Quando o relógio não basta

08/09/2026 às 19:140 visualizações
20260618_perfil_-articulistas_marcelo-henrique
20260618_perfil_-articulistas_marcelo-henrique
Jornal da USP

Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP

 Publicado: 08/09/2026 às 16:14
Imagem do artigo

Nunca foi tão fácil contar o tempo. Celulares, computadores, aplicativos e relógios inteligentes nos cercam de medições contínuas. Calculamos a duração de reuniões, o tempo gasto em deslocamentos, as horas de sono e até o intervalo entre uma mensagem enviada e a resposta recebida. Poucas épocas confiaram tanto nos números para organizar a vida cotidiana. Mas existe uma pergunta que nenhum cronômetro consegue responder: o tempo que contamos é o mesmo tempo que vivemos?

Todos sabemos, intuitivamente, que não: o tempo calculado e o tempo vivido não são coincidentes. Uma tarde de espera pode parecer interminável. Uma conversa agradável termina antes que percebamos. Certas lembranças da infância permanecem surpreendentemente próximas, enquanto acontecimentos recentes já começam a se apagar. Há algo na vivência do tempo que resiste às divisões rigorosas dos relógios. Foi essa diferença que intrigou Henri Bergson (1859–1941), um dos filósofos mais influentes da primeira metade do século 20.

O tempo segundo Bergson

Professor do Collège de France e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1927, Henri Bergson dedicou boa parte de sua obra a compreender um fenômeno que todos experimentam diariamente, mas raramente param para examinar: a passagem do tempo. Em uma época marcada pelo extraordinário prestígio das ciências e pela crescente confiança em tudo aquilo que podia ser medido, calculado e quantificado, Bergson voltou sua atenção para uma dimensão menos visível da vida humana. Seu interesse não estava no tempo dos relógios, dos calendários ou das tabelas, mas no tempo tal como é vivido pela consciência.

A partir dessa constatação, desenvolveu a noção de duração, um dos conceitos centrais de sua filosofia. Para Bergson, a vida não se desenrola como uma sequência de instantes isolados. Cada momento conserva o que o precedeu. O passado não desaparece; continua presente, participando daquilo que somos e da maneira como percebemos o mundo.

Bergson recorre à experiência de uma melodia para tornar mais clara essa ideia. Não a percebemos como uma simples soma de notas isoladas: cada som traz consigo algo do anterior e se funde àquele que o sucede. Se fragmentarmos essa continuidade, a música desaparece. Restam apenas sons dispersos. Algo semelhante ocorre com a própria vida. Não experimentamos o tempo como uma sucessão de pontos independentes, mas como uma bola de neve que, à medida que avança, incorpora o passado e cresce continuamente.

O que os verbos nos contam sobre o tempo

À primeira vista, uma reflexão como essa parece pertencer exclusivamente ao campo da Filosofia. No entanto, ela encontra um eco inesperado na língua portuguesa.

Quando aprendemos gramática na escola, costumamos associar os verbos à localização temporal dos acontecimentos. O presente indicaria aquilo que ocorre agora; o passado remeteria ao que já aconteceu; o futuro apontaria para aquilo que ainda virá. Embora correta, essa explicação está longe de esgotar a questão.

A língua não se limita a registrar acontecimentos numa cronologia. Ela também constrói maneiras distintas de representá-los.

Em As astúcias da enunciação, José Luiz Fiorin mostra que os tempos verbais não servem apenas para localizar acontecimentos no tempo. Eles também contribuem para a construção do sentido, orientando o modo como os eventos são apresentados e percebidos no discurso.

Tomemos duas frases simples:

Pedro escreveu suas memórias.
Pedro escrevia suas memórias.

As duas remetem ao passado. Contudo, dificilmente provocam a mesma impressão.

Na primeira, a ação aparece como concluída, observada retrospectivamente como um fato encerrado. Na segunda, somos colocados diante de um processo. O acontecimento parece desenrolar-se diante de nós. O foco deixa de recair sobre o resultado e passa a concentrar-se na própria duração da ação.

Essa diferença pode parecer pequena, mas produz efeitos importantes. Ao escolher uma forma verbal, o falante não apenas informa quando algo ocorreu; ele também constrói uma determinada percepção do tempo para quem lê ou escuta.

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”

É justamente nesse ponto que a Linguística se aproxima da proposta de Bergson. Mário Quintana escreveu que “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. A formulação poética encontra um curioso paralelo na linguagem. Se o filósofo procurou mostrar que o tempo vivido não coincide inteiramente com o tempo medido pelos relógios, a língua revela que essa vivência pode ser recriada no próprio discurso.

O pretérito imperfeito, tão característico do português, constitui um exemplo expressivo desse fenômeno. Quando alguém afirma que a avó contava histórias nas noites de inverno, não está apenas relatando um acontecimento passado. A frase evoca uma rotina, uma atmosfera, um modo de vida. Não vemos apenas uma ação; vemos um mundo.

Os grandes memorialistas brasileiros exploraram amplamente esse recurso. Em obras como Infância, de Graciliano Ramos, ou Baú de ossos, de Pedro Nava, o passado raramente surge como uma sucessão de datas. O que encontramos é uma trama de lembranças, vozes, hábitos e afetos que parecem continuar existindo enquanto são narrados.

Talvez resida aí uma das capacidades mais interessantes da linguagem: a de transformar certas percepções sobre o tempo em algo compartilhável. Os verbos não apenas informam quando algo aconteceu. Eles permitem que o enunciatário de um texto habite, ainda que por alguns instantes, a cena construída linguisticamente pelo outro.

O tempo que fica

Os estudos linguísticos mostram que os verbos não servem apenas para localizar acontecimentos numa cronologia. Eles ajudam a construir perspectivas sobre o tempo. Ao narrar uma memória, uma rotina ou uma experiência duradoura, a linguagem faz mais do que informar: ela restitui uma maneira de habitar o passado.

Talvez por isso Filosofia e Linguística se encontrem de forma tão natural nesse ponto. Ambas nos lembram que a vida não é feita apenas de instantes sucessivos que desaparecem assim que acontecem. Ela também é feita do passado que se acumula e continua a agir sobre nós, dando forma àquilo que somos.

Bergson acreditava que a vida não se deixa reduzir inteiramente às medidas do relógio. A língua portuguesa parece concordar com ele. Enquanto os relógios medem a passagem dos dias, a linguagem continua lembrando que o passado não simplesmente passa: acumula-se e permanece conosco.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.