No começo de julho, uma importante modalidade de transporte de Caruaru, os loteiros (populamente conhecidos como toyoteiros), tiveram suas atividades bruscamente interrompidas após uma decisão judicial da 2ª Vara da Fazenda Pública do município impor uma multa de R$ 10 mil diários à prefeitura caso não colocasse sua Autarquia de Mobilidade (AMC) para realizar intensas fiscalizações sobre o transporte alternativo da cidade, coibindo sua circulação em áreas cobertas pela circulação de ônibus.
A medida afetou os profissionais deste serviço e também a população, que não conta com uma cobertura suficiente de linhas de ônibus para realizar suas atividades cotidianas, sobretudo quem reside em áreas afastadas do centro ou na zona rural.
É o caso, por exemplo, do comerciante de lanches Pedro Cavalcanti, 51, que foi atingido duplamente. Primeiro, por não ter disponibilidade do transporte de sempre para fazer as compras das mercadorias necessárias ao seu trabalho, necessitando buscar alternativas mais dispendiosas. A suspensão também impactou sua clientela, pois o ponto de vendas de Pedro fica justamente em um terminal de loteiros, próximo ao residencial Luiz Bezerra Torres, no Alto do Moura.
O comerciante viu a demanda diminuir bruscamente e seu faturamento cair pela metade. “Todo comerciante daqui depende das toyotas. Os ônibus deixam muito a desejar, não prestam um bom serviço, então temos que usar as lotações no dia a dia, seja para comprar mercadorias, como faço todo dia, ou para ir à casa de um parente”, conta Pedro Cavalcanti.
A situação foi parcialmente resolvida quando, na segunda quinzena de julho, o prefeito Rodrigo Pinheiro, após protestos da categoria, assinou um decreto autorizando os loteiros que possuem veículos com a placa vermelha a realizar serviços de fretamento.
Contudo, o decreto não autoriza o transporte de passageiros pelas toyotas. Ainda assim, ele vem sendo realizado aos moldes de como era feito antes da medida que suspendeu os serviços. “As coisas normalizaram. Voltamos a ter o apoio dos loteiros, mas temos medo de que parem de novo após as eleições. Esperamos que o prefeito se sensibilize e olhe por nós aqui”, diz o comerciante.
Fernando Damasceno é toyoteiro e diretor da Cooperativa dos Transportes Alternativos de Passageiros de Caruaru (Cooptralter), realizando o ofício há quase duas décadas. Ele aponta que a clienta ainda está retornando aos poucos, readaptando-se, após os impactos da suspensão. Ele afirma ter testemunhado perdas de empregos e outros impactos na vida de seus passageiros. “As coisas estão voltando a fluir só agora. Foi um mês parado até tudo se adaptar, temos apenas 15 dias de retorno, ainda estamos sofrendo”, afirma o loteiro.
Damasceno explica que o decreto garantiu uma normalização temporária da situação, mas que ainda se faz necessária uma devida regulação para o transporte de passageiros. Ele destaca que, por exemplo, permissões para os toyoteiros voltaram a ser emitidas, algo que não acontecia desde 2017. “Há mais de 10 anos, a gente conseguia regularizar nossa situação, tínhamos vistorias e alvarás que pararam de ser emitidos, mas voltaram agora, apenas para fretamento”, afirma o condutor.
O grande desejo dos toyoteiros atualmente é que seja feita a devida regulamentação para o transporte de passageiros, avaliando o atual decreto como insuficiente para dar conta das atividades da categoria. “Tivemos várias conversas e debates sobre essa possibilidade. Mas, sendo bem realista, as expectativas não são favoráveis, porque não vemos nenhuma movimentação nesse sentido”, conclui Fernando.
O Brasil de Fato entrou em contato com a Prefeitura de Caruaru, questionando perspectivas de regulamentação para o transporte de passageiros, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto para possíveis posicionamentos.
