Samba do Seu Lua fortalece cultura afro-brasileira em Mogi das Cruzes — Insubornavel

Samba do Seu Lua fortalece cultura afro-brasileira em Mogi das Cruzes

Von Jessica Silva / Renan Omura06/08/2026 às 21:366 Aufrufe

“O Samba do Seu Lua nasceu no quintal do terreiro, onde a gente se encontrava para tocar, cantar nossas cantigas e tudo aquilo que pertence à nossa cultura de terreiro”, explica o empreendedor e músico Matheus Bastos, 27, um dos fundadores e organizadores do evento, realizado em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. 

A roda de samba acontece uma vez a cada dois meses, no Galpão Arthur Netto de Cultura e Cidadania. Além da música, o encontro reúne gastronomia, exposições e representantes de comunidades de terreiro.

“A gente canta jongo, samba de roda, cantigas de capoeira. Tudo aquilo que pertence à nossa cultura vai fazendo parte do encontro” diz Matheus, que atua na organização de forma voluntária.

Co-fundador do Samba do Seu Lua, Matheus Bastos explica que o projeto foi criado para celebrar a música e a cultura de terreiro @Renan Omura/ Agência Mural
Co-fundador do Samba do Seu Lua, Matheus Bastos explica que o projeto foi criado para celebrar a música e a cultura de terreiro @Renan Omura/ Agência Mural

Co-fundador do Samba do Seu Lua, Matheus Bastos explica que o projeto foi criado para celebrar a música e a cultura de terreiro @Renan Omura/ Agência Mural

Além deles, parte dos 70 integrantes da casa ajudam na montagem da estrutura, na preparação dos alimentos, na recepção do público e nas apresentações musicais.

“Nenhum músico recebe cachê. É tudo muito orgânico e movido pelo compromisso de fortalecer a nossa comunidade”, diz o organizador.

Trabalho coletivo que fortalece a comunidade

Além de promover a cultura, o Samba do Seu Lua também ajuda a manter as atividades do Terreiro Lua Negra, em Mogi das Cruzes

“Nosso espaço é aberto ao público uma ou duas vezes por mês e já chegou a atender mais de cem pessoas. Isso gera custos. O samba nasceu também como uma forma de arrecadar recursos para manter esse trabalho”, diz Matheus.

Yasmin de Carvalho Oliveira, co-fundadora do Samba do Seu Lua, destaca a importância do evento como espaço seguro para manifestações da cultura de matriz africana @Renan Omura/ Agência Mural
Yasmin de Carvalho Oliveira, co-fundadora do Samba do Seu Lua, destaca a importância do evento como espaço seguro para manifestações da cultura de matriz africana @Renan Omura/ Agência Mural

Yasmin de Carvalho Oliveira, co-fundadora do Samba do Seu Lua, destaca a importância do evento como espaço seguro para manifestações da cultura de matriz africana @Renan Omura/ Agência Mural

Para a assistente comercial e musicista Yasmin de Carvalho Oliveira, 29, uma das fundadoras do projeto, o encontro representa um espaço de reconstrução coletiva.

“Quando falamos de cultura preta, de cultura de terreiro, existe o preconceito e a intolerância religiosa. Então, ocupar esses espaços também é uma forma de resistir”,

Yasmin de Carvalho

Os organizadores mantêm o Samba do Seu Lua por meio da colaboração dos integrantes e da arrecadação obtida com o bar e o churrasco realizados durante os encontros.

“A ideia é movimentar a economia dentro da nossa comunidade. A gente acredita que, quando uma pessoa cresce, ela ajuda a levantar a outra.” conta.

Para ela, esse espírito coletivo orienta todas as ações desenvolvidas pela comunidade. “O principal valor que a gente busca transmitir aqui é o senso de comunidade. Ninguém está aqui sozinho. Tudo que se faz aqui é em grupo e para o grupo.” relata.

