De posse de todo o material da Operação Spoofing, vazado por uma fonte anônima, nossas repórteres seguem buscando pistas sobre a origem da Lava-Jato e chegam a figuras que fazem parte do nosso folclore político: os doleiros. Natalia e Alice percorrem Brasília em busca de um deles, enquanto Amanda vai ao Paraná em busca de um ex-delegado da Polícia Federal. Ao final, uma surpresa: uma fonte relevante decide falar.
Ouça agora o episódio 2!
Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra
EPISÓDIO 02: A ORIGEM
[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
Este Original Audible é baseado em eventos reais de conhecimento público, documentados em livros publicados, autos de processos judiciais, matérias e apurações jornalísticas, entrevistas e pesquisas em documentos públicos. As narrativas podem conter referências a terceiros. Os depoimentos e opiniões são de responsabilidade dos participantes ou especialistas e podem refletir diferentes perspectivas dos eventos.
[material de arquivo]
Áudio celular Deltan Dallagnol: O presidente já se trocou e está assinando o mandado de condução coercitiva e mandado de busca, recebendo a sua via e está aguardando a posição do advogado dele, já ciente de que nós vamos conduzi-lo.
[Natália Viana]
Essa é a primeira vez que você está ouvindo este áudio, aliás, é a primeira vez que essa mensagem é trazida a público. Quem fala é um dos policiais federais que chegou à casa do ex e futuro presidente Lula para levá-lo para depor em condução coercitiva sobre aquela acusação do triplex do Guarujá, você lembra?
Isso foi em 2016. O áudio é um dos registros confidenciais que obtivemos para tentar descobrir como foi o início da Operação Lava Jato. Ele faz parte de um conjunto de arquivos de 4 terabytes hackeado do celular do procurador Deltan Dallagnol, o destinatário desta mensagem. O conjunto de arquivos chegou a nós por uma fonte que entregou todo o material da Operação Spoofing da PF, aquela que investigou o hackeamento. Agora eu tenho a chance de encontrar os áudios que podem revelar uma versão diferente da oficial sobre o início da Lava Jato.
Trilha sonora
[Natália Viana]
Pelas mensagens vazadas já sabemos que a Lava Jato surgiu através de uma informação de inteligência, ou intel, ou ainda intelig, ou seja, a maior operação anticorrupção do país começou a partir de uma dica que pode ter partido de um serviço de inteligência brasileiro ou estrangeiro. Se for isso mesmo, ela poderia ter sido “plantada”, por exemplo, pelos EUA, para atingir algum objetivo. Mas qual é o problema disso? Como disse o ex-ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, no primeiro episódio, é uma questão de soberania nacional, afinal, investigar corrupção em uma empresa estratégica como a Petrobras pode causar instabilidade política num país.
Sem saber até que ponto houve influência estrangeira, jamais vamos descobrir se a Lava Jato foi fruto de uma grande conspiração internacional, por isso, seguimos investigando. Um povo que não conhece sua história tende a repetir os mesmos erros.
Eu sou Natalia Viana, jornalista e apresentadora da série “Confidencial: digitais do FBI na Lava Jato”. Com a ajuda das jornalistas Alice Maciel e Amanda Audi, vou tentar descobrir a história não oficial da Lava Jato. Mas para conseguir essa resposta, primeiro preciso mergulhar nos áudios do celular hackeado do procurador chefe da Lava Jato.
Episódio 02: A Origem
[material de arquivo]
Áudio celular Deltan Dallagnol: Saindo do apartamento do ex-presidente em direção ao aeroporto de Congonhas, para a realização da audiência na delegacia de Congonhas.
[Natália Viana]
Isso que você acabou de escutar é um dentre as dezenas de áudios que Alice conseguiu de uma fonte em off no finalzinho do episódio anterior. Aqui, o mesmo policial não identificado continua, em voz sussurrante, repassando cada detalhe da operação ao então procurador chefe da Lava Jato.
Às vezes, o áudio é só um trechinho do GPS que, não por acaso, indica uma virada à direita.
[material de arquivo]
Áudio celular Deltan Dallagnol: som de GPS, indicando “vire à direita”.
[Natália Viana]
Mas em meio a vários áudios aleatórios, também apareceram algumas mensagens mais interessantes.
[material de arquivo]
Áudio celular Deltan Dallagnol: Chegou o pedido de cooperação suíço, galera, agora é verdade, é real, está na mão. Paulete, acessa meu e-mail, baixa aí, é pra tá tudo, sensacional, valeu.
