O que está por trás do endurecimento da postura do governo de Milei em relação às Malvinas?

07/09/2026 às 06:2390 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Milei também anunciou o endurecimento das sanções contra as empresas petrolíferas que operem sem autorização nas Ilhas Malvinas. O Reino Unido reagiu horas depois, rejeitando o discurso.
Em mensagem transmitida em cadeia nacional e acompanhada por todo o seu gabinete, o presidente argentino anunciou a assinatura de um decreto para acelerar os procedimentos de sanção previstos na Lei 26.659 contra as empresas, acionistas, diretores e fornecedores que participem da extração de hidrocarbonetos em território sob ocupação britânica sem autorização argentina.
O projeto Sea Lion, promovido pela israelense Navitas e pela britânica Rockhopper, está sendo desenvolvido na Bacia Norte das Malvinas e prevê a extração de petróleo em uma área que a Argentina reivindica como parte de sua plataforma continental. O governo argentino sustenta que se trata da exploração de um recurso natural não renovável que pertence aos argentinos, algo que classificou como inédito.
O decreto anunciado impedirá as operações em território argentino das empresas envolvidas, direta ou indiretamente, em projetos não autorizados nas ilhas, e prevê a possibilidade de julgamento à revelia das empresas e de seus fornecedores. Também determina aos órgãos do Estado que encaminhem à Chancelaria os descumprimentos legais que forem identificados.
Além do endurecimento das sanções, o governo argentino enviará ao Congresso um projeto de lei de defesa da soberania nacional que prevê a criação de um Conselho de Segurança Nacional, com poderes para responder por meio de instrumentos econômicos e diplomáticos a atores estatais ou não estatais que Buenos Aires considere uma ameaça.
O outro anúncio central da mensagem presidencial foi a ampliação dos recursos do Ministério da Defesa para avançar na construção de uma Base Naval Integrada na Terra do Fogo, no extremo sul do país, com o objetivo de transformar a Argentina em um polo logístico do Atlântico Sul.
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Panorama internacional
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O presidente lembrou que, há 50 anos, as Nações Unidas pedem à Argentina e ao Reino Unido que se abstenham de ações unilaterais sobre o arquipélago enquanto a disputa de soberania não for resolvida. Esse apelo inclui a exploração de recursos naturais e, segundo Milei, foi descumprido por Londres ao avançar com o projeto petrolífero sem autorização argentina.
Milei relacionou o momento escolhido para o anúncio às declarações de seu homólogo estadunidense, Donald Trump, que na semana passada sugeriu que Washington poderia rever sua tradicional posição de neutralidade na disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido, algo que Milei definiu como "ventos de mudança favoráveis" à reivindicação do país sul-americano.
O Reino Unido respondeu horas depois por meio de seus ministros da Defesa e das Relações Exteriores, que classificaram como "absoluto e inabalável" o compromisso britânico com as ilhas e fizeram referência ao referendo de 2013, no qual 99,8% dos habitantes do arquipélago votaram a favor da continuidade sob soberania britânica.
Essa votação é contestada por Buenos Aires, que considera que, por se tratar de uma população implantada, não pode prevalecer o princípio da autodeterminação dos povos.
O discurso marcou uma mudança em relação a declarações anteriores de Milei sobre o caminho para recuperar as ilhas. A postura contrasta com aquela que havia apresentado em 2 de abril de 2025, quando afirmou:
"Desejamos que os malvinenses decidam, algum dia, votar em nós com os pés. Por isso, buscamos ser uma potência, a ponto de eles preferirem ser argentinos, sem que seja necessário recorrer à dissuasão ou ao convencimento para conseguir isso."

Mudança no discurso

Em entrevista para a Sputnik, o analista internacional Héctor Bernardo relacionou a mensagem à necessidade de melhorar a imagem do presidente, que segundo apontam pesquisas, em franca decadência, devido à economia e ao processo inflacionário sem recomposição dos salários.
"Parece ser uma superexposição do presidente, levando em conta o sentimento social que se fortaleceu depois da Copa do Mundo, quando houve uma manifestação dos jogadores da seleção em defesa da reivindicação sobre as Malvinas, e isso também repercutiu na sociedade."
O especialista acrescentou que Milei nunca demonstrou caráter nacionalista: "muito pelo contrário, suas posições, em geral, estiveram mais relacionadas à ideia de que os habitantes das ilhas tinham direito à autodeterminação".
Já o cientista político Julio Burdman classificou a mensagem presidencial como o discurso mais "malvinista" de um presidente:
"É uma novidade clara de um governo que, até agora, não havia se caracterizado pela defesa da soberania sobre as ilhas [...] para o governo, estamos diante da possibilidade concreta de uma mudança em relação à questão das Malvinas pela primeira vez desde a guerra de 1982".

Argentina, peça-chave do Atlântico Sul?

"Elas têm mais a ver com os interesses dos Estados Unidos, que demonstraram certa tensão com o Reino Unido por causa das disputas internas dentro da OTAN, particularmente entre globalistas e continentalistas", opinou Bernardo.
O analista detalhou que, antes do anúncio, Milei viajou ao Chile para se reunir com seu homólogo José Antonio Kast para reconhecer a soberania daquele país sobre o estreito de Magalhães e com a subsecretária de Estado dos Estados Unidos, que "acabou dando a ele as diretrizes para esse anúncio".
Ele também comparou a iniciativa a outros movimentos de Washington envolvendo passagens interoceânicas estratégicas, como o controle retomado do Canal do Panamá e a disputa pela Groenlândia, e destacou que uma base instalada no Estreito de Magalhães "se projeta em direção à Antártida e a todos os recursos naturais" dessa região austral do continente.
A esse respeito, Burdman afirmou que "há uma aposta clara de Milei de que seja Washington a pressionar para obter avanços na questão das Malvinas, e o próprio governo deixa isso explícito em seu discurso".
O cientista político acrescentou que as declarações de Trump não se explicam apenas por suas tensões com o governo britânico.
"Os Estados Unidos vêm buscando há algum tempo reforçar sua influência na América Latina e, nesse contexto, querem estabelecer um controle de segurança que nunca tiveram sobre o Atlântico Sul”.
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