Chutando o tabuleiro — Insubornavel

Chutando o tabuleiro

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著者 Boletim Ponto04/09/2026 às 15:000 閲覧
Daniel Vorcaro (à esquerda) e Flávio Bolsonaro (à direita)
Daniel Vorcaro (à esquerda) e Flávio Bolsonaro (à direita)
Brasil de Fato

Olá, quando um pombo decide jogar xadrez, ninguém controla o movimento das peças.

.O kamikaze de toga. Todo mundo só fala da bomba que o ministro André Mendonça explodiu dentro dos aposentos do STF. A dificuldade é calcular todos os seus efeitos políticos. Isso dependerá da combinação de fatores difíceis de controlar, que passam pelo conteúdo e forma como a investigação foi conduzida, as reações do STF, do governo e do Congresso, e o uso eleitoral delas. É evidente que André Mendonça cometeu uma ilegalidade ao mandar investigar um membro do próprio Supremo sem autorização do plenário e retirar o sigilo das mensagens, ameaçando a validade jurídica dos conteúdos revelados. E, como o próprio Mendonça aparece nos diálogos, como observa o jurista Pedro Serrano, ele deveria ser afastado do caso. Depois de o procurador-geral Paulo Gonet solicitar a anulação da investigação, foi a vez de Alexandre de Moraes retrucar seu colega de Corte e pedir uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, numa luta intestina que não tem prazo para acabar. Mas, mesmo que as evidências sejam invalidadas no plano jurídico, observa Thiago Domenici, é impossível “desler” o conteúdo das mensagens já divulgadas e as relações profundamente clientelistas e antirrepublicanas que elas revelam. Além disso, a rede de Vorcaro envolveu tantos membros do Supremo e da alta política que é difícil acreditar que o final dessa história não venha a ser um grande acordo nacional, com STF com tudo. Afinal, pelo menos quatro dos atuais dez ministros da Corte — Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Nunes Marques e André Mendonça — tiveram algum tipo de relação com o banqueiro. E, no mundo da política, multiplicam-se as personalidades que tiveram interlocução com Vorcaro e sob as quais pairam suspeitas de trocas de favores. Não à toa, Alcolumbre deu o recado para a base bolsonarista ao lembrar que Flávio Bolsonaro está tão enrolado com Vorcaro quanto Alexandre de Moraes. Mas, por enquanto, a palavra “acordo” virou acusação contra os adversários, pois todos tentam se preservar ou tirar alguma casquinha política desse escândalo até que ele esfrie. No final da história, ou haverá algum tipo de punição seletiva, ou não haverá punição. Seja como for, ninguém sabe o tamanho do descrédito das instituições que restarão de pé depois da explosão.

.E o Flávio, hein? O terremoto causado por André Mendonça era tudo o que Flávio Bolsonaro precisava para dar um novo rumo às eleições e criar um fato político que sua própria campanha não era capaz de fazer sozinha. Para começar, as revelações contra Alexandre de Moraes foram providenciais para desviar o foco de outro escândalo: a descoberta de um repasse de R$1,6 bilhão feito por Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, totalizando até agora R$ 12,3 milhões oriundos do banqueiro com destino à família Bolsonaro. Uma delação fechada recentemente entre a PGR e Carlos Freixo Júnior, proprietário da empresa utilizada por Vorcaro para doar os valores ao filme, pode lançar luz à questão. Ademais, em sua própria proposta de delação premiada, Daniel Vorcaro teria confessado que os R$ 5 milhões doados para as campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 eram, na verdade, um pagamento de propina combinado entre o banqueiro e Gilberto Kassab. Mas, enquanto esses fatos não ganham a opinião pública, Flávio vai aproveitar a ajudinha de Mendonça para requentar os atos bolsonaristas de 7 de setembro, já que, a frio, o candidato do PL não tem juntado meia dúzia de gatos pingados. Além disso, mesmo que Flávio não vença as eleições, Mendonça deu um belo impulso para a campanha da extrema direita contra o STF, seja como mote para futuros senadores e deputados bolsonaristas, seja estrategicamente, como faz Trump, para eliminar instituições que sejam contrapesos do sistema. Mas não é só Mendonça quem ajuda a campanha da direita. No TSE, a barbeiragem de Dias Toffoli ao cancelar a campanha de Renan Santos por uso de perfis não informados e depois voltar atrás de sua própria decisão só ajudou a gerar mais um pedido de impeachment contra um ministro do Supremo e a aumentar a desconfiança quanto à isenção das instituições de controle. Apesar disso, contrastando com a direita raivosa, o discurso de paz, amor, inteligência artificial e empreendedorismo de Augusto Cury é quem mais cresce, com o candidato chegando isolado ao terceiro lugar em intenções de votos. Mas engana-se quem acredita que Augusto Cury seja uma terceira via que conquistou o eleitorado de centro, já que a maioria de seus eleitores são justamente aqueles que votariam em Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno contra Lula.