[Natália Viana]
Neste áudio, Deltan Dallagnol comemora num clima animado a chegada do pedido de cooperação internacional da Suíça, o primeiro acordo de cooperação, que foi recebido em 2015 e requeria identificação de responsáveis das empresas, tomada de depoimento e compartilhamento de documentos.
Pelo tom, dá pra ver que a cooperação internacional era importante para os procuradores.
Fiquei um bom tempo mergulhada nesses arquivos e apesar de ter encontrado áudios muito interessantes, não achei a tal explicação. Mas existe um santo que protege os jornalistas investigativos: o Santo Imponderável da Silva.
Olhando outros arquivos compartilhados pelo Telegram, encontrei uma pista valiosa. Era uma apresentação de PowerPoint em inglês que o procurador fez especialmente para uma aula que daria na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, em abril de 2016. Compartilhei imediatamente a descoberta com minhas parceiras de investigação, Amanda e Alice.
Efeito sonoro: notificação de mensagem
[Áudios]
[Natália Viana] O PowerPoint se chama The Car Wash Case, o caso da Operação Lava Jato, né? Foi apresentado em Harvard. E nesse PowerPoint, primeiro, tem um slide, eu vou mandar para vocês aqui. Tem um slide que mostra que o começo de tudo foi realmente os doleiros. Então, eles mostram num desenho, Youssef, Chater e a Kondo, e também tem outro que chama Raul, como a verdadeira, a raiz mesmo dos primeiros passos aí da operação. E tem uma outra coisa que me chamou a atenção, que como a apresentação é em inglês, ele chama os doleiros de hawala dealers (…)
[Natália Viana]
Parei na hora que li a expressão: hawala? Fiquei curiosa, a palavra tem obviamente um som árabe, mas o que significa? De fato, “hawala” é uma palavra de origem árabe e também hindi, que significa tanto “transferência” quanto “confiança”. E ela é usada há milênios para descrever um dos modos mais antigos de transferir dinheiro entre negociantes e comunidades árabes no exterior. Um membro reconhecido e de confiança da comunidade recebe em um lado do mundo e, do outro lado, um sócio dele entrega o mesmo valor em dinheiro. A comunidade muçulmana usa esse serviço há milênios, sem cobrar juros, que é proibido pelo Alcorão. Então, esses operadores jogam com o câmbio. Por exemplo, um recebe aqui no Brasil e outro entrega lá nos Estados Unidos. Tudo isso, na base da confiança. Agora, essa descrição te lembra alguma coisa?
[Áudio material de arquivo]
Em junho de 2013, a Polícia Federal grampeou com autorização da Justiça o doleiro Carlos Habib Chater. A partir dele, chegou a outro doleiro, Alberto Youssef, e ao maior esquema de corrupção do país.
[Natália Viana]
Pois é, a figura dos doleiros, que faz parte do nosso folclore político, tem origem neste modo tradicional de transferência de recursos. O doleiro nada mais é que um operador de câmbio paralelo, que não tem autorização para exercer essa atividade e mesmo assim negocia moedas estrangeiras por fora do sistema oficial. E os doleiros já serviram a muita gente. Por exemplo, antes do Plano Real, no auge da inflação dos anos 80 e 90, era comum as pessoas investirem na compra de dólar. Tão normal que os próprios jornais divulgavam o valor do dólar paralelo.
Agora, o trabalho dos doleiros também sempre foi usado por quem consegue dinheiro de maneira ilícita e quer esconder a origem ou transferir para o exterior sem deixar rastro. E aí se confundem, criminosos, comerciantes informais, todo tipo de operador. Eu nunca imaginei que houvesse uma relação histórica entre os doleiros e a comunidade árabe. Mas, espera aí.
[Entrevista Bob Fernandes]
Bob: Quando teve o 11 de setembro, por escrito o FBI pediu que ele, aspas, monitorasse sheiks árabes, mesquitas e líderes árabes no Brasil, tal tal tal.
[Natália Viana]
Você se lembra desse trecho da entrevista com o jornalista Bob Fernandes no episódio anterior? Ele nos contou como o ex-chefe do FBI no Brasil, Carlos Costa, teria recebido ordens de monitorar a comunidade árabe no Brasil, depois dos atentados terroristas de 11 de setembro.
Com essas novas peças na investigação, eu fiz o que sempre faço quando aparece alguma informação nova sobre interesses americanos: fui buscar nos arquivos do WikiLeaks se a embaixada falava algo sobre hawala, e se haveria alguma relação com a comunidade árabe no Brasil.
O Wikileaks é um site fundado pelo australiano Julian Assange que se especializou em publicar documentos secretos, frutos de vazamentos. E até hoje, ele tem uma enorme biblioteca de despachos das embaixadas americanas pelo mundo. E adivinha?
