All in: como as bets fraturam a saúde mental, as relações e a paz das famílias brasileiras? — Insubornavel

All in: como as bets fraturam a saúde mental, as relações e a paz das famílias brasileiras?

03/09/2026 às 00:300 بازدید
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil

"A parte mais triste de você estar sem dinheiro é quando você tem filhos, é quando seu filho pede uma coisa que você não pode comprar (...). E eles não entendem (...). Ele tá te vendo ali como um símbolo de mãe que sempre tem que ter dinheiro (...) você arruma de qualquer jeito, você trabalha, você tem que ter", disse à pesquisa uma apostadora de 43 anos, moradora do estado de São Paulo.

Ao todo, na etapa qualitativa, o estudo ouviu 60 pessoas, com idades entre 18 e 58 anos, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Mariana Ribeiro, diretora do Estúdio Clarice, aponta que durante a pandemia de COVID-19, com o aumento do custo de vida e desemprego, junto a poucos termos de regulamentação das apostas de quota fixa, as chamadas bets e jogos on-line encontraram a "tempestade perfeita" para criarem raízes no país. Ou seja, as pessoas precisavam de recursos e os jogos se apresentavam com uma alternativa de retorno financeiro rápido e fácil.

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"Muitas mulheres nos relataram isso: 'Eu achei que as bets eram uma voz de Deus conversando comigo, uma luz no fim do túnel para uma situação de muito apuro financeiro que eu estava passando'", revela Ribeiro.
Segundo a pesquisa "Raio X do Investidor Brasileiro", realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, o perfil do jogador brasileiro é masculino. O relatório mostra que 66% são homens com média de idade de 35 anos.
Por outro lado, 42% das mulheres no Brasil apostam ou já apostaram e outras 12% se dizem impactadas pelas bets, uma vez que filhos, maridos, pais ou algum familiar próximo desenvolveram problemas a partir desses jogos on-line. A maioria delas, cerca de 49%, apostam em cassinos on-line (como roletas e o jogo do Tigrinho), 29% delas vão até jogos de sorte instantânea (raspadinha, Aviator) e 26% executam apostas esportivas.
Olhar para as bets com este recorte de gênero, conforme a pesquisa "Mulheres e Bets", significa entender crises além das de impacto financeiro, mas aquelas que permeiam as relações afetivas e familiares. "Apostadoras ou não, são elas a parcela da população mais impactada, uma vez que administram as dimensões materiais (o orçamento) e emocionais (as relações) da maior parte das famílias brasileiras", aponta o estudo.

O cuidado como porta de entrada

Um dos pontos pelos quais a pesquisa se debruça é explicar por que as mulheres começam a apostar. Segundo o estudo, a porta de entrada não é o entretenimento ou a busca por adrenalina, mas o cuidado.
"Ano passado, um dos meus filhos ia fazer aniversário e eu não tinha dinheiro para comprar bolo, eu tinha R$10. Nos grupos que eu tenho do WhatsApp, as meninas fazem meia pra gente jogar: você coloca dez, eu te devolvo cinco, com o link dela. Eu coloquei os R$10, apostei e ganhei R$300. Salvou: comprei o bolo. Era meu único R$10 antes do pagamento", diz uma apostadora de 40 anos, também de São Paulo.
De acordo com Ribeiro, as entrevistadas descrevem viver o que a pesquisa chamou de "vida mínima": uma rotina apertada, voltada apenas para as necessidades mais básicas, sem espaço para pequenos prazeres, como dar um presente de aniversário a um filho, sair de casa, pagar uma conta em atraso. Nesse contexto, as apostas surgem como uma promessa de alívio rápido para cumprir o papel social de provedoras e cuidadoras.
O problema é que, ao entrar no jogo com essa expectativa, essas mulheres tendem a perder mais do que ganham e o resultado é o oposto do que buscavam: mais dívida, mais dificuldade para sustentar a casa, menos condições de cuidar da família.

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Na esteira dos prejuízos, a diretora do Estúdio Clarice comenta que os efeitos são devastadores para as mulheres dentro dessa economia do cuidado: ela entende que não consegue cumprir seu papel social, se sente inábil por não conseguir vencer em um jogo e também se culpabiliza por não conseguir cuidar da sua família.
Ao passo que elas se culpam, "dispensam um pouco dessa reflexão de que, na verdade, é um jogo de azar, que ele é construído de maneira predatória [...] Quando ela perde, ela perde porque ela não foi apta ou porque ela perdeu o controle, não soube parar, porque estava emocionada enquanto estava jogando", acrescenta a pesquisadora.
Nesta via, os impactos na saúde mental são sentidos: ao ouvir 209 mulheres quantitativamente, 20% delas afirmaram que começaram a sentir ansiedade ao começarem a apostar. Outras 9% relataram crise de pânico, 11% depressão e outras 12% reconheceram o vício em apostas.
A pesquisa também identificou um padrão específico entre as mães: mulheres com filhos apostam 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos, uma diferença atribuída justamente à pressão do papel de cuidadora e provedora.
Por outro lado, para além da conta orçamentária, mães que não apostam relataram problemas com as bets envolvendo seus filhos. À reportagem, Ribeiro comenta que depoimentos que mais a marcaram no desenvolvimento do estudo dizem respeito aos efeitos das apostas sobre a saúde mental de toda a família. Mães relataram filhos e filhas em processos de automutilação associados à ansiedade das perdas no jogo. Um dos casos mencionados foi o de uma mãe que passou a fazer vigília todas as noites na porta do quarto do filho, com receio de uma nova tentativa de tentar contra a própria vida ligada ao vício em apostas.
Outro padrão recorrente nos depoimentos é a quebra da confiança dentro de casa: mesmo quando um parceiro ou filho afirma ter parado de apostar, as mulheres relatam viver em estado de hipervigilância constante, sem conseguir voltar a confiar.
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Notícias do Brasil
Bets e futebol: 'combinação explosiva' já traz impactos severos nas famílias, aponta especialista
Um dado quantitativo reforça a gravidade do quadro e dos problemas que vão além dos impactos financeiros: 23% dos brasileiros ouvidos pela pesquisa afirmam já ter testemunhado situações de violência ou agressividade relacionadas a apostas on-line. Para a diretora do Estúdio Clarice, o número é alarmante justamente por representar cerca de um quarto da população, com a possibilidade de estar subestimado devido ao constrangimento em relatar esse tipo de episódio.

