Extrema direita alemã seduziu população decepcionada com a política do país para conquistar vitória inédita

Por André Lucena10/09/2026 às 09:001 visualizações
Ulrich Siegmund, principal nome da AfD em Saxônia-Anhalt.
Ulrich Siegmund, principal nome da AfD em Saxônia-Anhalt.
Brasil de Fato

O que era uma ideia dentro do metiê alemão ganhou forma e força. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), uma sigla criada há pouco mais de dez anos e habitualmente entendida pela inteligência do Estado alemão como um grupo perigoso de extrema direita, foi o principal vencedor nas eleições regionais no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, no último final de semana.

A sigla obteve 44% dos votos, o que a põe como principal força do parlamento estadual, responsável por escolher o próximo nome que irá governar o estado. Para obter maioria, terá que enfrentar uma resistência mais que explícita de praticamente todas as forças políticas da Alemanha: uma espécie de “cordão sanitário”, costurado por partidos que vão da esquerda à direita, e que é usado como forma de isolar ao máximo a AfD. Nada de acordos ou apoios, por exemplo. 

Por décadas, a cena política da Alemanha rechaçou a mera ideia de que qualquer sigla de extrema direita pudesse governar um estado da federação alemã. Tanto na Alemanha dividida, que prevaleceu do pós-Segunda Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim, até a Alemanha unificada que se construiu do início dos anos 1990 para cá, o tema mexia e segue mexendo com feridas históricas da sociedade alemã, que vê no nazismo do século passado algo além do limite humanitário, que não deve ser ultrapassado. 

Até o momento, a AfD venceu 39 das 83 cadeiras do Legislativo local. Com uma eventual abstenção da BSW, os votos dos parlamentares da extrema direita seriam suficientes para escolher o novo governo. Quem se apresentou como o nome mais forte ao cargo foi o candidato da AfD, Ultich Siegmund.

O que levou um antigo estado da Alemanha Oriental a escolher, neste momento histórico, uma sigla da direita mais radical a governá-lo? A resposta não é simples, como nada é exatamente simples em um país marcado pela unificação tardia (consolidada somente em 1871, sob liderança de Otto von Bismarck), pela dolorosa derrota na Primeira Guerra Mundial, pela ascensão e queda do nazismo, pela capacidade de reconstrução e por inúmeras divisões internas.

O tema foi pauta do mais recente episódio do podcast O Estrangeiro, disponível no canal do Brasil de Fato no YouTube. Confira o videocast completo:

Para o jornalista e historiador Rafael Targino, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o processo histórico resultante da mais recente unificação ajuda a explicar a vitória da AfD.

“O processo de reestruturação da Alemanha, com a queda do Muro, criou uma região que foi efetivamente incorporada. Vivia-se em um sistema que provia emprego, moradia, educação e saúde. Um sistema fechado que sofria críticas, mas que dava garantias à população. E aí houve a reunificação com o capitalismo. Isso altera a dinâmica das vidas das pessoas”, contextualiza, em conversa com o Brasil de Fato

Targino ressalta que atribuir a vitória da AfD somente a raízes históricas seria simplório, sendo necessário entender a dinâmica atual. “O partido tem conseguido capturar um descontentamento que, hoje, é muito forte na Alemanha e, em alguma medida, no resto do mundo. É um descontentamento com o próprio sistema político.

O nome da sigla é sugestivo: Alternativa para a Alemanha. E a situação começa a pender ao partido quando se tem um princípio de desaceleração econômica na Alemanha, a questão da guerra na Ucrânia e o aumento dos custos de vida. “Então, o que era um partido que, no começo, tinha foco muito grande na migração, hoje é um partido que diz apresentar uma alternativa ao sistema político-econômico”, pondera o historiador.

Significados da vitória da AfD

Um dos dilemas da sociedade alemã reside no fato de que a AfD não tem crescido à toa, mas tem sido capaz de captar eleitores não apenas que votavam na direita, mas em siglas de esquerda. De acordo com um levantamento feito pela Infratest Dimap, 67% dos eleitores afirmaram que a AfD teria compreendido melhor que os demais partidos o fato de que a população em Saxônia-Anhalt já não se sentiria segura.

Junto a isso, mais de 50% do eleitorado também acha que a AfD estaria mais próxima das preocupações da população do que outros partidos políticos alemães. A preferência é ainda maior entre os mais jovens, que raramente apontam os democratas-cristãos ou os social-democratas (duas das siglas que compuseram o establishment da política alemã dos últimos anos) como capazes de dar respostas satisfatórias aos desafios para o futuro do país. 

“O erro está simplesmente no fato de que não se faz política para seus eleitores [da AfD] e, ao erguer um ‘cordão sanitário’, elimina-se a própria oportunidade de reconquistar essas pessoas decepcionadas por meio de conversas e atividades conjuntas. Nem todos os eleitores da AfD são de extrema direita ou fascistas. Pelo contrário, são cidadãos que estão irritados com o sistema e com a forma como essa política é conduzida. Por sua vez, o BSW reconheceu isso e, por essa razão, é marginalizado pelos outros partidos. O correto seria encontrar, juntamente com o BSW, um caminho para realizar uma política em benefício das pessoas comuns”, pondera ao Brasil de Fato o analista político alemão Carsten Hanke, ex-membro do Die Linke e observador político independente. 

Para a esquerda alemã, segundo Hanke, falta uma força política forte e unida, “que defenda os direitos da classe trabalhadora, dos socialmente vulneráveis e das pessoas desfavorecidas, e que também mantenha o internacionalismo tão necessário entre todos os movimentos progressistas”. 