Um despacho diplomático da embaixada em Assunção, capital do Paraguai, comprova que os americanos estavam de olho e incomodados com a ação dos hawala na América do Sul, em especial na Tríplice Fronteira. O documento confidencial é de agosto de 2007, quase sete anos antes do começo da Lava Jato.
Ele descreve uma reunião de alto nível com 40 membros do governo americano, incluindo procuradores que já tinham investigado corrupção no Brasil, agentes do FBI e da DEA, além de militares. Segundo eles, “um sistema de hawala modificado é comumente usado na Tríplice Fronteira para lavar dinheiro.” O embaixador americano no Paraguai repassou à chefia do Departamento de Estado a seguinte mensagem:
“A Embaixada em Assunção acredita que a clara maioria da população adulta trabalhadora da comunidade libanesa (de um total de 40.000 pessoas) na Tríplice Fronteira pode estar envolvida em atividades ilícitas. O Hezbollah tem uma pequena presença direta e não operacional na região, mas a maioria dos libaneses na Tríplice Fronteira são simpatizantes do Hezbollah, se não apoiadores financeiros.”
Hezbollah é um partido político que tem um braço militar, baseado no Líbano, classificado como organização terrorista pelos EUA – mas não pelo Brasil. É conhecido pelo longo conflito com Israel e por ter vínculos com o Irã. E aqui é importante destacar que a visão de que a maioria dos libaneses na Tríplice Fronteira estavam envolvidos em atividades ilícitas ou que eram simpatizantes do Hezbollah foi uma interpretação da diplomacia americana e não minha.
Mas o que isso tem a ver com a nossa investigação? Com os atentados de 11 de setembro, o combate ao terrorismo virou um foco obssessivo dos americanos, e o FBI passou a investigar a lavagem de dinheiro que poderia financiar atividades terroristas pelo mundo. A Tríplice Fronteira se tornou um foco de atenção. Agora: quem eram os doleiros que estavam ali no início da Lava Jato?
O mais famoso, claro, Alberto Youssef – o nome árabe agora soa mais pronunciado, né? O número um, Chater, na verdade Carlos Habib Chater. Habib também é uma palavra árabe, para quem não sabe, significa “amado, querido”. Cavucando, foram aparecendo outros doleiros lá no comecinho da Lava Jato, nomes como Sleiman Nassim El Kobrossy e Fayed Traboulsi. Mas como a Lava Jato chegou aos doleiros?
Fomos primeiro atrás da história oficial. Tudo teria começado com um grampo telefônico:
[Áudio material de arquivo]
Em junho de 2013, a Polícia Federal grampeou com autorização da Justiça o doleiro Carlos Habib Chater. A partir dele, chegou a outro doleiro, Alberto Youssef, e ao maior esquema de corrupção do país.
[Natália Viana]
A primeira fase da Operação Lava Jato não teve tanto destaque na mídia, mas estava longe de ser pequena: ocorreu no dia 17 de março de 2014, em 17 cidades no Paraná, São Paulo, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Mato Grosso.
A PF cumpriu 81 mandados de busca e apreensão e 28 mandados de prisão. Apesar de o marco oficial ser março de 2014, a Lava Jato começou um ano antes, em sua fase sigilosa. E é essa etapa que mais nos interessa, porque está diretamente relacionada ao início de tudo.
Já sabemos que a Lava Jato começou com uma informação intelig, mas que também envolvia um inquérito sobre o então deputado José Janene, arquivado em 2008 lá em Curitiba. José Janene faleceu em 2010, mas vamos lembrar quem ele era. Deputado federal pelo PP do Paraná, ele é tido como o grande articulador da corrupção da Petrobras, fazendo com que as cúpulas dos partidos envolvidos fossem beneficiadas diretamente com recursos públicos.
Ele também é famoso por ter sido um dos pivôs do escândalo do mensalão, que em 2005 e 2006 abalou o primeiro governo Lula. Agora, uma coisa que você não sabe sobre José Janene, é o nome completo dele: José Mohamed Janene.
Janene foi o único deputado muçulmano na história do Brasil. E ele, assim como Alberto Youssef, era natural do Paraná e filho de libaneses imigrantes. Com tantas afinidades, os dois se tornaram parceiros de negócios, criando uma lucrativa rede de lavagem de dinheiro fruto da corrupção, segundo o Ministério Público Federal.
Durante a fase sigilosa da Lava Jato, a Polícia Federal identificou quatro organizações criminosas que se relacionavam entre si, todas lideradas por doleiros. A primeira era chefiada por Chater, cuja investigação tinha o nome, justamente, Lava Jato. A segunda por Nelma Kodama, foi chamada “Operação Dolce Vita”, nome de um filme do cineasta italiano Federico Fellini. A terceira por Alberto Youssef, nomeada “Operação Bidone” a partir de outro filme de Fellini.
