Depois de ter a banca arrombada e praticamente esvaziada, uma pessoa que atua em um empreendimento da Economia Solidária de Canoas fez uma rifa para pagar o conserto da porta e tentar recompor os equipamentos perdidos. Na mesma noite do sorteio, realizado no fim de julho, o espaço foi invadido novamente.
O episódio faz parte de uma sequência de arrombamentos que atinge trabalhadores das bancas municipais instaladas na praça da Bíblia, junto à BR-116, no Centro da cidade. Os casos se intensificaram neste ano e têm provocado perda de mercadorias e equipamentos, gastos com reparos e insegurança entre pessoas que dependem daqueles espaços para gerar renda.
Diante da recorrência, os trabalhadores têm cobrado da prefeitura reforço do patrulhamento e da vigilância, principalmente durante a madrugada, funcionamento das câmeras públicas e investigação dos furtos. Contudo, afirmam não receber respostas efetivas às demandas.
Willian Cavalheiro, agente do Programa Paul Singer em Canoas, que acompanha os empreendimentos de Economia Solidária do município, confirma que os episódios passaram a ocorrer com frequência. “Os arrombamentos estão acontecendo semanalmente”, relata.
Segundo relato de uma fonte que também atua no local e pediu anonimato, os primeiros casos começaram em 2024, inicialmente nos relógios de energia da praça. Neste ano, foram ao menos cinco episódios, atingindo bancas de alimentação e artesanato da Economia Solidária, uma banca de artesã autônoma e os banheiros onde um trabalhador autônomo guardava ferramentas.
Das 32 bancas fixas da praça da Bíblia, nove são ocupadas por empreendimentos da Economia Solidária, principalmente dos setores de artesanato e alimentação. As demais são utilizadas por trabalhadores autônomos e camelôs, alguns dos quais também já foram atingidos.
Nos espaços da Economia Solidária, a atividade é coletiva. Grupos de artesãos organizam rodízios para comercializar os produtos, enquanto uma das bancas reúne uma cooperativa da área de alimentação. Os empreendimentos funcionam como espaços permanentes de trabalho e geração de renda.

Prejuízo vai além das mercadorias levadas
Cada arrombamento impõe novos custos aos grupos. Segundo Cavalheiro, a substituição de uma fechadura pode custar entre R$ 800 e R$ 900. Quando há danos maiores às portas, o prejuízo pode ultrapassar R$ 1 mil, além do valor dos produtos e equipamentos furtados.
Em um dos casos registrados em julho, foram levadas mercadorias, máquina de crepe, fogão elétrico, liquidificador e outros equipamentos. Depois do episódio, integrantes do empreendimento organizaram uma rifa e receberam doações para tentar recompor o que havia sido perdido. Ainda no mesmo mês, a banca foi novamente arrombada.
“Não tem nada dentro, a não ser a vontade de trabalhar só”, resume uma das pessoas que atua no espaço e pediu para não ser identificada.
Os episódios foram registrados em boletins de ocorrência, encaminhados à reportagem junto com imagens dos danos. No fim de agosto, outra banca também foi arrombada duas vezes, segundo os relatos.
A insegurança também alterou a rotina no local. Um dos integrantes dos empreendimentos chegou a permanecer durante algumas noites dentro da banca para tentar evitar novas invasões. Mesmo após as cobranças por mais proteção, os trabalhadores afirmam que seguem sem respostas efetivas do poder público
A Prefeitura de Canoas foi procurada pelo Brasil de Fato, por meio da Secretaria Municipal de Comunicação, para responder sobre os arrombamentos, o funcionamento das câmeras de videomonitoramento, o patrulhamento da Guarda Municipal e eventuais medidas para reforçar a segurança na praça da Bíblia. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Insegurança interrompe avanços da Economia Solidária
Os ataques ocorrem em um momento em que a Economia Solidária vem ampliando organização e presença pública em Canoas. Segundo Cavalheiro, mais de mil pessoas geram renda por meio desses empreendimentos no município.
Com uma trajetória de mais de duas décadas, a Economia Solidária na cidade reúne, além dos grupos de artesanato e alimentação, cooperativas de reciclagem e hortas comunitárias. Desde o ano passado, o setor promoveu atividades de formação e seminários e ampliou o diálogo com a Câmara de Vereadores.
O Programa Paul Singer, ligado à Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em parceria com a Fundacentro, mantém agentes no município para acompanhar os empreendimentos, identificar demandas e realizar diagnósticos. Canoas também possui uma Diretoria de Economia Solidária vinculada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação.
Para Cavalheiro, os problemas de segurança passaram a comprometer esse processo. Além dos prejuízos financeiros com furtos e consertos, o agente aponta impactos sobre a saúde mental e o medo de continuar as atividades. “A segurança não era um problema e hoje se tornou o principal problema dos empreendimentos que comercializam na praça.”
Entre as questões levantadas pelos trabalhadores estão o funcionamento das câmeras públicas da praça da Bíblia, as estratégias de policiamento preventivo e o andamento das investigações para identificar os responsáveis pelos furtos.
Segundo o agente, o acompanhamento aos grupos revela um “sentimento de abandono na pauta da segurança”. A situação, avalia, também impede que os trabalhadores avancem em outras demandas relacionadas à organização e à geração de renda.
