Casal transforma casa em espaço educativo para crianças em Guarulhos

Por Amanda Oliveira08/09/2026 às 22:402 visualizações

As crianças do bairro do Cabuçu, em Guarulhos, na Grande São Paulo, já conhecem de cor a rotina todos os dias da semana. Logo no começo da tarde, algumas vão até os pontos de parada esperar a perua que vai buscá-las. Outras decidem ir a pé, por conta própria.

Toda a semana, elas vão para a casa de América Diamanso, 64, e de Roberto Diamanso, 63, casal que transformou a própria residência em um espaço de brincadeiras, arte e ciência.

Há três décadas, quando se mudaram para a região, o espaço era só um terreno com uma casa em construção. Ela nem precisou ficar pronta para que passasse a ser frequentada pelas crianças da vizinhança, como local de brincadeira e acolhida.

América e o esposo Roberto, o casal que construiu a ONG Missão Peregrina @Arquivo pessoal/Divulgação
América e o esposo Roberto, o casal que construiu a ONG Missão Peregrina @Arquivo pessoal/Divulgação

América e o esposo Roberto, o casal que construiu a ONG Missão Peregrina @Arquivo pessoal/Divulgação

Primeiro, chegaram alguns meninos e meninas que estavam fora da escola. Depois vieram outros, até que a família formou o primeiro grupo, com 10 crianças em casa, além dos três filhos biológicos de América e Roberto.

“Desde quando eu era criança, queria ter uma casa aberta. Ela foi acontecendo, as pessoas foram chegando e quando vi éramos uma ONG”, conta América. O espaço ganhou o nome de Missão Peregrina, projeto vinculado à Associação Cantareira.

Em agosto de 2026, 134 crianças de até 14 anos estavam cadastradas para participar das atividades. 

Perua que Roberto usa para buscar as crianças em pontos específicos do bairro. Ele pretende comprar uma maior e mais nova @Amanda Oliveira/Agência Mural
Perua que Roberto usa para buscar as crianças em pontos específicos do bairro. Ele pretende comprar uma maior e mais nova @Amanda Oliveira/Agência Mural

Perua que Roberto usa para buscar as crianças em pontos específicos do bairro. Ele pretende comprar uma maior e mais nova @Amanda Oliveira/Agência Mural

Antes da mudança para o Cabuçu, nos anos 1990, América já tinha experiência com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Ela havia sido educadora na antiga Febem (Fundação para o Bem-Estar do Menor, atual Fundação Casa) e trabalhado com adolescentes em liberdade assistida, em Guarulhos.

O contato com essa realidade despertou nela e no marido o desejo de atuar com crianças que viviam em situações extremas, com infâncias marcadas pelo abandono e pela falta de oportunidades.

No começo, o casal recebia crianças afastadas da família, como um lar temporário. Um dos primeiros a chegar foi um menino de 10 anos que havia sobrevivido a uma chacina em Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo, ocorrida em janeiro de 1999. A casa dele foi atingida por cinco tiros e a mãe, baleada, morreu no episódio. O garoto estava traumatizado e foi acolhido.

Três meses depois, outro menino, então com seis anos, também passou a viver com América e Roberto enquanto aguardava uma definição da Justiça sobre se seria reencaminhado para família ou para adoção. Na sequência, vieram dois grupos de irmãos, somando nove crianças.

América deixou de dar aulas fora para se dedicar à rotina dos meninos e meninas que estavam na casa. Ela começou a lecionar para eles e para as crianças da vizinhança que estavam fora da escola, um problema ainda recorrente na década de 1990.

A casa de todos

Mais de 30 anos depois, as portas da casa de América e Roberto seguem abertas e atendendo mais crianças. De segunda a sexta-feira, a partir das 14h30, turmas de até 60 meninos e meninas ocupam o espaço para uma série de atividades de arte, cultura e educação, que começam sempre com um café da tarde e uma roda de conversa sobre assuntos variados.

Quem dirige a perua que leva parte das crianças é o próprio Roberto, que também é músico, compositor e capelão.