Dos influenciadores às relações de confiança: as mulheres foram cooptadas pelas bets

No cenário atual brasileiro, a publicidade ostensiva das bets inunda o dia-a-dia da população: nas redes sociais, na TV, em grandes festivais e até mesmo em espaços públicos como praças ou estações de transportes públicos.
"Esse tipo de articulação tem um papel muito importante no sentido da naturalização das apostas, de contar para a sociedade que apostas são normais, que elas estão em todos os lugares e que todo mundo está apostando" afirma a pesquisadora.
Outro braço importante para essa "normalização" do jogo na sociedade é a presença de influenciadores famosos nas redes sociais, ou grandes artistas e esportistas, que estampam peças publicitárias de casas de apostas ou as divulgam em seus perfis e ajudam a difundir a ideia de diversão. "Tudo isso é muito importante porque você vai criando esse colchão, essa camada de que é quase como se as bets estivessem em todos os lugares", ressalta Ribeiro.
De acordo com ela, o estudo, ao olhar para os sistemas de influência, enxerga camadas em sua funcionalidade, com a publicidade ostensiva e os grandes influenciadores e famosos no topo da pirâmide.

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Além deles, Ribeiro destaca microinfluenciadores e influenciadores de bairro, que seriam pessoas com poucos milhares de seguidores, mas com histórias de vida semelhantes às das próprias mulheres, que ajudam a reforçar a ideia de que "isso pode ser para você também".
Porém, o elo decisivo conforme a pesquisadora está nos vínculos pessoais: via de regra, essas mulheres entram por conta de terem recebido um link de uma amiga, um link de uma tia, de uma colega da igreja, de uma pessoa com quem ela tem algum vínculo social muito forte.
"Na igreja, a irmã chegou perguntando se alguém jogava. Isso é coisa de irmão perguntar? Ela falou que tava jogando, tinha ganhado um valor. Aí a outra irmã curiosa perguntou quanto foi que ela tinha ganhado. Aí ela falou: 'Se quiser eu te mando a plataforma e você bota só esse valor que ela tá pagando'. Aí eu peguei, fiquei com aquilo na minha cabeça. (...) todo mundo comentando que ganha, que ganha. Será que eu vou ganhar também? (...) fui lá e botei meu dinheiro. Perdi na primeira vez que eu botei, fiquei traumatizada. Aí depois eu vendo minha mãe jogando, minha mãe ganhando, porque na minha família tudinho joga, tudo é viciado (...) O meu marido é outro. Aí nessa comecei a me iludir também", diz uma apostadora de 47 anos, da Bahia, entrevistada pela pesquisa.
O exemplo descreve o que Ribeiro destaca à Sputnik: muitas delas, ao convidarem outras, estão cientes que seus ganhos dependem da perda da convidada — que, por sua vez, entra sem saber desses detalhes. A descoberta desse mecanismo, quando ocorre, costuma abalar profundamente a relação.

Elas também são a porta de saída

Apesar do quadro de vulnerabilidade descrito ao longo da pesquisa, a conclusão do estudo aponta em outra direção: as mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas do fenômeno das bets, mas como as pessoas com leitura mais precisa do problema e, por isso, com posição estratégica para ajudar a enfrentá-lo.
Os números levantados mostram que entre 1.062 mulheres ouvidas, 62% apoiam a proibição das casas de aposta. Além disso, 67% delas entendem que as bets estão acabando com as famílias brasileiras e 74% dizem que as apostas estão viciando os brasileiros.
A pesquisadora destaca que a sociedade brasileira, de forma majoritária e independentemente de posição ideológica, se posiciona a favor de restringir as apostas on-line — um raro ponto de consenso em um país polarizado. E são as mulheres a parcela da população mais vocal nesse posicionamento.
Entre as propostas mencionadas pelas próprias entrevistadas está a comparação com políticas já adotadas no Brasil para conter a publicidade de álcool e cigarro, sugerindo que parâmetros semelhantes poderiam ser aplicados à publicidade de apostas on-line. Segundo a pesquisa, 41% das mulheres ouvidas nesse tópico dizem que as propagandas devem ser proibidas.
A pesquisadora defende que qualquer política pública sobre o tema — seja voltada a mulheres apostadoras, seja a mulheres impactadas que buscam acolhimento em serviços como SUS, Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Centro de Assistência de Referência Social (CRAS) — precisa ser desenhada com a participação direta dessas mulheres, e não apenas pensada para elas.
"A gente não vai conseguir criar uma solução no Brasil para esse tema sem passar pelas mulheres, porque são as mulheres que hoje estão absorvendo mais esses impactos e também estão mais prontas a serem mobilizadas", destaca.
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