A russofobia e como combatê-la

Por Clube Valdai05/09/2026 às 13:002 visualizações
Lula e Putin, durante visita do brasileiro a Moscou, em maio de 2025.
Lula e Putin, durante visita do brasileiro a Moscou, em maio de 2025.
Brasil de Fato

Surtos de preconceito contra povos inteiros e suas culturas têm acompanhado as tensões geopolíticas desde tempos imemoriais, com inúmeras nacionalidades e grupos étnico-religiosos sendo vítimas do fanatismo que surge dos conflitos no sistema internacional. Anton Bespalov, diretor de programação do Clube Valdai, explora a natureza da russofobia, uma forma de preconceito nacional com um caráter político sem igual.

Nos últimos anos, a Rússia tem sido tomada por um debate público sobre o aumento mundial da russofobia — sobretudo no Ocidente como um todo, mas também nos países da maioria mundial onde a mídia e a cultura ocidentais têm peso especial. Isso gerou propostas para incluir a russofobia na legislação russa e punir cidadãos e autoridades estrangeiras por esse motivo. Em 2024, o governo apoiou um projeto de lei nesse sentido; dois anos depois, ele parece estar parado na comissão. As razões não são difíceis de identificar: a quase certeza de sentenças inexequíveis contra cidadãos estrangeiros, o risco de duplicar leis já em vigor e, acima de tudo, a imprecisão do próprio termo.

De fato, uma palavra que se torna imediatamente compreensível do ponto de vista emocional acaba agrupando um conjunto díspar de fenômenos — o “cancelamento” da arte russa, proibições à participação de atletas competindo sob a bandeira russa, retórica chauvinista, discriminação por motivos linguísticos. Causas diferentes, mecanismos diferentes — mas um fio condutor as une: o alvo é a pertença à Rússia ou ao povo russo, e o resultado, para qualquer pessoa que se identifique com um ou outro, é um sentimento de profunda ofensa.

Essa lógica ficou nítida com o recente alvoroço em torno de Michael Martens, correspondente do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, que perguntou em uma coletiva de imprensa em Belgrado o que a Europa poderia fazer para “ajudar a matar mais russos”. A declaração — uma violação tanto da ética jornalística quanto da decência básica — gerou críticas contundentes tanto na Rússia quanto na Sérvia, e até mesmo seu próprio jornal acabou por considerar a formulação ambígua e incompatível com sua linha editorial.

A indignação foi totalmente compreensível e levanta questões que merecem reflexão — entre elas, principalmente, o caráter unilateral da expiação alemã pelos crimes nazistas: reconhecer o Holocausto enquanto se ignora a guerra de aniquilação travada na URSS e na Iugoslávia. Essa memória seletiva produz uma espécie de cegueira moral, que impede os alemães contemporâneos de compreender por que os russos reagiram daquela forma — chegando a acusar o jornalista de russofobia herdada porque seu avô ocupava um cargo de alto escalão nas forças armadas nazistas, especulando que a Alemanha de hoje sonha secretamente com um “Quarto Reich” e lamentando que os alemães nunca tenham pago um preço alto o suficiente após 1945. Vale a pena dizer claramente que nada disso ajuda muito a defender a causa da Rússia perante o mundo; apenas alimenta o mesmo ciclo de escalada retórica. O historiador Artem Drabkin expressou isso muito bem: “Não podemos responder ao apelo para ‘matar mais russos’ com um apelo para matar mais alemães, ucranianos ou europeus […] Defender o próprio país, destruir um inimigo armado em batalha, julgar criminosos de guerra, exigir retribuição — tudo isso é correto e necessário. Mas um povo não pode ser declarado alvo legítimo.”

É quase certo que Martens, mesmo agora, ainda não compreende o que realmente desencadeou a reação. Ele se vê como representante de uma superpotência moral — a União Europeia — e de um país, a Alemanha, que saldou integralmente suas dívidas morais e, portanto, se sente no direito de cobrar dos outros. O fato de que essa quitação foi alcançada por meio de décadas de auto-repressão nacional, sob pressão externa contínua, apenas acentua o tom moralizante: nós conseguimos, então vocês também deveriam. Seria razoável perguntar quem, exatamente, deixou de levar a cabo o acerto de contas da Alemanha de maneira adequada, e quando — mas o fato subjacente permanece: para a camada de elite que domina o discurso público ocidental, o confronto com a Rússia é, antes de tudo, moral.