Na casa, há aulas de dança, capoeira, música, teatro, alfabetização e reforço. Também há brinquedoteca, futebol e momentos livres para brincar. Algumas aulas específicas são oferecidas em conjunto com a Hamburgada do Bem, uma ONG fundada em 2015 que promove eventos em comunidades vulneráveis.

A ONG Missão Peregrina oferece várias atividades para crianças e jovens @Amanda Oliveira/Agência Mural
A ONG Missão Peregrina oferece várias atividades para crianças e jovens @Amanda Oliveira/Agência Mural

A ONG Missão Peregrina oferece várias atividades para crianças e jovens @Amanda Oliveira/Agência Mural

A proposta, segundo América, é que o espaço não seja percebido pelas crianças como uma extensão da escola.

“Elas precisam gostar de estudar e para isso a gente trabalha com arte. Tem aula de dança, capoeira, música”, conta.

Sofia Mirelly, 7, é uma das crianças que participam das atividades todas as tardes. “Eu gosto de brincar de pega-pega, jogo bola, faço lição e pinto. Eu gosto de ir todos os dias, quando não vou fico um pouquinho triste”, conta.

‘Faço até aula de balé, música, capoeira. O que mais gosto de tudo é pintar’

Sofia, aluna das atividades

No bairro do Cabuçu, distante dos equipamentos de cultura e lazer de Guarulhos, o acesso a atividades extracurriculares para crianças acaba limitado e a ONG se torna uma alternativa no território.

A alimentação é parte central do trabalho. As crianças recebem café da tarde e jantar antes de voltar para casa. Os ingredientes são doados por pessoas ou organizações parceiras que conhecem o trabalho.

Aos fins de semana, igrejas ajudam a financiar cafés da manhã, que também são abertos às famílias. “Não sei explicar, mas nunca faltou comida”, conta América.

“A ONG faz parte da minha vida e da vida dos meus filhos. É muito importante para mim porque me ajuda, ensina coisas boas para eles e os deixa longe da rua. Eles são a segunda família das crianças e cuidam muito bem de todas”, conta Rafaela Darlin, 35, mãe da Lavínia e do Levi, que participam das atividades.

Quando perguntada sobre uma palavra que resumiria o trabalho, América não hesita: “incluir.” Mas cita que há desafios para continuar.

Imagem do artigo

Biblioteca com várias obras de escritores disponíveis para as crianças @Amanda Oliveira/Agência Mural

Imagem do artigo

Espaço com brinquedos para diversão das crianças @Amanda Oliveira/Agência Mural

Imagem do artigo

Na ONG as crianças aprendem atividades com pintura @Arquivo pessoal/Divulgação

Sustento no improviso

América e Roberto não têm apoio financeiro fixo do poder público para manter a ONG e não há funcionários contratados. A organização sobrevive principalmente de doações de pessoas que contribuem regularmente, mas sem contratos que garantam a continuidade dos repasses.

Ao todo, 21 profissionais trabalham de forma voluntária, como professores, cozinheiros, cuidadores e oficineiros. A própria América acumula funções: é presidente da associação e cuida da parte burocrática e administrativa. A irmã dela, Denise de Oliveira Costa, 53, atua na coordenação pedagógica.

Imagem do artigo

Denise atua como coordenadora pedagógica da ONG @Arquivo pessoal/Divulgação

Imagem do artigo

Luis Carlos Cesário, 57, esposo de Denise que também atua na ONG e auxilia na cozinha @Arquivo pessoal/Divulgação

Em 2026, a associação tentou pela primeira vez acessar recursos por editais, incluindo um projeto apresentado ao ProAC (Programa de Ação Cultural), mas esbarrou em dificuldades contábeis, que impediram o financiamento.

Apesar disso, para América, há um legado que pode ser visto no dia a dia: quando uma criança chega; outra aprende; alguém que um dia foi atendido passa a ensinar; uma família recebe comida; a doação esperada chega; na aula, um menino sorri. E a casa continua aberta.

Agência Mural

O post Casal transforma casa em espaço educativo para crianças em Guarulhos apareceu primeiro em Agência Mural.

Fonte
Agencia Mural
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.