
Em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso, firmado por Espanha e Portugal, estabeleceu uma faixa neutra para encerrar a disputa territorial na área onde hoje é o Rio Grande do Sul. Dez anos depois, para demarcar os Campos Neutrais, foram instalados 10 marcos de pedra ao longo da então Coxilha Grande, que ficava entre Bagé e Santa Maria. Agora, um projeto liderado pela UFSM visa resgatar esse período histórico e fomentar o turismo e o desenvolvimento regional.
O projeto “Recuperação da memória histórica e cultural das regiões Centro e Campanha do Rio Grande do Sul” surgiu a partir de pesquisas desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGGeo) da UFSM, durante o doutorado em Geografia do pesquisador Adenilson Farias Zanini, sob a orientação do professor Waterloo Pereira Filho. Os estudos buscaram compreender a influência dos elementos geográficos na formação territorial do Rio Grande do Sul e revelaram a relevância histórica dos Campos Neutrais e dos Marcos Ibéricos para a organização do território gaúcho durante o século XVIII.
Concluído o doutorado, Zanini deu continuidade à pesquisa em estágio de pós-doutorado junto ao Laboratório de Geotecnologias (LabGeotec), vinculado ao PPGGeo. As pesquisas documentais, cartográficas e geoespaciais relacionadas à temática foram ampliadas. O pesquisador consultou mapas históricos, diários de demarcação, documentos e registros preservados em acervos nacionais e internacionais, o que permitiu reconstruir aspectos pouco conhecidos da ocupação e da organização territorial do estado.
A importância dos Campos Neutrais motivou a elaboração do projeto em andamento, que busca recuperar e valorizar a memória histórica e cultural das regiões Centro e Campanha do Rio Grande do Sul. “A identificação, interpretação e divulgação do momento histórico relacionado com a demarcação dos Campos Neutrais e a instalação dos Marcos Ibéricos fortalece a importância de associar a relação dos elementos geográficos com a formação territorial gaúcha”, destaca.
Com o avanço das tropas portuguesas, a partir de 1801, os marcos geográficos dos Campos Neutrais foram retirados, e com o passar do tempo, este período histórico foi sendo pouco lembrado.

Réplicas dos marcos ibéricos serão instaladas
Segundo Zanini, a proposta busca aproximar a população de sua própria história por meio da criação do “Sítio dos Campos Neutrais” e da “Rota dos Marcos Ibéricos”, associando pesquisa científica, educação patrimonial, turismo cultural e desenvolvimento regional em uma área que compreende os municípios de Santa Maria, Dilermando de Aguiar, São Gabriel, Lavras do Sul, Dom Pedrito e Bagé.
Como não foram localizados vestígios dos marcos instalados pelas comissões demarcadoras ibéricas em 1787, as pesquisas documentais permitiram identificar a localização aproximada. Nestes pontos, serão instaladas 10 réplicas dos marcos históricos, acompanhadas de sinalização física e digital, incluindo informações históricas acessíveis aos visitantes.
As próximas fases envolvem trabalhos de campo para validação dos locais, detalhamento técnico das instalações, ampliação das pesquisas documentais e articulação com os municípios para a implantação gradual da rota histórica e das estruturas de visitação.
Além da recuperação histórica, o projeto pretende disponibilizar novos conhecimentos para escolas, pesquisadores e gestores públicos, fortalecendo a identidade regional e ampliando a valorização do patrimônio cultural gaúcho.
O projeto de pesquisa e extensão conta com recurso oriundo de emenda parlamentar do Senado Federal, sob a rubrica do senador Hamilton Mourão. O montante é destinado à estruturação do projeto de pesquisa e extensão e ao desenvolvimento das ações de recuperação da memória histórica e cultural do Rio Grande do Sul. A Fundação de Apoio a Tecnologia e Ciência (Fatec) é responsável pelo gerenciamento e execução dos recursos do projeto. O prazo de execução estabelecido é, inicialmente, de dois anos, prorrogáveis pelo mesmo período, de acordo com a necessidade das partes envolvidas.
Projeto foi apresentado e discutido em fórum regional
O projeto “Recuperação da memória histórica e cultural das regiões Centro e Campanha do Rio Grande do Sul” foi apresentado e discutido durante fórum regional realizado no dia 19 de junho, no prédio da Reitoria da UFSM. Conforme Zanini, o diálogo entre Universidade, gestores públicos, pesquisadores e representantes da sociedade civil dos municípios envolvidos resultou no fortalecimento da articulação institucional necessária para a continuidade das ações previstas, consolidando o interesse regional em torno da recuperação da memória histórica dos Campos Neutrais e da implantação futura da Rota dos Marcos Ibéricos.
O encontro também permitiu ampliar a divulgação do projeto, sensibilizar gestores e lideranças locais quanto à importância do patrimônio histórico regional e reforçar a necessidade de atuação integrada entre os municípios para viabilizar ações de preservação cultural, educação patrimonial e desenvolvimento turístico.
Patrimônio transformado em ativo cultural e econômico
Para os municípios envolvidos, a iniciativa liderada pela UFSM representa uma oportunidade de valorizar um patrimônio histórico singular, fortalecer a identidade regional e criar novas possibilidades de desenvolvimento econômico por meio do turismo cultural. A proposta busca estruturar uma rede regional baseada na preservação da memória, na educação patrimonial e na circulação de visitantes, promovendo benefícios para setores como hospedagem, gastronomia, comércio, turismo rural e serviços.
“Mais do que recuperar fatos históricos, o projeto busca transformar esse patrimônio em um ativo cultural e econômico, capaz de contribuir para o desenvolvimento sustentável das regiões Centro e Campanha do Rio Grande do Sul”, enfatiza o pesquisador.
Já para a UFSM, trata-se de mais uma oportunidade de transformar conhecimento científico em benefício direto para a sociedade, reforçando seu papel como instituição pública comprometida com a pesquisa, a extensão universitária e o desenvolvimento regional.
A iniciativa fortalece também a atuação do LAbGeotec e do PPGGeo como referências na produção de conhecimento sobre o território gaúcho, demonstrando a capacidade da universidade de gerar impactos que ultrapassam os limites acadêmicos. “O LabGeotec desempenha papel central na execução do projeto, integrando técnicas de geoprocessamento, cartografia histórica, georreferenciamento e análise espacial para identificação dos locais históricos e desenvolvimento das ações previstas. Já o PPGGeo fornece a base acadêmica e científica que sustenta o projeto, fortalecendo a integração entre pesquisa, ensino e extensão universitária e ampliando a inserção social do conhecimento produzido pela UFSM”, salienta Zanini.
Texto: Ricardo Bonfanti, jornalista da Agência de Notícias
Artes: Adenilson Zanini e Rafael Zini Ouriques