Em Pernambuco, MST nega que esteja apoiando Raquel Lyra: ‘nossa orientação política é fazer campanha para João Campos’

Por Vinicius Sobreira06/09/2026 às 11:0210 visualizações
MST seguiu o PT e está apoiando a candidatura de João Campos (PSB) ao Governo de Pernambuco
MST seguiu o PT e está apoiando a candidatura de João Campos (PSB) ao Governo de Pernambuco
Foto: | / Brasil de Fato

Na última sexta-feira (4), o assentamento Normandia, em Caruaru (PE), recebeu a governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), num ato político para firmar o compromisso dela com uma série de pautas apresentadas pelo Movimento Sem Terra visando o fortalecimento da reforma agrária e da agricultura familiar no estado. As imagens geraram estranhamento em parte dos eleitores, já que a deputada sem terra Rosa Amorim (PT) está em campanha ao lado de João Campos (PSB). Mas o evento com a governadora, segundo o MST, não foi uma declaração de apoio. Atos similares foram realizados, dias antes, com Campos e com Ivan Moraes (Psol).

O Brasil de Fato entrevistou Jaime Amorim para entender a posição do movimento na disputa eleitoral em Pernambuco. “A nossa prioridade número um é reeleger Lula, para defender a democracia e a soberania nacional. Temos que evitar o retrocesso”, pontua o dirigente sem terra. “E para evitar retrocessos também temos que eleger candidaturas desse mesmo projeto para o Senado e Câmara Federal. Então as prioridades do MST são Lula, o senador Humberto Costa (PT) e Rosa Amorim. Todo nosso esforço e energia têm que estar nessas disputas”, convoca.

Jaime faz uma deferência a Ivan Moraes (Psol), apontado como um nome que “se diferencia e seria o candidato ideal para governar Pernambuco”, mas pondera que “a disputa infelizmente se dá noutro nível”. Entre os dois nomes que as pesquisas de intenção de voto colocam com maiores chances de vitória, o movimento os coloca “no mesmo nível do ponto de vista do conteúdo, história política e interesses que eles representam”. Mas isso não os deixa em cima do muro. “Vamos seguir o que o PT definiu, que é o apoio a João Campos. Ele não é unanimidade no PT e nem no MST, mas não precisamos de unanimidade. Temos uma candidata nessa composição e fazemos campanha para João Campos”, garantiu.

Governadora Raquel Lyra durante o ato de assinatura da carta compromisso com a reforma agrária, no assentamento Normandia (PE) |
Governadora Raquel Lyra durante o ato de assinatura da carta compromisso com a reforma agrária, no assentamento Normandia (PE) | — MST Pernambuco
Governadora Raquel Lyra durante o ato de assinatura da carta compromisso com a reforma agrária, no assentamento Normandia (PE) | Crédito: MST Pernambuco
No assentamento Normandia (PE), Ivan Moraes (Psol) assinou a carta compromisso com a reforma agrária |
No assentamento Normandia (PE), Ivan Moraes (Psol) assinou a carta compromisso com a reforma agrária | — MST Pernambuco
No assentamento Normandia (PE), Ivan Moraes (Psol) assinou a carta compromisso com a reforma agrária | Crédito: MST Pernambuco

Sobre o desafio de lançar uma deputada estadual em primeiro mandato para encarar uma disputa por uma vaga na Câmara Federal, Jaime Amorim pontua que foi uma resposta às necessidades políticas do Brasil e ao chamado do próprio presidente Lula. “Rosa teve um bom mandato estadual e poderia ser reeleita numa situação confortável. Mas as organizações políticas, o próprio PT e Lula estão pedindo mais figuras de luta, combativas, no Congresso Nacional. E queremos Rosa lá para defender o governo Lula, mas também para fazer a disputa política, enfrentar os bolsonaristas”, explicou o dirigente do MST.

