Veteranos do rap agitaram Festival Elemento em Movimento em Brasília

Por Júlio Camargo08/09/2026 às 18:190 visualizações
Câmbio Negro convida Thaíde e Zé Brown no palco do Festival Elemento em Movimento em Brasília
Câmbio Negro convida Thaíde e Zé Brown no palco do Festival Elemento em Movimento em Brasília
Foto: | / Brasil de Fato

O último dia do Festival Elemento em Movimento, em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, ganhou um toque especial para ouvintes da velha guarda do hip-hop brasileiro. A noite de domingo (6) foi repleta de atrações. O palco principal teve Kirá e a Candangaria, Pratanes e Emicida. Dentre esses, um momento muito especial com clássicos de peso do rap se deu com o show da banda Câmbio Negro e seus convidados.

O espetáculo do Câmbio Negro trouxe tudo que a banda tem experimentado ao longo dos anos. Rock pesado, samples de rap antigo, soul, break, candomblé, capoeira e um grito forte contra o racismo e a segregação territorial típica do Distrito Federal.

O vocalista ceilandense X convocou dois nomes históricos do rap nacional para dividir o palco, Thaíde (que compunha veterana dupla com Dj Hum) e Zé Brown (pioneiro do movimento hip-hop em Pernambuco). Em entrevista ao Brasil de Fato DF, eles falaram um pouco sobre as origens do rap, suas influências e principais transformações no movimento.

O vocalista e fundador do grupo Câmbio Negro é o rapper X (Alexandre Tadeu Silva) | Crédito: @ellyrochaa._
O vocalista e fundador do grupo Câmbio Negro é o rapper X (Alexandre Tadeu Silva) | Crédito: @ellyrochaa._
O vocalista e fundador do grupo Câmbio Negro é o rapper X (Alexandre Tadeu Silva) | Crédito: @ellyrochaa._

Para o público, a noite foi regada de sucessos. Viviane Ferreira é skatista e estudante de Letras, além de moradora da Ceilândia. Fã de Emicida, ela declara que adorou o show do Câmbio Negro com seus convidados. “Foi uma oportunidade de conhecer um pouco mais da história do hip-hop e, ao mesmo tempo, ver que essa cultura continua muito viva. O show conseguiu reunir artistas históricos e uma energia muito forte da juventude de Ceilândia.”

Marcos Vinícios é ouvinte de Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro e Faces do Subúrbio desde anos 1990 e, por isso, trouxe o filho pequeno para ver o show. Ele destaca que “foi muito especial ver artistas que fazem parte da história do hip-hop brasileiro dividindo o mesmo palco. Para quem acompanha o rap há muitos anos, foi um momento de muita memória e representatividade”.

Thaíde e os bailes black

Altair Gonçalves nasceu em São Paulo em 1967. Ficou conhecido no mundo do rap pelo codinome Thaíde quando iniciou sua trajetória na cultura hip-hop ainda nos anos 1980, na periferia da Zona Sul. Seu primeiro contato com o movimento ocorreu por meio do break, influenciado por nomes pioneiros como Nelson Triunfo. Participou da formação de crews como Panteras Negras, Dragon Breakers e Back Spin, com apresentações na Rua 24 de Maio e na Estação São Bento, espaços importantes para a consolidação do hip-hop paulistano.

A partir dessa experiência com a dança, Thaíde passou a atuar também como MC e compositor. Posteriormente, formou com DJ Hum uma das duplas pioneiras do rap brasileiro, alcançando grande notoriedade nos anos 1990.

Além da música, Thaíde construiu uma carreira diversificada na comunicação e no audiovisual. No palco do Festival Elemento em Movimento, para integrar o show do Câmbio Negro, Thaíde estava acompanhado da rapper Ana Preta como vocal de apoio.

Nesta entrevista exclusiva, ele relembrou o início da carreira, a importância dos bailes black para a juventude periférica e a transição para o rap. Confira:

Brasil de Fato – Você viveu a época de expansão dos bailes black no Brasil e uma das suas principais músicas, Sr. tempo bom fala exatamente sobre isso. O que esses bailes representavam para a juventude negra e periférica naquele período?

Thaíde – Os bailes blacks aqui no Brasil, no geral, quando aconteciam, eram uma demonstração de resistência. Estávamos ali não só nos reunindo para nos divertir, mas por uma questão de resistência.

Nosso objetivo era gritar: Estamos aqui! Estamos vivos! Somos relevantes! Temos a nossa própria cultura e a gente não vai deixar de curtir a nossa cultura. Então foi uma questão de resistência.

E era interessante porque as pessoas estavam se reunindo, curtindo as músicas e muitas vezes não se conheciam. Alguns moravam, às vezes, no mesmo bairro, mas não se conheciam, não se falavam. E dentro do baile havia uma comunhão, acabava nascendo uma amizade. Então os bailes blacks foram muito importantes para nossa formação, para nossa resistência cultural. Foi muito importante e inesquecível. E na letra Sr. tempo bom, a minha preocupação foi passar essa importância para que ela fique registrada para sempre.

