O que pensa a juventude latino-americana de países governados pela direita sobre seus governos?

Por Leonardo Fernandes10/09/2026 às 00:2310 visualizações
Protestos na Argentina contra o governo de extrema direita liderado por Javier Milei.
Protestos na Argentina contra o governo de extrema direita liderado por Javier Milei.
Brasil de Fato

O avanço do neoliberalismo redefine o cenário político na América Latina. Atualmente, países como Argentina, Colômbia, Honduras e Chile enfrentam gestões de extrema-direita que impõem duros ataques à classe trabalhadora, como a flexibilização de normas trabalhistas e a redução de orçamento para áreas sociais. 

Vozes da juventude organizada desses territórios relatam como a resistência popular se articula contra os retrocessos sociais. 

Valentina Cabrera é militante do movimento estudantil na Argentina, governada pelo presidente de extrema direita Javier Milei, onde, nos últimos anos, o corte em subsídios, demissões em massa e o congelamento de salários, diante de patamares de inflação superiores a 33%, têm elevado os níveis de pobreza no país. 

“O governo de Javier Milei, um governo de crueldade sistematizada, sistemática em relação ao povo trabalhador. Começou o seu mandato, a priori, designando para si poderes extraordinários para revogar a torto e a direito leis que tinham a ver com os direitos do nosso povo, eliminando o Ministério do Meio Ambiente, eliminando o Ministério das Mulheres e Diversidades, manifestando-se em Davos contra as mulheres, as diversidades e os corpos racializados, com um forte racismo e misoginia contra todo o nosso povo”, diz a jovem militante argentina. 

“É preciso demonstrar a todo o mundo, aos brasileiros, às brasileiras, mas também a todo o mundo, que o modelo de Milei fracassa concretamente. É um modelo de fracasso econômico, não apenas porque não distribui a riqueza, mas também porque entrega a nossa terra, o nosso salário, entrega os nossos corpos concretamente ao capital estrangeiro, ao mercado internacional predador”, analisa Cabrera.

Em território colombiano, a ascensão à presidência de Abelardo de la Espriella, um nome sem histórico na gestão pública, mas associado a grupos armados violentos, acendeu o alerta das organizações estudantis. Para a jovem Karen Arteaga, militante do Congreso de los Pueblos, o desafio agora é retomar a luta popular após um período de avanços progressistas.

“Nós estamos realmente preocupados com o novo governo, de Abelardo de la Espriella. Ele é uma pessoa que não tem trajetória na política, nunca assumiu um cargo político na Colômbia. E também é uma pessoa que, dentro de seus antecedentes, teve grande atuação no apoio ao paramilitarismo, na defesa de diferentes grupos armados e, em especial, na defesa de pessoas envolvidas no narcotráfico e na vitimização de mulheres”, argumenta Arteaga. 

“Percebemos que toda essa trajetória que já vínhamos fortalecendo durante o período da esquerda [de Gustavo Petro] deve nos levar a nos mobilizar novamente, a voltar a defender os direitos humanos, a restabelecer os diálogos, os debates e o pensamento crítico que realmente gerem uma oposição a esse governo”, completa.

A onda reacionária também atinge a América Central. No território hondurenho, o presidente recém-empossado, Nasry Asfura, suspendeu obras públicas de saúde e aprovou uma nova lei que permite o confisco de terras que tenham sido ocupadas pelos camponeses, agravando os conflitos e beneficiando grandes empresas do setor agropecuário, como conta Sinia Rápalo, do Movimento Estudantil Revolucionário Lorenzo Zelaya.

“Neste ano de 2026, assumiu a presidência Nasry Asfura, mais conhecido como Tito Asfura, que é uma pessoa de direita que, em vez de avançar, está retrocedendo o nosso país. Por exemplo: foram paralisadas as obras dos sete hospitais que estavam sendo construídos, as terras dos camponeses estão sendo confiscadas, entre outras coisas que mostram que, aparentemente, nestes quatro anos vai ser ainda pior. Pois faz apenas alguns meses que ele assumiu e já estamos vendo o grande impacto negativo que este novo governo tem em nosso país”, conta a militante hondurenha.

Mais ao sul do continente, a gestão ultraconservadora chilena de José Antonio Kast recorre a medidas de força para perseguir os movimentos populares, enquanto concede isenções fiscais para o grande capital estrangeiro, segundo Camila Jara, jovem militante do povo Mapuche.

“No Chile, estão ocorrendo retrocessos importantes em relação aos direitos que já tínhamos conquistado anteriormente. Também existe uma criminalização da organização popular. Atualmente, há um projeto de lei chamado Lei de Segurança do Estado, pelo qual o Poder Executivo, de maneira arbitrária, pode vistoriar o seu celular, proibir você de se encontrar com certas pessoas, iniciar uma investigação contra você e prendê-lo”, conta a jovem.

“Também vemos com preocupação essa megareforma que nós, dos movimentos sociais, denominamos megareforma dos super-ricos, na qual são reduzidos os impostos das grandes corporações internacionais”, afirma Jara.

Alerta aos brasileiros

Com o Brasil em plena corrida presidencial, as jovens latino-americanas alertam para os perigos das campanhas de manipulação e das sabotagens eletrônicas, convocando a classe trabalhadora a votar em peso. 

Para a colombiana Karen Arteaga, a verdadeira trincheira contra o fascismo se constrói no trabalho de base nos territórios, longe das ilusões criadas pelas tecnologias a serviço do capital, como as redes sociais e a inteligência artificial. 

“Uma das coisas que desempenhou um papel muito importante em nossas eleições foi o uso da inteligência artificial. Isso gerou um show midiático que foi minando as capacidades que o nosso governo de esquerda tinha de diálogo com o povo, publicando muitas notícias falsas e posicionamentos contrários para fazer com que as pessoas brigassem entre si”, avalia Arteaga. 

“A minha mensagem fundamental neste momento é que reivindiquemos a união e, sobretudo, a união dos interesses coletivos, e não dos interesses particulares ou daquele aparente crescimento econômico, que na realidade funciona como uma facilitação para todo o extrativismo em seu território e, principalmente, para a invasão ianque”, agrega a colombiana.

A chilena Camila Jara adverte que nenhum direito popular é permanente ou ofertado de graça pelas elites, exigindo mobilização permanente contra as pautas reacionárias que atacam a dignidade feminina.

“O conselho que eu poderia dar é que pensemos que os direitos que temos atualmente nunca foram dados de presente; sempre foram conquistados com disputa nas ruas, entregando a vida de nossas companheiras e companheiros. A extrema-direita é perigosa”, diz a jovem Mapuche.

“Meu conselho, a princípio, é continuar se organizando e, se não, começar a se organizar, porque a base dos governos populares tem que estar também na comunidade organizada, o que é a chave também para levar adiante processos que dignifiquem os nossos povos. E, depois, as redes sociais e a política de sobreinformação à qual nos estimulam o tempo todo não são a vida real”, recomenda Cabrera. 

“Um conselho para toda a juventude: querem nos fazer acreditar não apenas que estamos vencidos, mas que não podemos fazer nada. Sim, é possível gerar outros processos, apesar de as circunstâncias serem tão adversas como estão sendo agora”, completa.

Fonte
Brasil de Fato
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