Parceria em defesa cibernética com Abu Dhabi reforça laços do Brasil com Sul Global, dizem analistas — Insubornavel

Parceria em defesa cibernética com Abu Dhabi reforça laços do Brasil com Sul Global, dizem analistas

03/09/2026 às 19:325 بازدید
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
O Exército Brasileiro e o conglomerado emiradense EDGE Group anunciaram no fim do último mês uma parceria para desenvolvimento e criação do Centro de Excelência em Defesa Cibernética (COE). De acordo com os responsáveis pelo projeto, esta será a primeira instalação deste tipo na América Latina a operar por meio de uma tríplice hélice: governo, academia e indústria.
O COE terá como objetivo proteger os sistemas e redes das Forças Armadas e de outras instituições federais, realizando capacitações para lidar com ataques, dando treinamentos para evitar invasões e desenvolvendo uma doutrina nacional para esse tipo de evento.
"A iniciativa reflete um compromisso estratégico e paritário entre as duas instituições fundadoras de estabelecer uma organização permanente, com padrões internacionais de referência, para atender às demandas de cibersegurança do Brasil e contribuir para a região em geral", destaca o EDGE Group em nota.
Ainda por meio do comunicado do grupo emiradense, "os parceiros fundadores realizarão investimentos diretos na instituição", mas não informou quanto será destinado ao projeto, tampouco onde será a sede do COE.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que a parceria entre o Exército Brasileiro e um grupo emiradense reforça o compromisso de Brasília com o Sul Global. No entanto, destacam a necessidade de transformar esse projeto conjunto em apenas um primeiro passo para o desenvolvimento de uma indústria e uma tecnologia nacional.
Juliana Zaniboni, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (PPGEST/UFF) e especialista em cibersegurança e ciberdefesa, conta que é preciso analisar além do próprio acordo e questiona se há um projeto de longo prazo por trás da parceria.

"Se o Brasil faz esse tipo de negociação, essa ideia de transferência de tecnologia, mas ao mesmo tempo não tem essa política ou esse entendimento a longo prazo de como pegar essa tecnologia e transformar em nacional, fazer disso um processo de industrialização [...], essas transferências não seriam pensadas a longo prazo."

Zaniboni desta que esta cooperação estreita os laços entre Brasil e EAU, que tem crescido desde a entrada de Abu Dhabi no BRICS. No entanto, a especialista destaca que o país árabe é aliado dos Estados Unidos e questiona se o desenvolvimento do COE com um outro Estado configura soberania ao Brasil.
"A ideia da soberania é ter a gerência sobre infraestruturas, ter o poder. Se você se mantém nesse lugar de compra eterna, será de fato uma soberania? Os EAU são parceiros, tudo bem, mas, caso alguma coisa no sistema internacional aconteça e esse tipo de compra não seja mais utilizada, não seja mais possível, o que a gente faz?"
João Gabriel Brumann, professor de relações internacionais da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), acredita que o ideal era o Brasil desenvolver o COE de maneira autônoma, mas não vê riscos à soberania do país. O especialista, por sua vez, valoriza a transferência de expertise emiradense, assim como o dinheiro que o grupo árabe pode aportar para fazer essa tríplice hélice funcionar.
"Não pode ser considerada uma diminuição da nossa autonomia, da nossa soberania, na medida em que deve envolver contrapartidas, o que a gente chama de offset. Até onde foi divulgado, não se trata de uma aquisição, mas sim de uma parceria, de um desenvolvimento em conjunto, e isso é extremamente comum na área de defesa."
Brumann ressalta a escolha de um grupo pertencente a um país fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que reforça a pluralidade de parcerias brasileiras no campo da defesa. Para o especialista, a ideia desse acordo não é afrontar alguma nação em específico, mas mostrar que o Brasil busca aliados além do Norte Global.
"Isso é realmente uma ampliação de laços do Brasil, é o funcionamento de uma diplomacia de defesa voltada para o Sul Global, para os países em desenvolvimento, se você preferir. E pode ser uma forma de demonstrar autonomia frente a essas investidas, sim, demonstrar que o Brasil tem capacidade de articular outros parceiros para continuar se capacitando nos eventos de defesa."
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O grupo emiradense mais brasileiro?

O site InvestNews fez um levantamento das aquisições do EDGE Group no Brasil e mostrou que os emiradenses já compraram participações em três empresas de defesa nacionais: 100% da Akaer (tecnologia aeroespacial, energia e automotiva), 51% da Condor (tecnologias não letais) e 50% da SIATT (mísseis).
Zaniboni conta que os Emirados Árabes Unidos têm diversificado investimentos no setor de defesa, sendo o Brasil o segundo maior parceiro no continente. Brasília só fica atrás de Washington, que assistiu à migração de empresas norte-americanas da área de inteligência artificial para Abu Dhabi.
Pensando nos aspectos econômicos, a especialista não vê o Brasil em pé de igualdade com o EDGE Group no projeto do COE.

"Acho que [esse acordo] se torna mais vantajoso para eles, que estão ativamente fazendo essa diversificação de mercado para eles. Em relação ao Brasil, tenho já as minhas ressalvas. A gente não está levando a nossa tecnologia, a gente está em uma posição mais subalterna."

Brumman, por outro lado, acredita que a venda das aeronaves multimissão Embraer C-390 feitas aos Emirados Árabes Unidos pode ter tido como contrapartida o estreitamento de laços de defesa dos dois países.
"Como o Brasil pratica cláusulas de offset para si, outros países também praticam para eles. É muito provável que isso tenha sido negociado no pacote ou que tenha aberto essa possibilidade por conta dessa aquisição [do C-390]."
A escolha do Exército Brasileiro, em específico, para a realização desse projeto, segundo Brumman, se dá pelo planejamento estratégico estabelecido no Livro Branco de Defesa Nacional, publicado em 2012. O documento também prevê que a Marinha realize o desenvolvimento de planos sobre energia nuclear e a Força Aérea, por sua vez, cuide da parte aeroespacial.

"O Livro Branco deixa bem clara essa divisão de responsabilidades frente aos projetos estratégicos brasileiros. [...] É o pessoal do Exército que tem essa expertise e a articulação [para ciberdefesa]."

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