Foi através do monitoramento de Youssef que a PF chegou até o esquema da Petrobras. Para entender o comecinho, resolvemos ir atrás das figuras que estavam lá na origem da Lava Jato, os hawala… Sim. Os doleiros.
[Áudios]
Amanda Audi: Mas o do Chater, eu fui atrás porque ele entrou recentemente com uma ação para ter acesso aos documentos lá da Spoofing. Aí mandei mensagem, liguei, mandei e-mail e o cara nunca respondeu, assim. Então… Isso aí tá um pouco difícil, assim. Vou dar um tempo e tentar de novo. Sei lá, mais pro fim da semana. Acho que ele tá solto. Não sei. Terei que ver isso aí.
[Natália Viana]
Carlos Habib Chater é um personagem chave para entender essa história. Na verdade, como eu já contei, a Operação Lava Jato era sobre ele.
Libanês, Chater chegou ao Brasil com sua família ainda menino, aos seis anos de idade. Depois de mudar-se para Brasília, quando a capital federal tinha menos de uma década, a família montou seu primeiro restaurante que vendia quentinhas no almoço. Chater trabalhou neste restaurante desde os 8 anos. Já nos anos 80, os negócios da família mudaram de rumo, de restaurantes para o câmbio informal de dólares.
Com a deflagração da Lava Jato, o Posto da Torre, em Brasília, de propriedade de Carlos Habib Chater, foi parar nos noticiários. Um ano depois, uma matéria da Veja local trazia Chater na capa com o título: “O xeique da Torre”
Agora sou eu quem vou a Brasília para, junto com Alice Maciel, conferir se essa torre ainda está de pé.
[Áudios aerporto]
Última chamada, para embarque imediato no portão oito.
[Áudios trajetos]
Natalia: Cadê o Posto da Torre? Técnico: Bem aqui, do lado. Alice: Aqui é o Setor Hoteleiro Sul. Do lado do shopping, os hotéis onde ficam muitos políticos… Natália: Um posto Ipiranga, o Posto da Torre é do lado da Torre. Óbvio. (Moto buzina) Eita.
[Natália Viana]
A Torre que inspirou o nome do posto é um ponto turístico de Brasília, uma torre de TV imponente de 230 metros. Do posto é possível avistar a estrutura cinzenta, cheguei ali acompanhada por Alice e pelo técnico de áudio que nos deu uma carona. Ele contou uma coisa importante: o Posto da Torre era muito conhecido em Brasília, porque dava um descontão a quem pagasse em dinheiro. Para conseguir uma barganha vários motoristas faziam filas que chegavam a dobrar o quarteirão. Pausa aqui. Isso é uma operação muitas vezes relacionada à lavagem de dinheiro; na hora de fazer a contabilidade, o dinheiro “sujo” se mistura ao dos motoristas, e pronto, tudo parece 100% legal. Depois disso, no auge da Lava Jato, o lugar também virou praticamente um ponto turístico.
[Conversas no posto de gasolina] Natália: Não tem lava-jato? Técnico: Será que não tinha ali, entrando ali? Natália: Tá escrito…Tinha uma lavanderia. (Risadas). Pergunta pra ele. Não tem um lava-jato aqui? É uma lavanderia. Moço, aqui não é o posto da Lava Jato?
[Natália Viana]
O frentista explicou que o Posto virou Ipiranga e que mudou de dono. Ironicamente, ali não tem e nunca teve um lava-jato. Mas tem uma lavanderia de roupas que ainda funciona no local, acima dela ficava a ValoTur, casa de câmbio de Chater, que fazia operações ilícitas. Além disso, o posto abriga um restaurante árabe que há vinte anos serve um dos mais famosos kebabs de Brasília.
[Conversas dentro do Uber]
Natália: Para aqui para a gente ir, acho que ali tem vaga, para a gente ver o kebab, ver se ainda é do mesmo dono.
[Natália Viana]
E vejam só, foi fundado pela família Chater. Depois disso, resolvemos ir atrás dos endereços registrados no nome de Carlos Habib Chater, na esperança de conseguir encontrá-lo. O nosso plano é usar o último dos recursos jornalísticos, literalmente bater na porta do provável endereço de Chater e tentar uma entrevista.
[Conversas no prédio]
Alice: Bloco A é lá, não é? A gente quer falar com o Carlos Chater [conversas inaudíveis] Alice: Não mora mais? Então tá. Natália: Mas você sabe quem é? Mudou-se daqui.
