto, essa memória ganhou ainda mais rosto e voz. Ao lado de Roberto Monte, no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, em Natal, pude ouvir e entrevistar antigos presos e perseguidos políticos ligados à Insurreição de 1935, ao Estado Novo e à ditadura civil-militar iniciada em 1964. Não eram mais apenas capítulos de livros de História. Eram pessoas diante de mim, contando o que viveram.

E por que recordar tudo isso agora? Porque estamos novamente em um ano eleitoral e vivemos uma quadra mundial marcada pelo crescimento da extrema-direita, de discursos autoritários e de formas de fazer política que transformam adversários em inimigos. E aqui faço uma ressalva indispensável: não estou me referindo à direita democrática.

Ser de direita não significa ser fascista, autoritário ou intolerante. A direita democrática pertence legitimamente ao campo da democracia, assim como a esquerda e o centro. Eu acredito no diálogo com quem pensa como eu e com quem pensa diferente. Minha crítica é à extrema-direita, sobretudo quando ela assume características neonazifascistas: desprezo pelas instituições, culto à força, fabricação de inimigos, violência política, racismo, misoginia, homofobia, intolerância religiosa e ódio ao diferente.

Há também uma escolha econômica. Podemos construir uma sociedade em que o mercado e a iniciativa privada estejam a serviço da vida e do bem comum, preservando direitos sociais e trabalhistas, combatendo a fome e a desigualdade, fortalecendo saúde, educação e proteção social. Ou podemos aceitar um ultraliberalismo econômico exclusivista e excludente, no qual direitos são tratados como obstáculos e a dignidade humana acaba submetida à lógica do lucro. A economia deve servir à pessoa humana, não a pessoa humana servir à economia.

Quando essa lógica econômica se encontra com a cultura do ódio, o resultado é ainda mais grave. O pobre é desprezado; a mulher, diminuída; o negro, discriminado; pessoas LGBT, transformadas em alvo; religiões diferentes, hostilizadas. A misoginia, o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância religiosa se espalham pelas redes sociais e atravessam as telas para atingir pessoas concretas. A palavra que desumaniza pode preparar o terreno para a violência que fere.

A mesma lógica alcança a natureza. Quando tudo se transforma em mercadoria, rios, florestas, mares e territórios são sacrificados em nome de uma ganância sem limites. Justiça social e cuidado com a Casa Comum não podem ser separados.

É nesse sentido que falo em civilização ou barbárie. Não como ataque à direita democrática e nem como slogan partidário, mas como uma pergunta ética. Civilização é reconhecer o outro como pessoa, garantir direitos, preservar a democracia e colocar a economia a serviço da dignidade humana. Barbárie é transformar o diferente em inimigo, naturalizar a exclusão, alimentar o ódio e flertar com o autoritarismo.

Tenho hoje 58 anos. Aquele menino que viu os exilados retornarem ao Brasil ainda vive em mim. E aquele adolescente que, ao lado de Fabiano, viu uma praça de Fortaleza tomada pela esperança democrática, ele também continua aqui.

Depois de tudo o que nossa geração viveu, não podemos tratar a democracia com indiferença. Ela é imperfeita e precisa ser aprofundada, mas é dentro dela que podemos lutar por mais justiça, liberdade, igualdade, direitos e dignidade. Fora dela, cresce a noite.

Neste ano eleitoral, talvez antes de perguntar em quem votar, devêssemos perguntar: que Brasil queremos? Um Brasil do medo ou da esperança? Do ódio ou da fraternidade? Da exclusão ou da justiça social? Da intolerância ou do diálogo? Da devastação ou do cuidado? Da barbárie ou da civilização?

Eu faço a minha escolha: democracia, dignidade humana, justiça social, liberdade, diálogo e fraternidade. Sempre.

Fonte
Brasil de Fato
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