Como a filha de um ex-ditador se elegeu presidente no Peru — Insubornavel

Como a filha de um ex-ditador se elegeu presidente no Peru

Por BdF Entrevista01/07/2026 às 00:251 visualizações

A extrema direita avança na América Latina. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, foi eleita presidenta. Mas, afinal, como a herdeira de um notório violador de direitos humanos chegou ao poder no país?

No BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o analista internacional Hugo Albuquerque explica que Alberto Fujimori foi muito popular no país, conseguindo se eleger democraticamente em 1990, em um contexto de forte crise social, com inflação alta e violência promovida por guerrilhas após anos de ditaduras militares.

“É importante dizer que a ditadura militar peruana teve um caráter diferente da brasileira. No seu início, pelo menos, ela tinha um caráter nacionalista, inclusive tendo o apoio do bloco soviético, com Velasco Alvarado”, explica Albuquerque. “Velasco Alvarado conduziu um projeto que lembrava muito mais o de Getúlio do que o dos nossos ditadores aqui.”

Golpes dentro de golpes, no entanto, levaram o regime militar peruano a se alinhar aos Estados Unidos. “Então, quando a democracia volta ao Peru, tem muitas questões que precisam ser resolvidas. Inclusive, havia uma grande mágoa das esquerdas em relação a Cuba e à União Soviética pelo apoio a Velasco Alvarado, o que radicalizou alguns setores de jovens para a ultra-esquerda e para a luta guerrilheira em plena década de 1980”, diz o especialista.

Albuquerque explica que, curiosamente, o principal oponente de Fujimori na época de sua ascensão, em 1990, era o Nobel de literatura Mario Vargas Llosa, considerado então mais radical e neoliberal. No segundo turno, Fujimori chegou a angariar apoios em partidos de esquerda. Uma vez empossado, entretanto, adotou uma severa terapia de choque econômica e implementou uma política de forte repressão estatal.

“Veio com uma agenda de repressão brutal para acabar com a dissidência política dentro do Peru e contra a criminalidade. E, no meio desse choque, ele acabou se tornando uma figura extremamente popular”, explica o especialista.

“Ele foi reeleito por uma margem razoável, mas, pouco a pouco, Fujimori foi ampliando seus poderes, dando pequenos golpes dentro do golpe. Ele, nesse sentido, lembra mais o governo do Bolsonaro do que os regimes militares aqui, porque foi ampliando o poder dele dentro de uma institucionalidade, até que ele frauda a terceira reeleição”, conta Albuquerque.

Além da extrema violência e corrupção, o período fujimorista deixou como herança uma institucionalidade frágil, um enfraquecimento do poder presidencial e muitos poderes aos órgãos de fiscalização, como o Ministério Público e até mesmo o Congresso, que passou a conseguir destituir presidentes com bastante facilidade.

Como consequência, nos últimos dez anos, apenas o ex-presidente Ollanta Humala conseguiu terminar seu mandato de cinco anos, ainda que seu governo tenha ficado paralisado. Albuquerque explica que, quando Pedro Paulo Kuczynski venceu em 2016, a ausência de maioria no Congresso permitiu que o fujimorismo, junto com as outras direitas, trabalhasse para tornar o governo instável.

A eleição de Keiko Fujimori ocorre, assim, em um contexto de grande fragilidade institucional. Nos últimos cinco anos, desde 2021, o Peru teve outros quatro governantes diferentes: Pedro Castillo, Dina Boluarte, José Jerí e José María Balcázar.

Em 2026, Albuquerque avalia que pesou ainda a interferência dos Estados Unidos nas eleições. “O Trump foi decisivo para que as outras direitas radicais, que acabam se alinhando ao fujimorismo no segundo turno, se mantivessem nessa posição e houvesse um rechaço ao candidato da esquerda.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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