Aquecimento do Pacífico deve atingir o pico às vésperas da posse do próximo governo gaúcho

Por Marcela Brandes08/09/2026 às 19:384 visualizações
Na crise climática de 2024, chuvas acumuladas e concentradas ocasionaram inundações e deslizamentos em várias regiões do RS
Na crise climática de 2024, chuvas acumuladas e concentradas ocasionaram inundações e deslizamentos em várias regiões do RS
Brasil de Fato

O primeiro boletim conjunto sobre o El Niño de 2026, divulgado em 29 de junho por seis órgãos federais que monitoram clima, águas e desastres naturais, projeta um cenário que deve alcançar seu ponto mais crítico exatamente no período em que o próximo governo do Rio Grande do Sul assume o Palácio Piratini.

O documento foi elaborado em conjunto pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pela Agência Nacional de Águas, pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, pelo Serviço Geológico do Brasil e pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Segundo o relatório, em junho deste ano a temperatura da superfície do mar no oceano Pacífico Equatorial apresentou comportamento típico de El Niño, com uma extensa faixa de águas mais quentes e anomalias superiores a 2 graus Celsius próximo à costa da América do Sul.

O boletim aponta mais de 90% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo pelo menos até o início de 2027 e indica possibilidade elevada de um El Niño classificado como muito forte entre a primavera e o verão. Esse enquadramento ocorre quando as anomalias de temperatura no Pacífico Equatorial ultrapassam 2 graus. Para o Rio Grande do Sul, os modelos apontam volumes de chuva acima da média e aumento do risco de enchentes, cheias de rios e deslizamentos.

O novo governador ou governadora toma posse em 1º de janeiro de 2027.

O que a ciência diz sobre 2024

Nota técnica do Inmet sobre o fenômeno registra que as chuvas extremas ocorridas no Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024 foram impulsionadas pela fase final de um El Niño forte, que intensificou o jato subtropical e favoreceu a permanência de frentes frias estacionárias sobre o estado. O documento pondera, porém, que o fenômeno atuou como propulsor e não como causa única. A magnitude do desastre resultou da combinação de múltiplos fatores, entre eles o aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Sul, que ampliou o transporte de umidade pelos jatos de baixos níveis, e um bloqueio atmosférico no Pacífico Sul que manteve a instabilidade persistente sobre o território gaúcho.

O Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul, vinculado ao Plano Rio Grande, também produziu nota técnica sobre o tema, na qual detalha o ciclo El Niño-Oscilação Sul e suas projeções probabilísticas para o período entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

As obras que o próximo governo vai encontrar

Em Porto Alegre, o sistema de proteção contra cheias passou por uma reformulação depois de 2024. Balanço apresentado pela prefeitura em abril deste ano aponta investimentos de R$ 2,3 bilhões em proteção contra cheias e drenagem urbana, com recursos próprios, financiamentos nacionais e internacionais e fundos criados após a enchente, entre eles o Fundo do Plano Rio Grande, administrado pelo governo estadual.

Das 14 comportas do sistema, a maior parte das passagens foi desativada e substituída por estruturas fixas de concreto armado. As comportas 3, 5 e 7, no Muro da Mauá, foram fechadas ainda em 2024. Em 2025, as intervenções avançaram para as comportas 8, 10, 13 e 14, esta última considerada o principal ponto de entrada da água dos rios na cidade durante a enchente. Em julho deste ano, a prefeitura concluiu obra de proteção junto à malha ferroviária, em trecho onde a implantação da ferrovia havia reduzido a cota original do sistema. Em agosto, foram instaladas as comportas dos pôlderes 7 e 8, entre os bairros Sarandi e Anchieta, na zona norte.

O quadro, no entanto, não está encerrado. Em reportagem publicada em abril pelo jornal Extra Classe, o hidrólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisas Hídricas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fernando Fan, afirmou que as obras realizadas até então ajudam bastante, mas não resolvem integralmente o problema diante de um cenário semelhante ao de 2024. Segundo o pesquisador, a proteção é maior no Centro e apenas parcialmente maior na zona norte, com pontos frágeis nas proximidades da rodovia Freeway. Cerca de 500 famílias do bairro Sarandi seguiam residindo em zona de inundação à época da reportagem.

Auditoria realizada sobre a gestão do sistema identificou uma fragilidade institucional: a unidade do Departamento Municipal de Água e Esgotos responsável pelo planejamento de projetos de drenagem e proteção contra cheias nunca teve concurso público para contratação de servidores e contava com apenas dois funcionários. No momento da enchente, havia uma única pessoa atuando na equipe de proteção contra cheias. O tribunal apontou ainda riscos ligados à terceirização de atividades consideradas essenciais. Bairros da zona sul, como Guarujá, Serraria e Lami, historicamente fora do desenho original do sistema, devem receber os primeiros estudos de diques e casas de bombas ao longo deste ano.

O que propõe o plano de Juliana Brizola

O plano de governo registrado por Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT) dedica um eixo inteiro a infraestrutura, cidades e resiliência climática, com capítulos específicos sobre Defesa Civil, meio ambiente e transição energética.

