11 de setembro: Palavras sobre a catástrofe (Há 25 anos, hoje)

Por Cidade das Letras: literatura e educação10/09/2026 às 22:391 visualizações
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Brasil de Fato

Alexandre Fernandez Vaz

As reuniões do Conselho Universitário (CUn) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) costumam acontecer em manhãs de terça-feira. Não foi diferente há 25 anos, em 11 de setembro, mas, como estávamos em greve, a sessão foi realizada não na sala dos conselhos, mas no auditório da reitoria. Conselheiros das diferentes categorias, assim como lideranças do movimento que se iniciava, estavam lá, sem saber muito bem como seriam os próximos meses. Voltaríamos às aulas apenas em fevereiro do ano seguinte, 2002. 

Eu representava o Centro de Ciências da Educação (CED) no CUn e, mal chegando lá, soube por um colega do ataque em curso. Os Estados Unidos da América estavam sob uma ofensiva da qual não se sabia a origem. Aviões haviam se chocado, deliberadamente, contra as Torres Gêmeas de Nova York, que desmoronavam e levavam consigo milhares de corpos. Ao longo do dia as coisas foram ficando mais claras, não em relação à greve, mas aos atentados da Al-Qaeda contra os EUA

Eric Hobsbawm lançara uns poucos anos antes – em 1994, para ser mais preciso – o incontornável “A era dos extremos: o breve século XX – 1914–1991”. Segundo ele, inaugurava-se uma nova época com o fim do socialismo realmente existente, em fins dos anos 1980 e início da década seguinte, um império que, em suas palavras – as de um comunista ilustradíssimo – havia caído “como um castelo de cartas”. Pois bem, o historiador ponderou, em seguida aos ataques, que talvez outro marco temporal devesse ser considerado depois que Mohamed Atta e seus companheiros pilotaram aqueles aviões transformados em mísseis. 

Nove anos antes, Hobsbawm estivera na UFSC para, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), antecipar algumas das teses daquele livro, apontando a barbárie como uma das dimensões constituintes do século que findava. A poucos metros de onde a conferência, em 1992, fora proferida, na tarde daquele mesmo 11 de setembro de 2001, em que, pela manhã, estivéramos em reunião do CUn, houve uma assembleia de professores. 

Foi no hall do CFH e uma colega, historiadora como o mestre britânico – mas nascido na África e tendo crescido no que fora Império Austro-húngaro, um cidadão do século – empunhou o microfone para, sorrindo, louvar o ataque, plena em sua fantasia regressiva a respeito do que era, na verdade, ação autodestrutiva e desesperadamente entrópica. Não faltou quem a aplaudisse.

Voz lúcida

Susan Sontag – o modelo mais avançado de intelectual público que conheço – talvez tenha sido a voz mais lúcida a se pronunciar, a quente, sobre os acontecimentos daquele final de inverno no Hemisfério Norte. Não deixa de ser irônico que em 11 de setembro, ela, tão novaiorquina, estivesse em Berlim, uma cidade destruída ao final da Segunda Guerra, e que ainda conta com cerca de 3000 artefatos explosivos não detonados em seu subsolo. A história das cidades é, aliás, a dos seus processos de destruição. Neste sentido, chama a atenção que Mohamed Atta tivesse estudado arquitetura no Cairo, capital de seu país natal, e engenharia em Hamburgo, em cuja universidade diplomou-se dois anos de promover a destruição de um dos símbolos urbanos – e fálicos – mais importantes de Nova York.

“Desculpar ou tolerar em qualquer medida essa atrocidade, culpando os Estados Unidos — embora haja muito a censurar no comportamento americano no exterior —, é moralmente obsceno. O terrorismo é o assassinato de pessoas inocentes. Desta vez, foi matança em massa”, escreveu Susan, para então sublinhar a pertinência da política no governo da cidade, aquela que só pode considerar seus cidadãos pessoas autônomas e adultas, recusando toda forma de infantilização.

Ancorada nesse quadro de entendimento, evocou o pensamento como mediação irrenunciável perante o acontecido e suas consequências: “Nossos líderes informaram-nos que eles consideram que a sua tarefa é do tipo manipulativa: a construção da confiança e a gestão da dor. Política, a política de uma democracia — que acarreta desacordo, que promove a franqueza — foi substituída pela psicoterapia. De todas as formas possíveis, vamos lamentar juntos. Mas não vamos emburrecer juntos. Alguns frangalhos de consciência histórica poderiam nos ajudar a entender o que acabou de acontecer”.

Como toda lucidez tem seu ônus, a de Susan Sontag exigiu-se um pagamento ao fanatismo e ao não pensamento, presentes em toda parte. Passados poucos dias do atentado, logo após aparecer o primeiro dos seus artigos, publicado na New Yorker, outra revista, a New Republic, comparou-a a Osama bin Laden e Saddam Hussein. Foi apenas um dos seguidos golpes que ela sofreu ao longo dos meses seguintes, o que não evitou que mantivesse postura autônoma e corajosa a favor da reflexão e da ação política, mas jamais da retórica demagógica dos senhores Bush Jr. e Rumsfeld.

Adorno escreveu em suas Minima Moralia que “o espírito do mundo”, diferente daquele visto por Hegel, chegou-lhe não montado em um cavalo, mas “sob asas e sem cabeça”. O que o grande dialético não podia prever – ele, que nasceu também em um 11 de setembro, em 1903 – é que tal foguete seria feito, em 2001, de aço, combustível, sangue e carne humanos. Tampouco era-lhe possível saber que também nessa data, mas 70 anos após seu nascimento, outro ataque aéreo destruiria uma democracia socialista, a chilena. 

Adorno – que, como poucos, entendeu o caráter bárbaro da civilização –, La Moneda, Twin Towers, sempre em 11/09: em relação a essa dinâmica histórica, podemos recorrer ao que Susan escreveu sobre a posição estadunidense um ano depois do atentado dos aviões-mísseis: “Quando o governo declara guerra contra o terrorismo — e o terrorismo é uma rede multinacional de inimigos, em larga medida clandestina —, significa que o governo pode fazer o que quiser. Quando ele quiser intervir em algum lugar, vai intervir. Não vai tolerar nenhum limite ao seu poder”. É bom levarmos isso a sério ainda, ou, principalmente, hoje.

Alexandre Fernandez Vaz  é Professor Titular da UFSC,  Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 1995) e Doutor em Ciências Humanas e Sociais (Dr. Phil.) pela Gottfried Wilhelm Leibniz Universität Hannover, Alemanha.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

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Brasil de Fato
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