Produção de cogumelos em Gansu é exemplo de envolvimento de empresas na estratégia de revitalização rural da China — Insubornavel

Produção de cogumelos em Gansu é exemplo de envolvimento de empresas na estratégia de revitalização rural da China

Por Mauro Ramos03/09/2026 às 09:001 visualizações
Trabalhadoras na produtora de cogumelos ecológicos Naduoduo, no condado de Zhuoni, Prefeitura Autônoma Tibetana de Gannan, província de Gansu, China. 14 de julho de 2026
Trabalhadoras na produtora de cogumelos ecológicos Naduoduo, no condado de Zhuoni, Prefeitura Autônoma Tibetana de Gannan, província de Gansu, China. 14 de julho de 2026
Brasil de Fato

Em 2021, a China lançou um programa para envolver as empresas no processo de Revitalização Rural, o “Dez Mil Empresas Revitalizando Dez Mil Vilarejos”, que, na verdade, é a continuidade do mesmo programa iniciado em 2015 e que envolveu empresas na política de erradicação da extrema pobreza.

O programa se adaptou para acompanhar a estratégia de revitalização rural, que visa consolidar as conquistas do combate à pobreza do período anterior.

Um exemplo do programa é a empresa de cogumelos “ecológicos” (ver definição abaixo) Naduoduo, que fica na região do planalto tibetano, em Gannan, na província de Gansu.

Pessoas que saíram de suas terras natais e se tornaram empreendedoras de sucesso fora estão entre os atores que o programa “Dez Mil Empresas” busca envolver. A empresária Zhang Naxin é uma delas. Natural de Longnan, interior de Gansu, ela passou uma temporada nos Estados Unidos, onde estudou, e voltou à província há quatro anos para fundar a Naduoduo.

“Acredito que a revitalização rural trouxe benefícios reais ao atrair investidores externos: gera mais oportunidades de emprego e garante melhor os meios de vida das pessoas”, conta Zhang ao Brasil de Fato.

Por meio de uma parceria com o Colégio de Agricultura de Tianjin (na região leste do país), a empresa desenvolveu 17 variedades de cogumelos adaptadas à altitude da Prefeitura Autônoma Tibetana de Gannan, que varia de 1.100 metros a 4.900 metros acima do nível do mar.

Zhang Naxin afirma que houve um processo de formação técnica para o cultivo de cogumelos comestíveis e “serviços de processamento primário” para cerca de 100 trabalhadores. Mais de 95% dos trabalhadores são mulheres, segundo dados da empresa.

Herança tibetana

A maioria da população de Zhuoni é tibetana, por isso é uma província autônoma dessa etnia. O turismo cultural que o condado vem desenvolvendo também se apoia no patrimônio imaterial dessas comunidades.

Teng Li Ping cita dois patrimônios imateriais de nível nacional: a Dança do Tambor Balang e a indumentária Sange Mao.

A guia Yu Cai Xia tem ascendência han e tibetana, o Escritório de Turismo de Zhuoni e costuma cantar músicas locais para os visitantes. Na cachoeira Fenda do Céu, no vale de Dayu, a reportagem pediu para Yu cantar uma música tradicional. Ela escolheu “Lindo Zhuoni”, uma música que celebra o condado onde vive. Ouça a canção no vídeo da reportagem:

Produção ecológica

O clima frio e úmido do planalto tibetano favorece o cultivo do cogumelo conhecido como orelha-de-judas. Por estar numa área de preservação ambiental, a produção precisa ser “ecológica”.

Na China, os produtos agrícolas recebem diferentes certificações. O termo “ecológico” usado pela Naduoduo se refere ao padrão Alimento Verde Nível A, que é mais rigoroso que o produto convencional, pois exige controle de qualidade e limite no uso de insumos, mas é menos exigente que a certificação orgânica, que proíbe totalmente o uso de agrotóxicos.

O processo, explica Zhang, usa sacos de substrato feitos de serragem e sabugo de milho, em condições que imitam o ambiente natural. Depois da colheita, os sacos são reciclados e viram pellets de biomassa, um biocombustível sólido em formato de pequenos cilindros, feito com resíduos vegetais compactados sob alta pressão. “Todo o processo de produção gera zero contaminação ambiental, por isso nossa produção não é afetada pelas regulamentações ambientais”, diz.

Indústria e turismo cultural

Em 2020, o condado de Zhuoni lançou o plano “Cinco Culturas de Dez Mil Mu” (pouco mais de 666 hectares), uma iniciativa que visa desenvolver em grande escala cinco produtos: cogumelos comestíveis, cevada, colza, ervas medicinais tibetanas e forragens. Para os cogumelos, a meta é manter a área plantada acima de 10 mil mu. Em 2024, o condado produziu 2.800 toneladas de cogumelos, no valor de 208 milhões de yuans (cerca de R$ 160 milhões), beneficiando 5.960 famílias, segundo o governo do condado.

O plano de desenvolvimento de Zhuoni tem nos cogumelos um de seus pilares, mas também aposta no turismo ecológico e cultural. Teng Li Ping, vice-presidente do Comitê de Arte e Literatura do Partido Comunista local, explicou ao Brasil de Fato que a aposta atual tem esses dois eixos: o fortalecimento da agricultura e pecuária e o turismo cultural.

A cevada, colza e cogumelos, com destaque para o orelha-de-judas, têm contribuído para o aumento da renda dos camponeses da região.

Do lado do turismo, a região conta com diversas áreas: o vale de Dayu, o Portão de Pedra dos Nove Céus, o Lago da Represa de Jiudian, o vale de Cheba, casas tibetanas centenárias e a Estrada Jiangdie, também conhecida como “a rodovia panorâmica de 100 quilômetros mais bonita da China”.

Fonte
Brasil de Fato
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