[Natália Viana]
Não foi dessa vez. O Chater não mora mais aqui. Mas o porteiro parecia saber muito bem de quem se tratava. Dali seguimos para o segundo endereço. Mas não foi assim tão fácil.
[Sons de passos em uma rua movimentada]
[Natália Viana]
Entramos no condomínio a pé mesmo, sob o sol escaldante do centro-oeste e quase nenhuma árvore para dar um socorro.
[Conversas no prédio]
Natália: Ali está escrito lote… Alice: Aqui no meu está lote 3. Natália: Mas o que significa trecho 10-2? Será que isso é chácara 2? Alice: Aí, só Jesus na causa. Natália: A gente está procurando um morador daqui, que chama Carlos Habib
[Natália Viana]
O morador perguntou desconfiado se a gente não tinha o endereço. A gente até tinha, mas simplesmente não batia.
[Conversas no prédio]
Natália: Então, o endereço é aqui, lote 3. Porque nessa casa amarela ali tá escrito 03. Natalia: Mas você não conhece Carlos Habib? E o pessoal da casa amarela você conhece?
[Natália Viana]
Mais uma vez a resposta é negativa. Como boa jornalista investigativa, enquanto eu conversava com o morador, Alice fotografou a placa do carro. Checamos e parece que ele mora na casa cujo endereço era supostamente de Chater. Uma coisa é certa: vindo de uma família tão próspera – mesmo depois das condenações da Lava Jato –, com certeza aquele condomínio perdido no meio de terrenos baldios não era a casa do doleiro. Fim do tour e nada de Chater.
Em março de 2014, no mesmo dia em que Chater era conduzido à delegacia de Brasília bem longe dali, em um hotel de luxo em São Luís, capital do Maranhão, outro doleiro de codinome “Primo” também foi preso. “Primo” era ninguém menos que Alberto Youssef. Chater e Youssef, além de parceiros de negócios, eram amigos. Como já ouvimos, os dois têm origem libanesa e se ajudavam sempre que necessário.
[conversas entre as jornalistas]
Amanda: No começo da Lava Jato, eu fiz uma investigação sobre o Youssef, esse doleiro aí. Natália: Ah, que bom! Amanda: e fui para Londrina, que é a cidade onde ele morava lá na época. E eu lembro que eu conversei com algumas pessoas que conheciam eles. E até tinha umas histórias engraçadas, tipo que o Youssef tinha um escritório num prédio comercial lá, que eu fui visitar. E quem trabalhava embaixo dele, disse que já aconteceu de ver chuva de dólar caindo pela janela. Natália: Jura? Amanda: Porque chegava uma batida policial, alguma coisa assim. E ele só jogava por ali. Ele também pulava e se escafedia, assim. Era uma coisa que todo mundo sabia. Ele foi preso várias e várias vezes. Ele sempre volta a operar com o câmbio.
[Natália Viana]
Alberto Youssef nasceu em Londrina, no Paraná, e também era filho de libaneses que imigraram para o Brasil. Assim como Chater, ele começou a trabalhar cedo, aos nove anos já precisava se virar, vendendo pastel na rua. Depois, aprendeu a viver justamente dos negócios ilícitos da Tríplice Fronteira, foi sacoleiro – levava muambas compradas no Paraguai para vender no Brasil e nos anos 80, contrabandeava uísque e outros produtos junto com a irmã. Foi nos anos 90, que, segundo diversas investigações, ele passou a operar na lavagem de dinheiro, repassando recursos que abasteceram o caixa 2 das campanhas de políticos importantes do Paraná, e nisso a aliança dele com José Mohamed Janene foi fundamental.
Hoje Youssef leva uma vida longe dos holofotes e, apesar da nossa insistência, preferiu não dar nenhuma entrevista. Mas tem ainda outra doleira lá do começo da Lava Jato, que tem falado e aparecido bastante, Nelma Kodama. Ela não é de origem árabe, e sim japonesa, mas teve um relacionamento amoroso com Alberto Youssef.
[Áudios de arquivo]
CPI da Petrobrás
Parlamentar: A senhora foi amante do Alberto Youssef? Nelma: Depende do que o senhor entende do ponto de vista de amante. Parlamentar: A senhora escreveu Nelma: Mas depende… sob meu ponto de vista. Parlamentar: A senhora escreveu, só estou lendo o que a senhora escreveu. Nelma: Então eu posso explicar? Parlamentar: Pode. Nelma: Obrigada. Eu vivi maritalmente com Alberto Youssef, do ano de 2000 a 2009, porque amante é uma palavra que engloba tudo, né? Amante é esposa, amante é amiga. Parlamentar: Eu não estou fazendo nenhum julgamento, só estou lendo o que a senhora escreveu. Nelma: E eu estou respondendo, posso continuar? Tem até uma música do Roberto Carlos “Amada amante, amada amante…” (parlamentares cantam juntos) Nelma: Não é verdade? Então quer coisa mais bonita do que ser amante?