No capítulo sobre Defesa Civil, o documento sustenta que as catástrofes climáticas recentes evidenciaram os limites de um modelo historicamente concentrado na resposta emergencial e no socorro após a ocorrência dos desastres, e propõe uma mudança de paradigma em direção à gestão preditiva de riscos.

Entre as medidas previstas estão a implantação de um Sistema Integrado de Alerta Precoce nas bacias críticas, a profissionalização do quadro técnico da Defesa Civil com meteorologistas, geólogos, oceanógrafos e engenheiros, e o apoio aos 497 municípios gaúchos na elaboração e atualização de planos de contingência e evacuação, na realização de simulados e no mapeamento de áreas sujeitas a inundações e deslizamentos.

O programa também prevê a formação de brigadas comunitárias de Defesa Civil, a criação de uma rede gaúcha de pesquisa sobre eventos extremos articulada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado e o acesso público aos dados produzidos por radares e estações meteorológicas estaduais.

No capítulo ambiental, o documento afirma que o enfraquecimento das estruturas de fiscalização da Secretaria do Meio Ambiente e da Fundação Estadual de Proteção Ambiental reduziu a capacidade do Estado de prevenir, fiscalizar e responsabilizar infrações e danos ambientais, e propõe a recomposição dos quadros técnicos dos dois órgãos, a atualização do planejamento estadual de adaptação e mitigação climática e a aplicação do Zoneamento Ecológico-Econômico para prevenir a ocupação de áreas de risco. Em habitação, o plano prevê reassentamento seguro para famílias residentes em áreas sujeitas a inundações e deslizamentos e um cadastro georreferenciado de ocupações e áreas de risco.

O que propõe o plano de Gabriel Souza

O programa de Gabriel Souza (MDB) e Ernani Polo (PSD) tem a Resiliência Climática como um de seus quatro eixos estruturantes, ao lado de Cuidar das Contas, Cuidar das Pessoas e Desenvolvimento e Liberdade Econômica.

Na área de Defesa Civil, o plano propõe uma estrutura permanente, integrada e regionalizada, além da ampliação dos sistemas de monitoramento, previsão, alerta e comunicação de riscos. O documento registra que o Estado já dispõe de estações hidrometeorológicas distribuídas pelas 25 bacias hidrográficas e de sistemas digitais de monitoramento, e apresenta como proposta para o próximo ciclo a ampliação dessa estrutura e o fortalecimento da governança entre estado, municípios e demais instituições. O programa prevê ainda um Plano Estadual de Segurança Hídrica, com investimentos em reservação e armazenamento, além da execução de obras de proteção contra cheias e de novos investimentos em irrigação.

O que a maior parte das medidas não informa são prazos intermediários, número de beneficiários, valores necessários ou fontes específicas de financiamento.

O financiamento da adaptação

Sobre esse último ponto pesa uma questão orçamentária concreta. O Fundo do Plano Rio Grande, criado por decreto após a catástrofe, recebeu R$ 6,2 bilhões entre junho de 2024 e dezembro de 2025 e se tornou a principal fonte recente de financiamento dos investimentos estaduais, incluindo obras de proteção contra cheias. As parcelas mensais da dívida do Estado com a União, suspensas em razão da catástrofe de 2024, voltam a ser pagas a partir de junho de 2027, o que encerra a base que sustenta o fundo. Em 31 de dezembro de 2025, o saldo devedor dessa dívida alcançava R$ 106,54 bilhões.

O plano da Coligação Com o Povo estabelece como meta prioritária buscar junto ao governo federal a prorrogação do fundo por mais três anos, destinando os recursos correspondentes aos pagamentos suspensos a investimentos em infraestrutura e projetos de sustentabilidade ambiental, e afirma que essa articulação deve ser mantida independentemente do resultado das eleições presidenciais. O programa de Gabriel Souza propõe a adesão formal do Estado ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, mecanismo federal de revisão dos encargos e redução dos juros incidentes sobre a dívida, com economia anual projetada pela candidatura em cerca de R$ 600 milhões.

As demais candidaturas

A candidata do PSTU, Rejane Oliveira, professora da rede pública estadual e dirigente da Central Sindical e Popular Conlutas, incluiu a falta de prevenção às enchentes entre os problemas apontados no lançamento de sua candidatura, ao lado da desindustrialização, da precarização dos serviços públicos e das filas na saúde. O manifesto de seu partido defende o cancelamento da dívida pública do Estado com a União.

A Unidade Popular, partido de Priscila Voigt, afirmou que o estado vive as consequências da crise climática de forma dramática, especialmente com a enchente de 2024, e que mais de dois anos depois milhares de famílias ainda não conseguiram reconstruir suas vidas. A legenda sustenta que não é possível seguir apostando em um modelo de desenvolvimento baseado na exploração intensiva dos recursos naturais sem considerar seus impactos ambientais e sociais.

Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) não apresentaram publicamente, nas fontes consultadas por esta reportagem, propostas detalhadas específicas sobre adaptação climática e prevenção de desastres. Maranata tem associado sua candidatura à experiência de Guaíba durante as enchentes de 2024, município que administrou como prefeito.

Fonte
Brasil de Fato
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