Nayara Carvalho, uma das organizadoras do Samba do Seu Lua, afirma que o evento também fortalece a economia solidária ao abrir espaço para expositores @Renan Omura/ Agência Mural
Nayara Carvalho, uma das organizadoras do Samba do Seu Lua, afirma que o evento também fortalece a economia solidária ao abrir espaço para expositores @Renan Omura/ Agência Mural

Nayara Carvalho, uma das organizadoras do Samba do Seu Lua, afirma que o evento também fortalece a economia solidária ao abrir espaço para expositores @Renan Omura/ Agência Mural

Economia solidária

Nayara Carvalho, 34, uma das organizadoras do Samba do Seu Lua, explica que o evento também funciona como espaço de geração de renda e fortalecimento da economia solidária.

“A feira reúne artesãos, produtores culturais e outros empreendedores da própria comunidade. Eles participam gratuitamente dos encontros para comercializar seus produtos, como roupas, acessórios de moda, guias, acarajé e muito mais “, explica.

A iniciativa amplia a visibilidade de pequenos empreendedores ligados às casas de matriz africana  e integra diferentes formas de produção cultural ao encontro. 

“A ideia é incentivar o fortalecimento  da própria comunidade, criando oportunidades para que os expositores divulguem seus trabalhos e gerem renda a partir de suas produções”,

Nayara Carvalho

A dreadmaker Vanessa Roots, 41, participa como expositora e explica como o resgate cultural é parte fundamental do trabalho realizado no Samba do Seu Lua.

“O evento une a família, empreendedorismo, economia criativa da região e a música. Também ajuda a divulgar essa mistura de culturas e esse resgate das tradições ancestrais. Eu acho muito importante para a cidade,” diz.

Para a dreadmaker Vanessa Roots, o Samba do Seu Lua fortalece a economia criativa local e amplia a valorização da cultura afro-brasileira e de terreiro @Renan Omura/ Agência Mural
Para a dreadmaker Vanessa Roots, o Samba do Seu Lua fortalece a economia criativa local e amplia a valorização da cultura afro-brasileira e de terreiro @Renan Omura/ Agência Mural

Para a dreadmaker Vanessa Roots, o Samba do Seu Lua fortalece a economia criativa local e amplia a valorização da cultura afro-brasileira e de terreiro @Renan Omura/ Agência Mural

Encontro entre terreiros

O Samba do Seu Lua foi fundado em dezembro de 2024, junto à inauguração do terreiro Lua Negra, no bairro do Socorro, em Mogi das Cruzes. Inicialmente chamado de “Encontro de Tambores”, o projeto nasceu para celebrar a cultura preta e manifestações como o samba, o jongo, a capoeira e os cantos tradicionais.

Com o crescimento da iniciativa, o encontro passou a se chamar “Samba do Seu Lua”, em homenagem a uma entidade cultuada na casa religiosa. Segundo os organizadores, o nome representa alegria, acolhimento e espírito comunitário.

Grupo musical durante Samba do Seu Lua @Renan Omura/ Agência Mural
Grupo musical durante Samba do Seu Lua @Renan Omura/ Agência Mural

Grupo musical durante Samba do Seu Lua @Renan Omura/ Agência Mural

Yasmin acredita que o ambiente fortalece a identidade das pessoas de terreiro. “Tem muitos locais na sociedade em que a gente não consegue expressar isso com tanta alegria e naturalidade. Quando nos reunimos num samba de terreiro, podemos cantar nossos pontos em um espaço seguro. É aí que a magia acontece.” explica.

Ao longo de pouco mais de um ano, o evento deixou de reunir apenas frequentadores da casa e passou a atrair famílias e representantes de diferentes comunidades religiosas.

“Hoje a gente reúne cerca de 350 pessoas. Tem crianças correndo, jovens, adolescentes, idosos. Mas o mais bonito é perceber a presença de pessoas de diferentes terreiros. Na edição de junho, havia representantes de mais de sete casas diferentes. Acaba se tornando um lugar de bem-estar, de segurança e de festividade”, afirma Matheus.