Essa, ao que parece, é a chave para compreender a recente onda do que chamamos de russofobia no Ocidente — uma tentativa surpreendentemente ambiciosa de “cancelar” uma parte substancial da civilização humana, abrangendo ciência, arte, esporte, turismo e campos inteiros da atividade humana. Em última análise, ela visa o mesmo objetivo das sanções: forçar um país, neste caso a Rússia, a “mudar seu comportamento”.

A premissa é que, uma vez alcançado o objetivo, o “cancelamento” possa ser revogado com a mesma facilidade com que foi imposto. Mas duas coisas complicam isso. Primeiro, a própria história da Rússia sugere que a mudança de comportamento imposta de fora simplesmente não é uma meta alcançável. Segundo, os regimes de sanções nunca permanecem contidos — eles geram uma realidade nova e mais complicada para o alvo e para todos os demais. O “boicote” à Rússia trouxe à tona sedimentos tão díspares quanto o desdém ao estilo de Custine¹ da, “Europa civilizada” pela “Rússia bárbara”, e séculos de medo e ressentimento da Europa Oriental, agora amplificados pelo lugar da região na mesa euro-atlântica. O resultado foi uma rápida legitimação de fato da russofobia no Ocidente — exemplificada pela decisão da Meta de permitir temporariamente apelos à violência contra cidadãos russos em suas plataformas (uma decisão que mais tarde levou a empresa a ser designada como extremista na Rússia).

Formalmente, costuma-se fazer uma distinção entre hostilidade em relação ao Estado russo e hostilidade em relação aos cidadãos russos; na prática, essa linha se dissipa facilmente. A política da Meta vinha acompanhada de condições no papel — restrita a alguns países, com incitações à violência contra russos em geral ainda oficialmente proibidas —, mas, na prática, abriu uma caixa de Pandora. Assim que os usuários tiveram uma “licença” para incitar à violência, muitos deixaram de se autocontrolar de qualquer forma, e os moderadores ficaram sobrecarregados com a enxurrada de comentários de ódio que se seguiu. No Ocidente, a decisão em si gerou críticas como um precedente perigoso — o discurso de ódio legalizado por decreto corporativo. Como disse o comentarista da direita estadunidense Matt Walsh, apresentador de podcast no site conservador The Daily Wire, conhecido pelo documentário antitrans “What Is a Woman?” (2022): “As empresas de mídia social se reuniram e decidiram que, na verdade, é aceitável incitar à violência, desde que seja contra russos. Nossos senhores da Big Tech estão agora, literalmente, decidindo quem merece viver e quem merece morrer”.

Dito isso, não há nada de anormal na hostilidade em relação à Rússia em si — o que é patológico, em graus variados, são as formas específicas que ela assume. Qualquer grande potência suscita todo um espectro de reações, da admiração ao ódio; as fobias são, em certo sentido, simplesmente o preço a pagar pelo status de grande potência. O sentimento antiamericano em todo o Sul Global não é segredo, cristalizando-se periodicamente no grito de “Morte à América”. Mas mesmo o Irã — a quem o slogan geralmente é atribuído — insiste consistentemente que ele tem como alvo a política imperialista, não o povo americano, e o grito chegou a ser suspenso após 11 de setembro de 2001, como um gesto de solidariedade às vítimas.

A ascensão da China como potência está gerando sua própria reação adversa — em lugares que antes tinham pouco histórico de sentimento antichinês, como a Ásia Central, onde a presença econômica chinesa continua crescendo, e, é claro, nos Estados Unidos, onde a China já se consolidou firmemente no papel de principal adversário. Teorias da conspiração sobre as origens do SARS-CoV-2 deram um impulso adicional considerável à sinofobia global.