[Natália Viana]
No celular de Habib Chater seu codinome era Greta Garbo; no email, era Cameron Diaz. Este depoimento que você ouviu ela deu na CPI da Petrobras, em 2015. No vídeo ela, que estava presa, aparece de cabelo raspado, mas carismática como só ela. Nelma se diz hoje ex-doleira e foi com esse carisma que conseguiu capitalizar em cima dos altos e baixos de sua biografia. Fez até uma série documental na Netflix. A Amanda ficou responsável por convencer a celebridade a falar com a gente.
[conversas entre as jornalistas]
Amanda: Cara, ela foi extremamente aberta. Isso me surpreendeu desde o começo, assim. Que respondia super querida. Inclusive, ela me botou num grupo que eu recebo mensagem todo dia, o dia inteiro. Aqui, ó. Amigos de Nelma Kodama. o símbolo é um scarpin, um sapato de salto vermelho. Ela botou um monte de gente ali, os amigos dela, enfim. Natália:Ela manda mensagens nesse grupo? Amanda: Às vezes ela responde algumas coisas, nada demais. Tipo, ela responde alguém, algum amigo dela, manda bom dia, boa tarde. Natália: Manda memes de bom dia? Amanda: Às vezes manda uma figurinha, assim. (Risos)
Amanda: Ela é extremamente simpática. Dá pra entender como que ela passava tanta confiança pras pessoas, porque, assim, ela tinha que fazer essas operações de dólar, que era uma coisa muito, assim, eu preciso confiar nela, porque ela é a garantia, ela era o banco, né?
[Natália Viana]
E aqui é importante reforçar que apesar de a transação conhecida por “hawala” ser historicamente usada pela comunidade árabe, essa atividade é exercida pelas mais variadas pessoas, funcionando sempre com base na confiança
[conversas entre as jornalistas]
Amanda: Então dá para entender que ela tem um carisma, assim, um calor de lidar com as pessoas que é diferente mesmo, de fato. Sempre muito aberta, muito querida, me deixou até segura de que ia rolar essa entrevista. Tudo mudou quando o advogado dela entrou na jogada.
[Natália Viana]
Realmente, estava fácil demais para ser verdade…
[conversas entre as jornalistas] Amanda: Então, ela me botou em contato com o advogado dela, que foi falar comigo naquele dia mesmo. E daí ele perguntou: Quanto que a gente estaria disposta a pagar para dar essa entrevista. E eu falei que a gente não ia pagar nada, a gente não pagou ninguém até agora, não é do nosso costume fazer isso. Que no jornalismo, a gente não paga ninguém para dar entrevista. Informação de interesse público não pode ser paga. Não deveria ser paga, pelo menos.
[Natália Viana]
Bom, a Nelma pode até cobrar para dar entrevistas, mas é claro que a gente não ia pagar, pois não seria nada ético.
Mas o bom e velho jornalismo sempre ensina. Você já deve ter ouvido falar de “o outro lado” né? Significa que temos sempre o compromisso ético de ouvir os dois lados de uma questão. Claro, nem toda questão tem apenas dois lados. Aqui mesmo, nesta investigação buscamos ouvir muitos ângulos diferentes para tentar descobrir se os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato ou se isso é só uma teoria da conspiração.
No entanto, tem uma situação em que tem, sim, dois lados. Num inquérito policial. Há quem investiga, e quem é investigado. E por isso, uma vez recebendo porta na cara dos doleiros – os investigados – a solução foi buscar o outro lado – aqueles que investigaram os doleiros: a Polícia Federal. Talvez ouvindo o lado deles a gente consiga finalmente entender de onde veio a tal informação intelig que ajudou a dar início à Lava Jato.
[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
[conversas entre as jornalistas]
Amanda: Mas só uma dúvida. Quando eles falam intelig, não tem possibilidade de ser brasileiro. Deve ser brasileiro. Não é uma coisa da Abin e tal. Natalia: Mas eu acho que aí a gente tem um problema. Como é que a gente entende o que Deltan quer dizer falando intelig? Tem três pessoas que conhecem essa história. Uma é Erika Marena. A gente precisa tentar falar com ela. Acho difícil. O outro é o próprio Deltan. O Deltan acho que vai ser mais difícil ainda. E o outro? É o outro delegado que estava investigando o Chater, que se chama Márcio Anselmo.