Denúncias e resistência

O crescimento do Samba do Seu Lua também foi acompanhado por desafios. No final de 2025 começaram denúncias e reclamações por som alto, que resultaram em fiscalizações frequentes no terreiro onde o evento era realizado.

De acordo com os organizadores, qualquer atividade que envolvesse música, palmas e cantos motivava a presença de agentes públicos. 

“Sempre respeitamos os horários. Os tambores paravam antes das 22h e o samba terminava por volta das 20h. Mesmo assim começaram as denúncias, as visitas da fiscalização e as medições de decibéis passaram a ser frequentes”, relata Matheus.

O grupo de músicos interpreta repertório que inclui samba de roda, jongo, capoeira e cantos tradicionais ligados às culturas de matriz africana @Renan Omura/ Agência Mural
O grupo de músicos interpreta repertório que inclui samba de roda, jongo, capoeira e cantos tradicionais ligados às culturas de matriz africana @Renan Omura/ Agência Mural

O grupo de músicos interpreta repertório que inclui samba de roda, jongo, capoeira e cantos tradicionais ligados às culturas de matriz africana @Renan Omura/ Agência Mural

Para Yasmin, a situação revelou um problema maior do que a discussão sobre barulho. “Percebemos  que não era apenas uma questão de som. Existem igrejas, quermesses e outros eventos que acontecem na região sem gerar os mesmos questionamentos. Isso nos fez refletir sobre a intolerância religiosa e o racismo que ainda existem.”

Diante das dificuldades, a comunidade criou uma campanha de arrecadação para financiar o isolamento acústico do local, em abril de 2026. Embora a vaquinha não tenha arrecadado todo o valor necessário, ela serviu para fortalecer o grupo.

Com a vaquinha, mais os recursos arrecadados nos eventos, contribuições coletivas e um empréstimo realizado pelos dirigentes da casa, foi possível concluir as obras de isolamento acústico e avançar na regularização da instituição, que atualmente está em processo de formalização como associação.

Organizado de forma totalmente voluntária, o Samba do Seu Lua reúne cerca de 350 pessoas em cada edição @Renan Omura/ Agência Mural
Organizado de forma totalmente voluntária, o Samba do Seu Lua reúne cerca de 350 pessoas em cada edição @Renan Omura/ Agência Mural

Organizado de forma totalmente voluntária, o Samba do Seu Lua reúne cerca de 350 pessoas em cada edição @Renan Omura/ Agência Mural

Cultura, memória e futuro

O Samba do Seu Lua vai além do entretenimento e busca valorizar a história e as contribuições da população negra para a formação cultural brasileira. O evento acontece atualmente no Galpão Arthur Netto, um espaço cultural localizado no centro de Mogi.

“Levar o samba para o Galpão foi um divisor de águas. O espaço coloca o samba de terreiro no lugar da cultura e mostra que essa manifestação merece ser valorizada”,

Matheus Bastos.

As rodas de samba incorporam cantos tradicionais, homenagens aos ancestrais e referências às manifestações afro-brasileiras, tornando o projeto um espaço de afirmação identitária.

“Nós queremos que as pessoas conheçam o que é o samba, o jongo, a capoeira, os terreiros e toda a riqueza que existe nessas tradições. Isso faz parte da história do Brasil“, comenta  Yasmin.

A expectativa é consolidar um espaço permanente de formação, convivência e preservação da memória cultural. Para Yasmin, esse é o principal legado do projeto. “Quem vai para o Samba do Seu Lua nunca sai cansado. Sempre sai revigorado. É um samba que reenergiza as pessoas e faz a gente sentir orgulho de ser de terreiro.”

Matheus destaca que o  evento é aberto para todas as pessoas, independentemente da idade, religião ou de qualquer outra característica. “Quem gosta de samba, da cultura de terreiro ou admira a cultura preta será muito bem-vindo”.

Agência Mural

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