O inquérito da Polícia Federal (PF) que apura a relação do ex-governador Cláudio Castro (PL) com o empresário do grupo Refit Ricardo Magro, dono da antiga Refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, revela um esquema de vantagens. A lista inclui degustação de caviar, construção de uma adega e reforma de imóveis.
O sigilo da investigação foi derrubado pelo ministro relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O relatório autorizou a segunda busca e apreensão contra o ex-governador este ano. Os gastos descritos pelos investigadores estariam relacionados a fraudes que beneficiaram a atuação do grupo empresarial.
De acordo com o relatório, os elementos sugerem que a “relação entre Cláudio Castro e o Grupo Refit não se limitava ao contato protocolar”, mas sim a “existência de canal direto e privilegiado entre o então Governador, Ricardo Magro e representantes da empresa” para atender a interesses da refinaria.
Em mensagem de maio de 2025, Castro chama o empresário de amigo. “Eu que agradeço. Aqui você tem um amigo. Saiba disso”, escreveu o ex-governador a Magro.
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Na última segunda-feira (31), o Ministério Público (MPRJ) decretou a falência das empresas que compõem o grupo. Em quase dez anos de recuperação judicial, o passivo fiscal da Refit aumentou de cerca de R$ 5 bilhões para aproximadamente R$ 25,7 bilhões.
Segundo o MPRJ, mais de 80% dos tributos devidos entre 2022 e 2024 não foram pagos, caracterizando a empresa como devedora contumaz. O Brasil de Fato tentou contato com a assessoria da Refit e aguarda um posicionamento.
Em nota à imprensa, a defesa de Castro reafirmou que ele não praticou atos ilícitos. A defesa também nega envolvimento com os crimes investigados pela PF de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida e favorecimento a terceiros.
Lista de vantagens
Segundo a PF, um mês após renunciar ao governo do Rio, Castro solicitou a um representante da Refit “diferentes tipos e quantidades de caviar, cujos pedidos totalizaram a quantia de R$ 10.500,00″. A entrega da encomenda ocorreu em um hotel de luxo em São Paulo.
Consta na investigação o comprovante do valor via Pix realizado pela empresa de Antonio Carlos da Conceição Santos, conhecido como “Pipo”. O advogado foi assessor do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão, condenado como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco.
A investigação aponta “Pipo” como “figura central no esquema de branqueamento de capitais no mais alto escalão do governo do Rio”. A reportagem solicitou posicionamento por meio de um e-mail atrelado ao CNPJ da empresa de Antonio Carlos e aguarda retorno.
Outros benefícios pagos por terceiros incluem a construção de uma adega avaliada em R$ 245 mil na casa de Petrópolis e a reforma de uma cobertura na Barra da Tijuca, onde Castro mora. O relatório mostra que Castro supervisionou de perto as reformas nos locais onde mantinha contratos de aluguel.
“Limpa” do governo do RJ
O desembargador Ricardo Couto assumiu o governo do estado em março, após a renúncia de Castro na véspera de ter seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em maio, Castro virou alvo da operação Sem Refino, que apontou envolvimento da estrutura do governo para beneficiar o grupo de Ricardo Magro, dono da Refit.
Castro também é investigado na operação Compliance Zero, que apura investimentos de R$ 3 bilhões dos aposentados da Rioprevidência no Banco Master. Envolvido em escândalos de corrupção e condenado no caso do Ceperj, o ex-governador desistiu de concorrer ao Senado. O Partido Liberal (PL) indicou como sucessor ao governo do Rio Douglas Ruas, atual presidente da Assembleia Legislativa (Alerj).
No primeiro comício no Rio, em agosto, o presidente Lula (PT) elogiou a “limpa” de Couto no Executivo. O governador interino determinou auditorias em contratos públicos, extinguiu sub-secretarias e exonerou funcionários fantasmas. O desempenho da administração atual conta com 57% de aprovação da população fluminense, segundo pesquisa Atlas Intel.
A última pesquisa de intenção de voto confirmou a liderança de Eduardo Paes (PSD) para governador do estado. O ex-prefeito da capital integra o palanque do presidente Lula no Rio de Janeiro. Paes aparece com 45,5% dos votos válidos, seguido por Ruas com 28,7% e Anthony Garotinho (Republicanos) com 11,2%.