Jaime se mostra confiante que Pernambuco eleja a primeira sem terra deputada federal, junto com uma bancada de esquerda forte e “politicamente comprometida com o povo de Pernambuco”. “Rosa vai ser importante para o próximo período. Temos que colocar a juventude à disposição para construir uma nova geração que possa representar o nosso povo na defesa da nossa Pátria, da soberania nacional, para que possamos pensar o Brasil como uma nação”. Amorim menciona ainda a candidatura da drag queen e pedagoga Ruth Venceremos, pelo PT no Distrito Federal. Ruth é a personagem do pernambucano Erivan Hilário dos Santos, sertanejo de Santa Maria da Boa Vista e filho de assentados da reforma agrária.

A carta compromisso

O documento de pautas assinado por Raquel Lyra (no dia 4), João Campos e Ivan Moraes (ambos no dia 29 de agosto) carrega, segundo Jaime Amorim, “as reivindicações para o desenvolvimento da agricultura familiar e da reforma agrária em Pernambuco”. O movimento considera que Pernambuco “não tem projeto estratégico de desenvolvimento da agricultura camponesa, por isso foi necessário elaborarmos essas propostas”. O dirigente político contou estar feliz após encontrar os candidatos. Nos próximos dias a carta compromisso deve ser assinada também por Camila Falcão (UP) e Guilherme Fonseca (PSTU).

Jaime disse que, apesar da confusão feita por alguns meios de comunicação e parte dos leitores, não houve celeuma com os candidatos. “O MST tem bem clara sua posição política neste momento. Temos definido quem apoiamos e também as nossas prioridades. Independentemente de quem ganhe o governo do estado, mesmo que João Campos ganhe, nós não seremos governo. Estaremos do lado de cá do balcão, lutando, reivindicando e apresentando nossas demandas. Não somos e nem queremos ser governo”, resumiu.

João Campos (PSB) durante o ato de assinatura da carta compromisso com a reforma agrária, no assentamento Normandia (PE) |
João Campos (PSB) durante o ato de assinatura da carta compromisso com a reforma agrária, no assentamento Normandia (PE) | — MST Pernambuco
João Campos (PSB) durante o ato de assinatura da carta compromisso com a reforma agrária, no assentamento Normandia (PE) | Crédito: MST Pernambuco
Ao lado da deputada Rosa Amorim (PT), Campos usou o boné do MST e garantiu investimento na agricultura familiar |
Ao lado da deputada Rosa Amorim (PT), Campos usou o boné do MST e garantiu investimento na agricultura familiar | — MST Pernambuco
Ao lado da deputada Rosa Amorim (PT), Campos usou o boné do MST e garantiu investimento na agricultura familiar | Crédito: MST Pernambuco

Entre as pautas prioritárias apresentadas na carta compromisso, estão o fortalecimento da comissão responsável por mediar conflitos agrários. “Queremos evitar a violência praticada pelo latifúndio, mas também evitar casos de violência contra a mulher e contra LGBTs no campo”, diz Amorim. Ele também cobra um “plano de desapropriação de terras”, em que dívidas de senhores de engenho e de massas falidas de usinas sejam pagas com a própria terra, cuja propriedade passaria ao poder público e, em seguida, seriam transformadas em assentamentos de reforma agrária.

As pautas também incluem o fortalecimento do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Pernambuco (Iterpe), garantindo-lhe recursos técnicos, humanos e financeiros para avançar com a criação de assentamentos; e políticas de incentivo à agricultura familiar, destacando as cadeias produtivas do milho crioulo, arroz orgânico, macaxeira, caprinocultura e fruticultura; políticas de assistência técnica e também obras de infraestrutura para áreas de assentamento; e que o governo estadual amplie as compras públicas nos programas de aquisição de alimentos (PAA) e alimentação escolar (Pnae).

Outra reivindicação é pela criação de uma secretaria executiva de agricultura familiar, que articule políticas públicas de outras pastas para atender a população camponesa. O movimento traz ainda pautas nas áreas de educação, como o pedido de 23 escolas de ensino médio no campo e a meta de, em quatro anos, zerar o analfabetismo nos assentamentos rurais e nas periferias urbanas; na saúde, pedem programas de incentivo à produção e manipulação de plantas medicinais, mencionando a produção de óleo de cannabis, além de programas de agentes populares de saúde. As propostas seguem ainda nas áreas de cultura, esporte e lazer.

Fonte
Brasil de Fato
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