.A alta do dólar. Mesmo que Lula não tenha qualquer envolvimento direto com Vorcaro, o saldo político para o governo e a campanha petista é negativo. Primeiro, porque, assim como não é possível “desler” as mensagens, não é possível defender Moraes no episódio. O Planalto sabe que o ministro foi fundamental nos julgamentos do 8 de janeiro e sua desmoralização e possível queda impulsionariam o questionamento da condenação aos golpistas. Por mais que a linha pública seja a de deixar o trabalho para a PGR e o STF, defender as investigações e preservar as instituições, Lula também tem recebido cobranças nos bastidores, por exemplo, de Gilmar Mendes, para não abandonar Moraes aos leões. Segundo, um escândalo dessa proporção tanto tirou o tema “lulinha” da pauta, como ofuscou as entregas do governo, que eram o foco da campanha, além de ter dado um argumento para a oposição obstruir a votação do fim da escala 6×1, a grande aposta de Lula para este período. Mais grave, é evidente que Mendonça não pretende apenas atingir Moraes e mira também no governo, levando para outro nível as tensões que já tinha com a Polícia Federal, usando Vorcaro para bater também no Diretor Andrei Rodrigues. E, como se tudo isso não fosse suficiente, o maior cabo eleitoral de Jorge Messias para o STF era o próprio André Mendonça. E uma nova indicação do Advogado-Geral da União não só pode soar como provocação ao outro grupo do STF, como também o comportamento de Messias no episódio tem sido alvo de críticas. Por fim, o caso interrompe o movimento que a campanha fazia em direção ao seu mais tradicional oponente, o sistema financeiro. O único interesse da turma da Faria Lima é que o Estado gaste menos, atinja os superávits primários e, com isso, sobre mais dinheiro para o pagamento de juros extorsivos da Selic via títulos públicos. Quanto menos eficiente e mais endividado o país, mais feliz. Por isso, a alegria do sistema financeiro com Gabriel Galípolo, na mesma proporção da decepção de Lula com o seu indicado. Lula tentou contornar a relação sempre difícil com o mercado financeiro jantando com 16 altos nomes do PIB, entre eles os donos do BTG, da JBS e da Gerdau, tendo como carta de apresentação o orçamento de 2027, que se compromete com o superávit às custas de cortes na educação e na saúde. Porém, nada como um escândalo na política para a turma da Faria Lima aumentar o preço e colocar a faca no pescoço, surfando com uma alta da bolsa e com outro tradicional mecanismo de ataque ao petista, a alta do dólar. Neste cenário, a resposta de Lula vai ser insistir na votação da 6×1, com sessões extraordinárias, e pôr o pé na estrada, intensificando a campanha.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Vietnã completa 81 anos: o que o país socialista conquistou após triunfar na resistência contra os EUA. O Brasil de Fato relembra os feitos da pátria socialista de Ho Chi Minh.

.O escândalo que pode destruir a extrema direita latino-americana. Quem é Fernando Cerimedo, preso na Bolívia, e o que sua atuação pode revelar sobre as conexões da extrema direita no continente. Na Jacobina. 

.Direita global transforma modernismo em alvo político. No Brasil e no exterior, movimentos conservadores rechaçam a arquitetura moderna e idealizam a beleza clássica. No DW.

.Os fios expostos do sistema elétrico brasileiro. Roberto Pereira D’Araújo analisa os efeitos da privatização da energia em todo o país. No Outras Palavras.

.Augusto Cury e a fabricação da sensação de maioria. Na Carta Capital, Marcelo Senise analisa o que está por trás do crescimento meteórico do candidato do Avante nas redes.

.A geração que o Missão quer recrutar. O Projeto Brief foi ao 1º Congresso do partido criado pelo MBL e descreve o que encontrou lá.

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

出典
Brasil de Fato
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