[Natália Viana]
Márcio Anselmo foi o primeiro delegado da Lava Jato em Curitiba, desde a fase secreta, em 2013. le deixou a força-tarefa em 2017, alegando exaustão física e mental. Por coincidência, Márcio e eu publicamos livros pela mesma editora, então tentei entrar em contato, mas no último e-mail não recebi mais resposta dele. Também fomos atrás de outra delegada, aquela que deu nome para a operação e de quem já falamos muito por aqui, a Erika Marena.
[conversas entre as jornalistas]
Alice: A Erika, eu tentei, mandei mensagem para ela, ela respondeu, mas disse que não pode falar, enfim, se recusou a falar, ela respondeu muito educadamente, inclusive.
[Natália Viana]
No entanto, mesmo os calados falam. É que Erika Marena já deu várias entrevistas -e, no livro do jornalista Vladimir Netto, Lava Jato: O juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, ela disse que a origem da Lava Jato vem de outro inquérito da PF: a Operação Miquéias, que investigava desvios em fundos de pensão municipais na PF lá de Brasília.
Já Márcio Anselmo falou a partir dos seus relatórios na época das investigações. Consegui acesso a um desses documentos feito a partir das escutas do celular BlackBerry de Habib Chater. Nele a “confusa história” da origem da Lava Jato fica ainda mais complicada. O que se vê ali é que as escutas deixam claro como funciona no dia a dia o trabalho de um doleiro, de um hawala.
No diálogo que você vai escutar na sequência, Chater conversa por mensagem com Sleiman Nassim El Kobrossy, um libanês que também estava envolvido em lavagem de dinheiro, e coisas ainda mais pesadas.
Aqui você vai ouvir a leitura dessa troca de mensagens pelos atores Aury Porto e Dênis Goyos.
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[reprodução da troca de mensagens]
Fala de Chater: Não vai dar não. Ele quer pagar no comercial. Fala de Sleiman: Manda ele tomar no cú. Fala de Chater: Ele está vindo pra cá. Fala de Sleiman: Eu acho que a japa tem. Fala de Chater: Ele pensou que fosse euro. No euro ele paga comercial. Eu disse que era verde. Ele está vindo pra cá Fala de Sleiman: Ok. Fala de Sleiman: Vê e me fala. Fala de Chater: Ok. Fala de Sleiman: Liga pro Ibrahim e pergunta quantos mil ele quer. Porque ele tinha me falado vai querer
[Natália Viana]
A leitura de um grampo telefônico é uma tarefa similar ao nosso trabalho nos documentos da Vaza Jato: é como organizar um quebra-cabeça. Assim, ao mesmo tempo em que os policiais de Curitiba monitoravam Chater e Youssef, buscando pistas que levariam a casos de corrupção, outras duas investigações corriam em paralelo.
A primeira investigação tratava de tráfico de drogas e a relação entre traficantes bolivianos, brasileiros e italianos da máfia ‘Ndrangheta, que haviam aberto uma nova rota de tráfico pelo interior do Brasil. Em 21 de novembro de 2013, uma carga de 700 quilos de cocaína foi apreendida em Araraquara, e a prisão de vários integrantes, incluindo Sleiman, foi decretada. Ele fugiu do país e segue foragido até hoje.
Através das escutas a Polícia Federal de Curitiba acompanhou troca de mensagens entre os traficantes, Habib Chater e também Youssef. Mas as escutas revelam ainda outra operação que se entrelaçava: justamente, a Operação Miquéias.
Deflagrada em setembro de 2013, a operação prendeu outro doleiro, Fayed Antoine Traboulsi, também libanês, nascido em Beirute, mas naturalizado brasileiro, conhecido como “o Turco”. Ele teria comandado um esquema de fraudes em fundos de pensão municipais, além de também ser amigo e parceiro de Chater na lavagem de dinheiro em Brasília. Foi justamente depois da deflagração da Operação Miqueias que Chater ligou para Youssef, e disse a frase que ilustra o relatório da PF.
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[reprodução da troca de mensagens]
Chater: Eu não sei como não entrei, mas eu tô achando que tem outra andando, entendeu? Porque não tem lógica, porque eu fiz muita operação! Eu tô achando que alguma outra paralela, entendeu? Aí quem não é visto, não é lembrado, eu tô meio afastadinho.
[Natália Viana]
Enquanto tudo isso estava acontecendo, a Lava Jato seguia na sua fase sigilosa. Bom, então tem todas essas operações, incluindo outros doleiros de origem libanesa e uma rede internacional de tráfico de drogas emaranhados ali no começo da Lava Jato. E a tal “inteligência” pode ter vindo de uma dessas investigações, ou não.
