Venezuela assina acordos com empresas estrangeiras para expandir produção de petróleo — Insubornavel

Venezuela assina acordos com empresas estrangeiras para expandir produção de petróleo

Por Leonardo Fernandes02/09/2026 às 22:200 visualizações
Ato no Palácio de Miraflores para assinatura de contratos com empresas estrangeiras na área do petróleo.
Ato no Palácio de Miraflores para assinatura de contratos com empresas estrangeiras na área do petróleo.
Foto: | / Brasil de Fato

O governo da Venezuela e representantes de empresas estrangeiras assinaram nesta quarta-feira (2) uma série de acordos energéticos no Palácio de Miraflores, em Caracas. O evento contou com a presença da presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, e do secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright. A iniciativa ocorre no marco da cooperação binacional, anunciada em 28 de agosto de 2026, que foca na exploração de reservas de petróleo estimadas em 65 bilhões de barris, aumentando a produção diária.

Os contratos firmados buscam reverter os efeitos de dez anos de bloqueio econômico e sanções que reduziram drasticamente a produção petrolífera da Venezuela. Para viabilizar os novos investimentos, o país promoveu reformas na Lei de Hidrocarbonetos e aprovou um novo regulamento para o setor, em março deste ano. O objetivo central é converter o desenvolvimento dos recursos naturais em bem-estar social, com investimentos em saúde, educação e serviços públicos.

“Hoje estamos fazendo história com a assinatura de importantes acordos, nos quais a empresa Chevron expande sua presença, seus investimentos e sua tecnologia em nosso país. Quando falo de incrementar a produção, falo do bem-estar do povo venezuelano. Que esse incremento se traduza em mais emprego, mais salário, hospitais, escola e alimentação”, declarou a presidenta venezuelana em exercício.

“Reivindico cada dia mais o canal e o diálogo político-diplomático com os Estados Unidos; é o mecanismo para ter cooperação e bem-estar para os países”, completou Delcy Rodríguez.

Os novos contratos são resultado do pacto firmado entre os governos venezuelano e estadunidense, que envolve a exploração de 17 campos estratégicos e a atuação de empresas privadas em oito blocos na Faixa Petrolífera do Orinoco. Com isso, a estimativa inicial é de ampliar a produção em 440 mil barris de petróleo por dia. Estima-se que a arrecadação em tributos e impostos possa superar US$ 209 bilhões, com parte direta deles sendo reinvestida na infraestrutura básica da nação.

O secretário de Energia estadunidense afirmou que “missão do presidente [Donald Trump] na Venezuela é levar a paz, a liberdade, a oportunidade e a prosperidade para o povo”, ignorando a agressão militar dos Estados Unidos contra o país no dia 3 de janeiro, que causou a morte de mais de 100 pessoas e resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores.

“Acredito que os acordos assinados hoje, dezenas de bilhões de dólares de investimento, são fundamentais para começar a fazer girar esta bola de prosperidade. Estamos tentando trabalhar no que chamo de velocidade Trump. Ele queria ver uma transformação tão rápida quanto possível nas relações entre os Estados Unidos e a Venezuela. Se pudermos substituir o conflito do passado pelo comércio de hoje e do futuro, poderemos construir um mundo melhor”, disse Wright.

Os acordos

O acordo com a Chevron foca na empresa mista Petroindependência, para aumentar a produção de 250 mil para 420 mil barris por dia em uma primeira etapa, o que representa um crescimento de 68%. A petroleira estadunidense planeja investir US$ 7 bilhões para dobrar sua capacidade produtiva nos próximos cinco anos.

O representante da Chevron, Javier La Rosa, compareceu ao ato de assinatura do novo contrato no Palácio de Miraflores e celebrou o acordo. 

“O acordo de hoje é um marco importante para a Chevron, nossos parceiros e o povo venezuelano. Ele reflete o progresso em direção a uma estrutura mais competitiva e duradoura para investimentos de longo prazo. Juntamente com nossos parceiros, esperamos investir mais de 7 bilhões e dobrar a produção para aproximadamente 500 mil barris por dia nos próximos cinco anos. O mundo precisa de energia mais acessível e confiável, não menos. A Venezuela, com seus recursos extraordinários e pessoas talentosas, está ajudando a atender a essa necessidade”, declarou o executivo. 

Quem também comemorou os acordos de investimento na indústria petroleira venezuelana foi o presidente da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), Héctor Andrés Obregon, que é firmante da maioria dos acordos pela parte venezuelana. 

“O setor de hidrocarbonetos teve mudanças estruturais que permitiram assinaturas como as que hoje foram testemunhas: a reforma parcial da lei de hidrocarbonetos, a promulgação do regulamento e um contrato de CPP ajustado aos padrões internacionais. Isso criou as condições ideais de segurança jurídica para trazer investimento privado ao nosso país. Nosso objetivo é visar uma geração própria de energia e garantir que essa produção petrolífera tenha confiabilidade e estabilidade”, disse o diretor da estatal. 

Por sua vez, a italiana ENI assinou um contrato de participação produtiva para atuar no bloco Junín 5, um dos maiores da Faixa Petrolífera do Orinoco. O projeto prevê um aporte incremental de 200 mil barris diários. 

Já a empresa Primavera assinou um contrato para operar no bloco Budare Elotes, com a previsão de adicionar 70 mil barris por dia à produção nacional. O projeto enfatiza o uso de tecnologia de ponta e a atração de profissionais venezuelanos que vivem no exterior.

O acordo com a Aspect Holding estabelece um estudo conjunto de viabilidade técnica e econômica para a exploração na área de Oficina Norte. Esta é a primeira licença exploratória do tipo sob o novo marco legal do país.