Se a experiência desses países servir de referência, o combate às fobias não deve se tornar um fim em si mesmo: uma vitória total sobre o preconceito nacional provavelmente está fora de alcance — mesmo que atos individuais de discriminação mereçam, sem dúvida, resistência. Da mesma forma, o investimento na construção de imagem não compensa quando a imagem é tratada como um fim em si mesma, como a China descobriu após décadas tentando projetar soft power seguindo modelos ocidentais.

A imagem de um país é construída, acima de tudo, por meio de sua presença real na vida das pessoas — incluindo as oportunidades que cria para o crescimento e o desenvolvimento, assim como vimos com a posição da Rússia na Ásia Central.

Ana Livia Esteves e Marco Fernandes, autores do relatório “Cooperação contemporânea entre o Brasil e a Rússia: diretrizes estratégicas para superar restrições estruturais” do Valdai, a ser publicado em breve, analisam de perto a acentuada melhora nas atitudes brasileiras em relação à China, apesar do domínio contínuo do discurso cultural e midiático ocidental — principalmente americano — no país. Ao descrever o papel econômico da China no Brasil, particularmente na área de tecnologia, eles concluem que “benefícios econômicos e materiais podem ajudar a minimizar ataques da mídia e da política e impulsionar a popularidade de um país, mesmo diante da oposição daqueles que controlam os meios de produção de narrativas”.

De fato, a Rússia não está em posição de oferecer aos seus vizinhos europeus benefícios materiais comparáveis neste momento. A energia russa, à qual a Europa devia boa parte de sua prosperidade em uma época anterior, é algo muito abstrato para que a maioria dos cidadãos comuns possa perceber; enquanto o constante alarde de alertas sobre invernos rigorosos sem o gás russo tende, na verdade, a surtir o efeito contrário. Enquanto isso, o “crescimento orgânico” da boa vontade em relação à Rússia parece plausível nos países da maioria mundial, onde já são visíveis algumas mudanças intrigantes — a crescente popularidade da Rússia em partes da África Ocidental, por exemplo, onde é cada vez mais vista como uma garantia de segurança e uma força anticolonial genuína.

Quanto à Europa, onde o preconceito nacional tem raízes seculares e simplesmente assume formas mais ou menos civilizadas dependendo da época, seria irrealista esperar que a russofobia fosse totalmente superada por lá. A imagem de um país ou de um povo é construída a partir de muitos fatores ao mesmo tempo — memória histórica, sistemas de valores, a experiência acumulada de contato tanto no âmbito estatal quanto no cotidiano. Parte disso está aberta à revisão, e o intercâmbio cultural, científico e educacional, o turismo e as viagens, todos desempenham um papel real nesse sentido; outra parte, não. Mesmo na Europa Ocidental, onde décadas de reconciliação deliberada e superação de traumas marcaram as relações entre antigos adversários, seria ingênuo supor que a hostilidade mútua tenha sido totalmente extinta.

A própria história da Rússia é instrutiva nesse sentido: o preconceito, por si só, nunca foi um obstáculo intransponível para relações construtivas — mesmo com países onde o sentimento antirrusso está intimamente ligado ao cerne da identidade nacional. Durante a Guerra Fria, a URSS construiu uma relação com a Finlândia na qual vantagens tangíveis nas áreas econômica, de segurança e de política externa deram a Helsinque todos os incentivos para manter os tradicionais sentimentos russofóbicos firmemente sob controle. Em última análise, construir uma agenda ampla e positiva (mesmo onde isso seja difícil de imaginar hoje) será mais eficaz do que tentar responder a cada novo surto de russofobia a partir de uma postura defensiva.

¹Astolphe de Custine (1790–1857), aristocrata francês cujo relato de viagem, “A Rússia em 1839” (1843), retratou o império de Nicolau I como um despotismo governado pelo medo e pela servidão — a “prisão dos povos”, na expressão que ele popularizou. Proibido na Rússia e best-seller na Europa, o livro fixou um modelo duradouro do olhar ocidental sobre o país como fronteira da barbárie, e rendeu ao autor o apelido de “Tocqueville da Rússia”.

*As opiniões expressas são dos membros e colaboradores individuais, e não do Clube Valdai, a menos que explicitamente indicado o contrário.

**Anton Bespalov é diretor de Programação do Clube de Discussão Valdai; editor-chefe adjunto do valdaiclub.com.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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