Público do Festival Elemento em Movimento, em Ceilândia (DF), curtiu shows gratuitos |
Público do Festival Elemento em Movimento, em Ceilândia (DF), curtiu shows gratuitos | — @rickcria
Público do Festival Elemento em Movimento, em Ceilândia (DF), curtiu shows gratuitos | Crédito: @rickcria

Como aconteceu, na sua experiência, a transição da cultura dos bailes black para o rap e para aquilo que depois passou a ser chamado de cultura hip-hop? Como você viu esse movimento surgindo e começando a florescer?

Foi muito natural. As músicas foram mudando e as rádios, de uma certa forma, começaram a dar atenção para esse tipo de música. Com a tendência dos bailes, começamos a ouvir um som que era chamado de funk falado, que é o rap, mas a gente não sabia que era rap.

Mas tinha uma batida semelhante, mas era falado, não era cantado. E começou a tocar nas rádios alternativas, principalmente. E a minha migração foi muito fácil para o rap porque eu já dançava solo. Com a evolução dessa música, eu também aprendi a dançar break.

Suas primeiras músicas, antes mesmo do primeiro disco, apareceram na coletânea Hip-Hop Cultura de Rua, de 1988. Como foi a história desse disco? Sabe dizer como eram organizadas outras coletâneas da época que lançavam rappers ainda inéditos?

Quando surgiu o espaço para gravar o disco Hip Hop Cultura de Rua foi uma oportunidade perfeita para entrarmos de vez no cenário. Era um disco de rap feito por MCs de gangs de break da época que se reuniam na Estação São Bento, e ia levar o nome de Hip Hop Cultura de Rua.

E esse disco juntou grafiteiros, DJs, MCs, B-Boys, para poder confeccionar esse disco. Então, acho que era esse disco que tinha que nascer dessa forma para que tudo o que foi feito no rap depois pudesse surgir. Minhas músicas nesse disco foram Homens da lei e Corpo fechado. Também participaram Mc Jack, Código 13 e O Credo.

Esses discos eram importantes porque geralmente selecionavam os grupos mais destacados dos shows independentes e ganhavam espaço num disco de coletânea para divulgar e fazer crescer o movimento com vários artistas de uma vez. Muita gente foi lançada assim.

Zé Brown e a pedagogia do hip-hop

Zé Brown nasceu em 1974 e iniciou sua trajetória no hip-hop em 1988, ligado à dança break e à cena de Alto José do Pinho, no Recife. Ao longo de 38 anos de carreira, construiu uma obra marcada pela atuação no grupo Faces do Subúrbio e pela combinação entre rap e manifestações da cultura popular nordestina, como coco, embolada, repente, rock e hardcore.

Uma característica central de sua obra é justamente a fusão entre hip-hop e tradições nordestinas. Brown destaca sua formação no coco com mestres como Zé do Coco, além da influência de outros artistas da cultura popular. Atualmente, leva essa experiência para os palcos com o projeto “Zé Brown e o Coco Pesado”, que apresenta rap acompanhado por ritmos tradicionais, valorizando a cultura popular a partir de uma linguagem contemporânea. O reconhecimento do trabalho o levou a tocar no Festival Rio Loco na França.

Zé Brown foi uma das atrações do Festival Elemento em Movimento no DF |
Zé Brown foi uma das atrações do Festival Elemento em Movimento no DF | — Júlio Camargo/Brasil de Fato DF
Zé Brown foi uma das atrações do Festival Elemento em Movimento no DF | Foto: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

Além disso, Brown trabalha como educador no Instituto Cultural Educacional Matéria Rima, em Diadema (SP), onde desenvolve oficinas de rima e pandeiro e participa de atividades que utilizam o hip-hop como ferramenta pedagógica. Para ele, essas práticas contribuem para a autoestima dos estudantes e estimulam leitura, escrita, literatura de cordel e outras formas de expressão artística. Parte dos jovens com quem trabalhou no início dos anos 1990 também seguiu carreira no hip-hop e passou a atuar como educadores.

Em 2026, Brown prepara o álbum “Repertório Sagrado”, que reúne artistas de diferentes gerações e vertentes da música brasileira, entre eles Lia de Itamaracá, Nando Cordel, Thaíde, Caju & Castanha, Nação Zumbi e Marcelo D2.

Paralelamente à produção musical, mantém sua tradição de intervenção social: depois de trabalhos ligados à doação de sangue, participa de uma campanha de combate ao feminicídio. Assim, sua obra permanece articulando música, cultura popular, educação e posicionamento social.

Brasil de Fato – Quando se fala na história do rap brasileiro, muitas vezes a narrativa acaba concentrada em São Paulo. Como você acompanhou o surgimento e o desenvolvimento do rap em Pernambuco? Quais foram os espaços, artistas e movimentos que ajudaram a construir essa cena?