Curiosamente, a sigla mais à esquerda do parlamento de Saxônia-Anhalt amplia a gravidade do cenário alemão. Conhecida como Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), a legenda já sinalizou que pode viabilizar as pretensões da AfD de governar o estado, abstendo-se de votar na escolha (feita por maioria simples) do próximo governo.

A sigla BSW foi criada por Sahra Wagenknecht, ex-membro do Parlamento Europeu, resultado da insatisfação da própria Sahra com a sigla A Esquerda (Die Linke), criada em 2007 por conta da fusão do Partido Socialismo Democrático (PDS) e da Alternativa Eleitoral para o Trabalho e Justiça Social (WASG). Desde então, a BSW vem defendendo não apenas a necessidade de proteção social e de maior presença do Estado alemão na economia do país, mas é crítica às políticas migratórias e às pautas identitárias. A BSW, assim como a AfD, demanda que o país deixe de enviar recursos para a Ucrânia na guerra com a Rússia, por exemplo. 

Para o caso da eleição em Saxônia-Anhalt, a BSW começou defendendo que a melhor solução seria a composição de um governo “suprapartidário”, que seria capaz de dialogar com as diferentes siglas. Diante da impossibilidade da proposta, a sigla admitiu que deve se abster na escolha do novo chefe de governo, abrindo espaço para a chegada definitiva da AfD ao poder. 

“Ao se abster na votação para o presidente do governo estadual em relação à AfD, o BSW se torna culpado pelo fortalecimento do fascismo”, sintetiza Hanke. O analista problematiza o cordão sanitário erguido contra a AfD, reconhecendo a gravidade da ascensão da extrema direita no país, mas apontando que é necessário compreender o que tem levado parte da sociedade alemã a aderir às pautas da sigla, para que seja possível enfrentar esse processo.

O impasse alemão

Não é de agora que a Alemanha, conhecida pela indústria vigorosa, enfrenta problemas econômicos. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) alemão não avançou mais do que 0,2%, após cair 0,5% em 2024 e 0,9% em 2023. Nem o tímido crescimento do ano passado pode ser tão comemorado na principal economia da Europa: no último mês de julho, as exportações do país caíram pela primeira vez em cinco meses, indicando que a recuperação econômica alemã pode perder fôlego. 

Como resultado de tamanha crise, não são poucas as empresas que passaram a decretar falência ou fechar fábricas e pontos de comércio, piorando o quadro de desemprego. Segundo dados do Instituto Leibniz de Pesquisa Econômica de Halle (IWN), a taxa de insolvência entre sociedades de pessoas e sociedades de capital no país, em junho, foi 80% maior do que a média registrada para o mês de junho entre 2016 e 2019, no período imediatamente anterior à pandemia de Covid-19. 

No país europeu, essas duas categorias de empresas são responsáveis por cerca de 90% dos empregos afetados por insolvências e por quase todo o crédito envolvido em processos dessa natureza. O mesmo instituto mostrou que o número de insolvências por lá, em 2025, foi o mais alto das últimas duas décadas, totalizando 17,6 mil casos. Só no setor industrial, foram 11 mil empresas que encerraram as atividades no ano passado. 

Cenários de crise como esse costumam afetar as populações dos estados do leste alemão. A reunificação, grosso modo, fez com que parte importante da população do leste acabasse se mudando para o oeste. Muito embora os estados da antiga República Democrática Alemã representem pouco mais de um terço do atual território do país, a população do leste não passa de 15% de toda a população alemã.

Por lá, o alastramento do modelo econômico liberal não suplantou as desigualdades sociais. Privatizações generalizadas emperraram as promessas feitas no início dos anos 1990. E aquilo que a conformação liberal do período prometeu ficou longe de ser cumprido.

“A particularidade na região da antiga RDA está no fato de que justamente esta minha geração, com o passado da RDA, e seus filhos foram os primeiros a experimentar como foram atraídos para o sistema capitalista por meio de falsas promessas”, diz ao Brasil de Fato o analista político alemão Carsten Hanke, ex-membro do Die Linke e observador político independente.

Nascido nos anos 1960, em Rostock, Hanke destaca que o direito à educação e atendimento médico gratuitos era uma marca da outrora Alemanha comunista, e que o país transitava entre os dez mais industrializados do mundo, apesar das sanções ocidentais.

O que esperar?

Para o futuro, restará saber se a vitória do último final de semana levará a AfD a voos ainda mais altos. E como a sociedade alemã poderá se organizar de modo a evitar a repetição da história. Ao comentar o resultado das urnas, o chanceler Friedrich Merz se disse “profundamente chocado” e acusou a AfD de promover “limpeza étnica”.

Para Rafael Targino, é improvável que os partidos com maior musculatura política passem a cooperar com a AfD. Ainda assim, segundo o historiador, o resultado do último final de semana pode ter sido “um aperitivo do que pode acontecer daqui em diante”. 

Os recados à Europa, como um todo, também foram dados. O premiê espanhol, Pedro Sánchez, definiu o resultado como “um alerta de que a ameaça da extrema direita, graças em parte à rendição da direita tradicional, está ganhando terreno na Europa e no mundo”. Enquanto isso, países como a própria Espanha, além da Itália e da França, estão se preparando para eleições em 2027.

Na França, a sigla de extrema direita Reunião Nacional (RN), capitaneada por Marine Le Pen, aparece como favorita para as eleições presidenciais de abril do ano que vem. De nanico político à principal ameaça à institucionalidade democrática alemã, a AfD, misturando passado e presente, pode ter deslocado o eixo político europeu da atualidade.

Fonte
Brasil de Fato
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