Crise hídrica pode reduzir tráfego no Canal do Panamá para 27 navios por dia

08/09/2026 às 02:141 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
O Canal do Panamá pode ser obrigado a reduzir o número de navios que atravessam diariamente a via para até 27 embarcações nos próximos meses devido à queda nos níveis de água dos reservatórios. O alerta foi feito pela nova administradora do Canal do Panamá, Ilya Espino de Marotta, em entrevista ao Financial Times.
Atualmente, o canal opera com uma média de 36 embarcações por dia, mas o número será reduzido para 32 a partir de setembro devido à escassez de água. A expectativa é que os cortes sejam ainda maiores durante a estação seca, entre dezembro e meados de abril. Segundo Espino de Marotta, chegar a 27 travessias diárias seria o "pior cenário" projetado pela autoridade do canal.
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O Canal do Panamá utiliza água doce armazenada em reservatórios para operar suas eclusas e permitir que os navios atravessem os cerca de 80 quilômetros entre os oceanos Atlântico e Pacífico. A administradora afirmou que as mudanças nos padrões de chuva provocadas pelas mudanças climáticas fazem com que períodos de escassez hídrica ocorram atualmente a cada três anos, aproximadamente.
O canal movimenta mais de 3% do comércio mundial, o equivalente a cerca de US$ 270 bilhões por ano. Uma redução no número de travessias pode aumentar o tempo de espera para embarcações, elevar os custos de transporte e pressionar ainda mais as cadeias globais de abastecimento.
A situação ocorre em um momento de forte instabilidade no transporte marítimo internacional, com restrições e desvios de rotas provocados também pelos conflitos no Oriente Médio e pelos problemas de segurança no Mar Vermelho e no Canal de Suez. A redução da capacidade do Canal do Panamá pode, portanto, aumentar a pressão sobre uma cadeia logística global que já enfrenta rotas mais longas e custos elevados.
Os custos para atravessar o canal já aumentaram significativamente. Segundo dados da Argus Media citados pelo Financial Times, o custo médio dos leilões para embarcações que utilizam as eclusas padrão e as maiores estava em US$ 66.150 e US$ 253.180, respectivamente, em janeiro e fevereiro, antes da guerra entre Estados Unidos e Irã e da recente piora da situação hídrica. Desde então, os valores chegaram a US$ 478.750 e US$ 1,25 milhão, respectivamente.
Apesar da possibilidade de novos cortes, Espino de Marotta afirmou que o pior cenário ainda seria menos grave que a crise registrada em 2023, quando o canal chegou a operar com apenas 22 travessias diárias. Segundo ela, a administração conseguiu armazenar mais água previamente desta vez.
A escassez de água é considerada um dos principais desafios para o futuro do canal. As autoridades implementam medidas de economia de água há cerca de uma década, mas a irregularidade das chuvas e o aumento da frequência de períodos secos dificultam a manutenção da capacidade de operação.
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Para enfrentar o problema, a administração considera prioritária a construção do reservatório Rio Indio, um projeto estimado em US$ 1,6 bilhão que deverá captar parte da água das chuvas entre maio e dezembro. A previsão é que a estrutura fique pronta até 2032 e tenha capacidade equivalente a aproximadamente 10 a 15 travessias diárias.
A maior parte da água, porém, será destinada ao abastecimento da população, o que significa que o reservatório deverá oferecer maior segurança hídrica ao canal, mas não necessariamente ampliar de forma significativa sua capacidade.
A construção do reservatório enfrenta também obstáculos sociais. Cerca de 500 famílias vivem na região prevista para o projeto. Segundo Espino de Marotta, aproximadamente 70% das famílias já participam do processo de compensação, que deverá ocorrer em etapas ao longo de quatro ou cinco anos.
Além do reservatório, a administração pretende transformar o Canal do Panamá em um hub logístico de maior alcance, com a construção de um gasoduto para transporte de gás liquefeito de petróleo (GLP) e novos terminais nas duas extremidades da via. Empresas como ExxonMobil e Energy Transfer demonstraram interesse no projeto, cuja concessão deverá ser definida no próximo ano.
A intenção é preservar a importância do canal para o transporte de hidrocarbonetos entre os Estados Unidos e a Ásia, mesmo diante das limitações impostas pela disponibilidade de água. Empresas do setor, porém, já alertam para os efeitos das restrições.
Kristian Sørensen, presidente-executivo da BW LPG, afirmou que o Canal do Panamá se tornou um fator de incerteza para os fluxos globais de commodities. Segundo ele, mais navios estão sendo obrigados a utilizar rotas mais longas, contornando a África do Sul ou a América do Sul, devido aos gargalos no canal e no Oriente Médio.
O cenário aumenta os custos de transporte e pode contribuir para novas pressões inflacionárias, especialmente nos mercados de energia e commodities que dependem das rotas entre os Estados Unidos e a Ásia.
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