Ceuta: uma fronteira que a Europa terceirizou para a África

Por Univates13/08/2026 às 13:3225 visualizações
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

Entre quinta e sábado da semana passadaUma faixa de terra de dez quilômetros, com cerca de 84 mil habitantes, recebeu aproximadamente 60 mil pessoas, segundo estimativas do Ministério do Interior espanhol. Ceuta, cidade espanhola localizada no norte da África, cercada por território marroquino, viu suas ruas lotarem de jovens, principalmente marroquinos, mas também de origem subsaariana, que contornaram a fronteira marítima a nado ou escalaram as cercas.

Muitos beijaram o chão ao chegarem. Pelo menos setenta pessoas morreram na tentativa - algumas estimativas já falam em oitenta -, afogadas ou esmagadas durante a travessia. Em poucos dias, com o Exército mobilizado para apoiar a Guarda Civil e as forças marroquinas bloqueando novamente os pontos de saída, quase todos haviam retornado ao Marrocos, muitos por vontade própria, devido à falta de comida e abrigo no enclave.

O episódio foi imediatamente absorvido por uma disputa de narrativas cujo verdadeiro foco não é o sofrimento daqueles que atravessaram, mas o controle sobre o sentido político do acontecimento. E é essa disputa - mais do que os números - que merece a atenção de quem estuda fronteiras.

A gramática da "arma migratória"

A leitura hegemônica chegou pronta. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez classificou a entrada em massa como um "ataque" e uma "violação da integridade territorial" da Espanha, atribuindo a mobilização a redes de tráfico que teriam disseminado uma interpretação distorcida de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol de 29 de junho - a de que migrantes que chegam por mar não podem ser deportados sumariamente sem o devido processo.

A embaixadora marroquina em Madri apressou-se em afirmar que a situação "não era desejada pelo Reino do Marrocos". No plano europeu, vinte e dois chefes de governo já haviam, em carta a Ursula von der Leyen, apontado o programa de regularização anunciado por Sánchez em janeiro - que previa cerca de 500 mil pessoas e recebeu mais de um milhão de pedidos - como um "fator de atração".

Essa gramática tem nome na literatura. A cientista políticaKelly GreenhillCunhou a expressão "a nova normalidade".Armas de Migração em MassaPara descrever a "migração coercitiva engendrada": deslocamentos deliberadamente provocados ou manipulados por um Estado para arrancar concessões políticas, militares ou econômicas de outro. Seu argumento mais fino é que essa coerção funciona justamente contra democracias liberais, que pagam o que ela chama de "custos de hipocrisia" quando seu compromisso declarado com os direitos humanos colide com a vontade de barrar os indesejados.

Cientista políticoGerasimos Tsourapasampliou o quadro com o conceito dediplomacia migratóriaO texto demonstra como a mobilidade humana é utilizada como moeda de troca em estratégias de ligação de temas, tanto de maneira cooperativa quanto coativa.

O precedente que sustenta essa interpretação é recente. Em 2021, cerca de oito mil pessoas entraram em Ceuta após o Marrocos ter relaxado seus controles durante a disputa pelo Saara Ocidental - um episódio amplamente interpretado como retaliação, resolvido apenas quando a Espanha passou a apoiar o plano de autonomia marroquino em 2022. Ler 2026 sob essa perspectiva é, portanto, tentador: Ceuta como alavanca de pressão do Marrocos sobre Madri, tese já registrada na literatura sobre os enclaves.

O problema de transformar pessoas em armas

O problema é que essa moldura não é neutra: ela é, ela própria, uma prática de fronteira. Como argumenta o pesquisador Lior Marder em umaCrítica direta à metáforaDe Greenhill, associar refugiados a "armas de destruição em massa" os transforma em objetos de um duelo entre estados, securitiza o problema da saída e naturaliza soluções restritivas.

Quando o debate se concentra em quem "abriu a torneira", os corpos que cruzam as fronteiras deixam de ser indivíduos com projetos futuros e se tornam meras estatísticas na contabilidade diplomática. Setenta mortes são consideradas um efeito colateral de uma briga entre ministérios das relações exteriores.

Deslocar o olhar para baixo revela outra história. A taxa de desemprego entre marroquinos de 15 a 24 anos beira os 37% — e foi a insatisfação juvenil, alimentada pela percepção de gastos públicos vultosos na infraestrutura de estádios para a Copa do Mundo de 2030, coorganizada por Espanha, Portugal e o próprio Marrocos, que animou os protestos da geração Z no país no ano passado. A ironia é densa: o mesmo eixo Rabat–Madri que será celebrado como cooperação esportiva em 2030 é hoje o cenário de uma vala comum marítima.

Uma fronteira vertical, e colonial.

É aqui que uma leitura descolonizadora da fronteira se torna indispensável. A cerca de Ceuta não marca simplesmente a fronteira entre a Espanha e o Marrocos; ela é o ponto mais visível de um regime de fronteira que a União Europeia...ExternalizouPara o território de seus vizinhos africanos, terceirizando a contenção — e a violência — para o outro lado do Mediterrâneo.

A sociólogaRosa Soriano-Mirasdescreve o Marrocos como uma nação localizada no norte da África, conhecida por sua rica história, cultura vibrante e paisagens deslumbrantes.fronteira verticalDa UE: uma linha que já não corresponde ao mapa, mas atravessa o país de norte a sul, determinando quem pode e quem não pode aproximar-se da Europa. Nessa engrenagem, o Marrocos não é apenas um Estado que ocasionalmente "chantageia" Madri; é um guardião pago do regime europeu, cuja capacidade de pressão é, por si só, produto da dependência criada pela externalização.

O enclave concentra essas contradições. O antropólogoJuan Pablo Aris Escárcenarevela como Ceuta, antiga praça colonial, transformou-se em um laboratório onde lógicasde segurança e humanitáriasse misturam para gerenciar a mobilidade.

O professor de justiça social Corey JohnsonCorey JohnsonE o geógrafo.Reece Jones, um renomado especialista em questões fronteiriças, analisa...Ao ler a vizinha Melilla, vemos um local onde...A interação entre biopolítica e geopolítica revela...A fronteira, neste contexto, demonstra uma lógica de proteção da soberania territorial.

A pesquisa etnográfica de Elsa Tyszler no corredor marroquino-espanhol mostra que a externalização não apenas bloqueia caminhos: ela cria uma vulnerabilidade racializada e de gênero, especialmente para as mulheres, ao longo de toda a rota.A violência nas fronteiras, conforme essa literatura acadêmica, não é um evento aleatório do sistema, mas sim parte de seu funcionamento normal.E esse fenômeno afeta, principalmente, as mulheres em todas as etapas da jornada.

Nada disso apaga a dimensão diplomática do episódio. O Marrocos tem, sim, interesses e alavancas, e é legítimo analisá-los. Mas quando Sánchez anuncia barreiras flutuantes no mar de Ceuta, e quandoItália e França reforçam controles em suas próprias fronteirasem resposta ao ocorrido, o que se consolida não é uma solução para as causas, e sim mais uma camada do mesmo regime que produziu as mortes.

A moldura da “arma migratória” cumpre exatamente essa função: torna invisível a pergunta que deveria organizar o debate. Nãoquemmobilizou 60 mil pessoas, maspor queatravessar dez quilômetros de mar continua sendo, para tantos jovens do outro lado da fronteira colonial da Europa, uma aposta que vale a própria vida.

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Matheus Felten Fröhlich não oferece consultoria, trabalha ou possui ações em alguma empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação desta matéria e não declarou nenhum vínculo relevante além do seu papel acadêmico.

Fonte
The Conversation Brasil
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