Zé Brown – Cara, eu falo com propriedade, né? Na minha experiência, no final dos anos 1980, já tinha uns b.boys lá. Sou da comunidade do Alto José do Pinho, Zona Norte Recife. Próximo ao Zé do Pinho tem uma comunidade chamada Morro da Conceição e já tinha uns jovens que já dançavam o break. Na época, eu jogava capoeira na Praça do Trabalho, onde tinha algumas feiras típicas, e a roda de capoeira se encontrava lá.

Quando chegou o break e vi os caras dando moinho de vento e giro de cabeça eu me apaixonei logo à primeira vista. Aí comecei break, comecei a estudar a cultura hip-hop através dos vinis, descobri que tinha as artes agregadas do grafite, o dj com a arte da discotecagem e o rap com o MC, o mestre de cerimônia.

Só que sou criado em duas situações cotidianas, uma em Nazaré da Mata, que é o lado do interior. Mas também do lado urbano, Alto José do Pinho.

Fui criado ouvindo várias músicas e manifestações culturais como o caboclinho, frevo, maracatu, ciranda, partido-alto, repente e embolada. Nazaré da Mata tinha muito disso. Então quando foi em 1988, fiz meu primeiro laboratório de rima com rap e embolado. Peguei um pandeirinho de lata de doce e cantei em cima da embolada. E foi justamente uma música do Thaíde, Corpo fechado, e misturei um com um improviso meu.

Fusão do hip-hop com tradições nordestinas marca trajetória de Zé Brown |
Fusão do hip-hop com tradições nordestinas marca trajetória de Zé Brown | — Júlio Camargo/Brasil de Fato
Fusão do hip-hop com tradições nordestinas marca trajetória de Zé Brown | Foto: Júlio Camargo/Brasil de Fato

Hoje existem artistas muito jovens fazendo rap, misturando gêneros e utilizando ferramentas que não existiam quando você começou. Como você vê essa nova geração e a forma deles combinarem outras influências musicais?

Na época não tinha muita facilidade de produzir. Hoje você produz um álbum em casa. Essa nova geração tem muita sorte com a atual tecnologia. Antigamente nós já sofria um pouco, tipo as informações. Os vinis não chegavam fácil em Recife. Hoje em dia, um cara grava nos Estados Unidos e te manda um álbum que, em menos de um minuto, já chega no seu e-mail. E com isso tem a oportunidade de fazer mistura pois está muito mais acessível. Hoje vejo que em Recife tem uns grupos que já estão misturando forró tradicional, pé de serra, com rap. Aí surgiu um cara como o Rapadura.

Também tem o Opanijé, que é de Salvador e já mistura com Candomblé. Então trouxeram uma nova força para a cultura do hip-hop. Outros grupos já vinham misturando rap com samba, por exemplo, Rappin’ Hood em São Paulo e Marcelo D2 no Rio de Janeiro. Muita coisa boa tem surgido por aí e acho que é bem-vindo.

Você começou em uma geração em que muitos rappers utilizavam a música para fazer críticas sociais muito fortes. E falavam sobre os problemas da periferia, desigualdade social, racismo. Na época do Faces do Subúrbio, por exemplo, tocava bastante na questão violência policial, a ação policial contra crianças e adolescentes como nas músicas Homens fardados e Crime acima da lei. E são letras extremamente atuais. Na sua visão, como esses problemas são tratados nas músicas do rap brasileiro hoje em dia?

Uma parte do rap perdeu a crítica, mas outra parte mantém essa mensagem social.

Eu vejo que alguns grupos de rap da minha época continuam porque não mudou muita coisa para benefício das quebradas e da periferia. Nós tínhamos uma urgência para ser contundentes. Realmente tinha que injetar essa mensagem, com esse lado poético e também de protesto, para que esses jovens entendam que a situação não está nada normal. A repressão policial ainda existe, falta de saneamento básico ainda existe, discriminação e racismo ainda existem.

Seu último disco é de 2018 com várias participações especiais. Pode falar como foi a produção desse disco e conseguir reunir uma galera tão diversificada? E, depois desse disco, você também lançou outras faixas isoladas. Gostaria de saber como são esses trabalhos mais recentes e se vem material novo por aí.

O meu trabalho, de um modo geral, é um trabalho de pesquisa. Eu nunca falo que é uma carreira solo. Nunca trato apenas como um produto final, um álbum ou um produto fonográfico. Eu sempre trago algo a mais pra participar de minhas influências. Esse ano eu completo 38 anos de labuta e, nessa trajetória artística e musical, eu gravei com o Thaíde e Carina Santana na mesma música. Tem novamente uma participação com Caju & Castanha, regravamos A cidade do Nação Zumbi. Convidei o Sombra do SNJ, Lia de Itamaracá que é a rainha da ciranda. Essa mesma música com Lia também tem Nando Cordel.


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Fonte
Brasil de Fato
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