Reino Unido anuncia veto a produtos de assentamentos ilegais na Cisjordânia e acusa Israel de ‘limpeza étnica’

Por André Lucena08/09/2026 às 14:5210 visualizações
O Ministro das Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, discursa sobre a proibição da importação de produtos de assentamentos ilegais em territórios palestinos ocupados.
O Ministro das Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, discursa sobre a proibição da importação de produtos de assentamentos ilegais em territórios palestinos ocupados.
Brasil de Fato

O Reino Unido anunciou nesta terça-feira (8) que vai proibir a importação de bens produzidos em assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia ocupada. O chanceler Ed Miliband detalhou a medida em sessão da Câmara dos Comuns, anunciando sanções contra empresas e indivíduos que prestem serviços aos assentamentos. 

Ao apresentar a decisão, Miliband teceu críticas ao governo Benjamin Netanyahu. “O governo britânico concorda que há limpeza étnica de palestinos em áreas da Cisjordânia, perpetrada por colonos terroristas”, disse a parlamentares. O chanceler também ressaltou que Londres considera ilegal a ocupação israelense do território palestino como um todo. Segundo ele, existe “um profundo sentimento de vergonha pelo que se desenrolou na Palestina sob os olhos da comunidade internacional”. 

O veto atinge produtos como azeite e vinho exportados dos assentamentos. As sanções alcançam companhias e pessoas que sustentam a expansão colonial, proibindo qualquer publicidade de assentamentos ilegais. Além disso, o governo vai negar a licença de exportação de armas que contribuam para a ocupação.

A legislação definitiva pode levar alguns meses para ser publicada, segundo parlamentares britânicos, mas Miliband prometeu que as sanções serão imediatas. Atualmente, cerca de 770 mil colonos vivem nos territórios palestinos ocupados. Somente nos últimos quatro anos, mais assentamentos foram autorizados do que nas duas décadas anteriores.

Amplo alcance

A medida britânica não é isolada. Também nesta terça-feira (8), a França anunciou que vai dar início ao processo de proibição de produtos dos assentamentos.

“A França vai pôr fim ao seu comércio com os assentamentos israelenses na Palestina, juntamente com outros 11 países que também assumiram compromissos semelhantes”, escreveu o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, no X. Além de França e Reino Unido, aderiram ao rechaço Espanha, Irlanda, Portugal, Polônia, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. 

Barrot justificou a decisão. “Por que estamos fazendo isso? Porque a Cisjordânia está prestes a explodir. Há uma expansão frenética dos assentamentos, um aumento da violência contra os palestinos por parte de colonos extremistas e atos terroristas”, disse. A ação avança à margem da União Europeia, que, até agora, não conseguiu maioria qualificada para uma decisão do bloco. A principal força de resistência vem da Alemanha. No ano passado, a França reconheceu o Estado palestino em uma cúpula realizada antes da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Nas primeiras horas desta terça-feira (8), Israel reagiu. O ministro das Finanças do país, Bezalel Smotrich, chegou a pedir a expulsão do embaixador britânico, enquanto a conta oficial da chancelaria israelense atacou pessoalmente Miliband nas redes. Na semana passada, o chanceler Gideon Saar tinha advertido que, caso a França agisse contra Israel, haveria retaliação. O presidente Isaac Herzog classificou a proibição como um “grave erro de cálculo”. 

Nos Estados Unidos, o embaixador em Israel, Mike Huckabee, sugeriu que o governo Donald Trump poderia retaliar. Ele chamou a proibição de “discriminação contra o povo judeu”, citando a Flórida como um dos estados que podem retaliar diretamente o Reino Unido. “Os britânicos perderam o juízo”, sintetizou Huckabee.

O primeiro-ministro Andy Burnham conversou com Donald Trump na última segunda-feira (7), aproveitando para tratar dos planos do governo na região. O gabinete britânico afirmou que a chamada telefônica serviu para enfatizar “a importância de uma solução de dois estados“. Internamente, a medida tem respaldo de mais de 140 deputados trabalhistas, enquanto pesquisas de opinião apontam que o apoio por parte da população britânica é majoritário.

Os desdobramentos da tensão diplomática chegaram às Ilhas Malvinas. O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, pediu a Netanyahu que reconheça a soberania argentina sobre o arquipélago e adote sanções contra Londres.

“Os britânicos não só se contentam em ocupar o território, mas também realizam lá perfurações petrolíferas e roubam o dinheiro do povo argentino”, escreveu em publicação no X.

A ilha, localizada no extremo sul da América do Sul, tem sido objeto de disputa há décadas. Em 1965, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que classificou as Malvinas como território em “situação colonial pendente”, chamando Argentina e Reino Unido à negociação. Desde então, o Comitê de Descolonização renovou diversas vezes o pedido, que costumeiramente é ignorado por Londres.

Fonte
Brasil de Fato
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