Jaqueline Kambiwá: ‘Se nosso território sangra, nossos corpos, enquanto mulheres indígenas, são violados’ — Insubornavel

Jaqueline Kambiwá: ‘Se nosso território sangra, nossos corpos, enquanto mulheres indígenas, são violados’

Di BdF Entrevista05/09/2026 às 00:4616 visualizzazioni
Jaqueline Kambiwá fala sobre o conceito de corpo-território e reforça que demarcação de terras é principal luta
Jaqueline Kambiwá fala sobre o conceito de corpo-território e reforça que demarcação de terras é principal luta
Brasil de Fato

O número de homicídios de mulheres e meninas indígenas no Brasil registrou crescimento de 500% nos últimos 20 anos, conforme revela um estudo recente da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Essa escalada de violência está ligada a fatores como a invasão de terras, garimpo, desmatamento, racismo estrutural, circulação de armas de fogo e a ausência de políticas públicas governamentais eficazes.

Para Jaqueline Kambiwá, ativista da Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), esse aumento estatístico também reflete o fortalecimento das denúncias e a crescente ocupação de espaços de representação por lideranças indígenas, que decidiram romper um silêncio histórico de mais de 500 anos. “As mulheres e meninas indígenas são as maiores vítimas desse processo de violência patriarcal, estrutural”, aponta.

A violência contra mulheres indígenas se manifesta de múltiplas formas, sendo, segundo a ativista, mapeados mais de 18 tipos, que abrangem desde a violência obstétrica em hospitais urbanos até graves casos de violência física. Mas Jaqueline Kambiwá afirma que uma das violências mais recorrentes é o estupro de mulheres e meninas, principalmente no bioma amazônico. “Os não indígenas entram ali, invadem esses territórios, em muitos casos embebedam as meninas indígenas, que às vezes nem falam o português, só falam o seu idioma materno, estupram essas meninas e, enfim, violentam os nossos corpos e territórios”, conta.

Como guardiãs das águas, das florestas e dos saberes ancestrais, as mulheres indígenas colocam-se diretamente na linha de frente da proteção de suas comunidades, o que as torna alvos prioritários de invasores que respondem a interesses econômicos locais. Segundo Jaqueline Kambiwá, essa realidade de vulnerabilidade é traduzida pelo conceito de “corpo-território”, que expressa a impossibilidade de separar a integridade física das mulheres da integridade de suas terras.

“Nosso corpo está estritamente interligado ao nosso território. Se nós sofremos, se o nosso corpo sofre, o nosso território sofre. Se o nosso território sofre, se o nosso território sangra, se o nosso território é violado, os nossos corpos, enquanto mulheres indígenas, são violados.”

Diante disso, a demarcação de terras surge como a reivindicação central de mobilizações como as Marchas das Mulheres Indígenas e o Acampamento Terra Livre (ATL), pois é a garantia de sobrevivência e o caminho para o acesso a direitos fundamentais. “Muitas políticas públicas não chegam nos territórios porque eles não são demarcados. Eles estão em um processo de retomada, eles não são territórios reconhecidos pelo Estado, eles estão em extrema vulnerabilidade com a presença de invasores”, relata.

Para mapear essas realidades invisibilizadas pelo Estado, a Anmiga está construindo de forma autônoma o seu primeiro mapa da violência contra mulheres e meninas indígenas. “Sem a terra nós não existimos, então a demarcação de terra é a nossa maior luta, desde sempre”, define a ativista.

Confira a entrevista completa abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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