Também entrou no bojo dos acordos assinados nesta tarde uma parceria com a General Electric Vernova, que busca a recuperação da infraestrutura elétrica da indústria petrolífera e do sistema nacional por meio da Corpoelec. A meta é garantir que a produção de petróleo tenha geração própria de energia para não sobrecarregar a rede que atende à população, além da modernização do sistema nacional. 

Os detalhes relativos aos investimentos e contrapartidas não foram divulgados. Na saída do evento, o secretário estadunidense de Energia disse que os detalhes serão publicados em breve. 

Coletiva de imprensa

Após o ato de assinatura dos acordos, a presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, e o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, ofereceram uma coletiva de imprensa. Nas declarações iniciais, o funcionário do governo Trump afirmou que as duas partes saem ganhando com a nova “parceria energética”.

“Este acordo que a Venezuela está assinando com os Estados Unidos é um acordo vencedor, no qual ambas as partes obterão imensos benefícios. Haverá mais investimento para a Venezuela. Isto vai melhorar a vida dos venezuelanos. E, claro, como eu disse, será um acordo de ganha-ganha”, afirmou Wright.

Presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, e o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, durante coletiva de imprensa, no Palácio de Miraflores –
Presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, e o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, durante coletiva de imprensa, no Palácio de Miraflores – — Juan Barreto/AFP | Crédito: Juan Barreto/AFP
Presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, e o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, durante coletiva de imprensa, no Palácio de Miraflores – Foto: Juan Barreto/AFP | Crédito: Juan Barreto/AFP

O secretário ainda reconheceu que o objetivo imediato do governo estadunidense é reduzir o preço da commodity, que disparou nos últimos meses, sobretudo devido às guerras promovidas pelos próprios Estados Unidos na Ásia Ocidental. 

“O progresso para baixar os preços do petróleo nos Estados Unidos ocorre todos os dias, todas as semanas. Os benefícios de longo prazo serão enormes e os benefícios de curto prazo serão tão grandes quanto pudermos. Mas estamos adiantados em relação ao cronograma, adiantados em relação ao plano, e estou confiante de que, nos próximos 12 a 24 meses, o progresso aqui e o progresso para os americanos serão significativos”, disse Wright.

Por sua vez, Rodríguez enfatizou que os benefícios econômicos serão sentidos rapidamente pela população por meio da criação de novos empregos. Ela afirmou que o governo está em contato com câmaras empresariais para ativar setores como metalurgia, hotelaria e alimentação. O objetivo central da cooperação é transformar regiões isoladas em locais com estradas, eletricidade e água. 

“A Venezuela é muito mais ampla do que as nossas diferenças. Existe um país muito amplo que não é o dos extremos, é da maioria da Venezuela. Com cada emprego que for criado, e isso será muito rápido, estarei respondendo à Venezuela sobre os benefícios que isso traz para o nosso país”, declarou. 

“Onde hoje há uma grande savana sem nenhum tipo de desenvolvimento, ali veremos vias, eletricidade, água e infraestrutura”, seguiu a presidenta em exercício.

“Durante anos dissemos que a Venezuela tem a primeira reserva petrolífera do planeta, e é verdade, mas países que estão na oitava, nona ou décima posição são os primeiros exportadores do mundo. E a Venezuela está na posição 20. Eu quero trabalhadores que tenham bons salários. Quero que um cidadão que vá a um hospital seja bem atendido e que o local esteja bem equipado. Quero educação de qualidade e todo o sistema de proteção social do nosso povo por meio dos benefícios que receberemos com esses investimentos”, afirmou Delcy Rodríguez.

“A outra opção é ficarmos contemplativos, vendo esses campos perdidos sem que nada seja feito”, agregou.

Eleições e sanções econômicas

A presidenta em exercício da Venezuela foi questionada por jornalistas sobre a realização de novas eleições presidenciais no país. 

“Na Venezuela há uma Constituição. E há um sistema eleitoral e democrático previsto na Constituição. Eu não fixo a data, mas posso te dizer que, sem descanso, desde o mês de janeiro, a primeira coisa que fiz foi convocar a convivência democrática, porque o caminho que a Venezuela havia tomado não era um tema de eleições. O caminho em que o extremismo não vê benefícios nestes tremendos acordos, o caminho em que a intolerância se impôs nas relações, o caminho em que o ódio não permite ver o outro. Tenho trabalhado sem descanso para que a Venezuela esteja pronta e preparada quando corresponder ir ao seu processo eleitoral, que haverá, não tenha dúvida disso”, garantiu.

A Corte Suprema da Venezuela validou, em 5 de janeiro de 2026, a continuidade do mandato de Nicolás Maduro, após seu sequestro, já que a Constituição do país não prevê a situação de ausência nessas condições. Dessa forma, determinou que a então vice-presidenta, Delcy Rodríguez, assumisse na condição de presidenta em exercício, até que a situação seja resolvida. Ou até o final do mandato vigente, que termina em 2030. No entanto, a Assembleia Nacional pode atestar a ausência absoluta e convocar novas eleições antecipadamente. 

Ao lado do secretário Cris Wright, Rodríguez voltou a condicionar a realização de eleições à eliminação das sanções econômicas, comerciais e à devolução de ativos da Venezuela.

“Haverá processo eleitoral, mas nas condições em que a Venezuela esteja preparada. Seguimos trabalhando com as autoridades para que definitivamente se levante o sistema de sanções e a economia venezuelana, o desenvolvimento social da Venezuela, possa ocorrer sem nenhuma dificuldade”, pontuou a presidente em exercício.

Fonte
Brasil de Fato
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