Porque quando falamos da origem, também temos que lembrar daquele outro inquérito lá atrás, que estava em Curitiba e que investigava o então deputado José Mohamed Janene. Para entender tudo isso, precisamos entrevistar os policiais que participaram dessas investigações, mas isso vai ser difícil. A ressaca da Lava Jato formou uma barreira de silêncio institucional em volta da maior operação anticorrupção do país, principalmente entre aqueles que seguem na ativa dentro da corporação. Por isso, no jornalismo investigativo, um dos mais promissores caminhos é sempre buscar ex-funcionários, os aposentados sempre têm menos a perder.
[conversas entre as jornalistas]
Alice: E o outro que eu vou tentar falar também, que é o delegado que a gente está falando, que é aquele que eles falam que é o pai da Lava Jato, né? O Gerson Machado.
[Natália Viana]
Foi aí que chegamos em Gerson Machado, delegado aposentado da Polícia Federal, especializado em crimes financeiros.
[Chegada no prédio]
Amanda: Oi, bom dia. A gente vai no apartamento do Gerson, 1204, Amanda. Gerson: Olá, tudo bem?
[Natália Viana]
Depois da confirmação da entrevista, nossa repórter Amanda Audi e a técnica de áudio Stela Diogo viajaram para Londrina, cidade onde o Gerson Machado vive e trabalhou durante boa parte de sua carreira na Polícia Federal.
[Entrevista Gerson Machado]
Amanda: Então, a gente está em Londrina. Vamos conversar hoje com o ex-delegado da Polícia Federal, Gerson Machado. A gente está no saguão do prédio de apartamentos que ele mora.
[Natália Viana]
Gerson é mais que apenas um delegado aposentado. São poucas as pessoas que podem se vangloriar de terem inspirado um personagem numa série da Netflix . O protagonista da série O mecanismo, interpretado por ninguém menos que Selton Mello, foi inspirado nele.
[Entrevista Gerson Machado]
Gerson: Sei lá. Não sei o que eles pensavam, porque eu nunca fiz a série.. A série não foi feita do que eu disse. Amanda: Sim. E você que é o Selton Mello, né? Que é o principal. Gerson: Mas aí eles fizeram aquele negócio…glamoroso. Mas o que pode ser atribuído a mim é aquela fala inicial dele: que policial que sobe, que quer competir com bandido, pra mim é policial burro. Para mim, tem que investigar. Seguir o dinheiro.
[Natália Viana]
Ele pode não ter gostado tanto, mas assim como o personagem ficcional o então delegado investigava na vida real o caminho percorrido pelo dinheiro. Uma rede de lavanderias e postos de combustível, em Londrina, usados para movimentar dinheiro de forma ilegal, ou seja, lavar dinheiro sujo. No centro do esquema, estavam os doleiros. O caso foi crescendo, sem equipe ou estrutura, Gerson tinha que se virar praticamente sozinho.
[Entrevista Gerson Machado]
Amanda: Então, o senhor começou desse jeito, sem equipe, sem apoio, com uma coisa muito grande nas mãos. Gerson: Sem estrutura. Amanda: E que cresceu por conta da CPI dos Correios, enfim, com o Mensalão. Gerson: A investigação, para mim, é como se fosse um mosaico, né? Você vai juntando uma pedrinha ali, uma pedrinha ali, e vai aparecer a cara da pessoa, do criminoso, da materialidade, da autoria. Então, eu não tinha equipamento, eu fui construindo a minha própria aranha ali, montando. Amanda: Aranha é aquele negócio, aquele fio… Gerson: A teia, né? A teia. Você vai montando e vai… Amanda: Tinha isso, igual o dos filmes mesmo? Gerson: É, você vai montando, né? Mas precariamente. Olhando papéis… Registro…
[Natália Viana]
Sabe aquela clássica cena de filme policial em que o investigador vai colando na parede documentos, notas de jornal, criando aquele mural de imagens em busca de algum insight? Gerson usava esse método e em uma pequena delegacia de Londrina, tocava o caso que abriria os caminhos para a Lava Jato, anos depois.
[Entrevista Gerson Machado]
Gerson: A investigação que iniciou a Lava Jato, eu tinha enviado pros colegas de Curitiba, lá no início do ano de 2009. É… Eu posso e acho que você vai querer saber como é que começou essa investigação. Amanda: Uhum, sim. Gerson: É isso? Amanda: Isso. (Risos)
[Natália Viana]
Segundo ele, o começo aconteceu quando ele foi aconselhado pelo superintendente a remeter o caso para Curitiba, onde tinha mais estrutura e equipe.
[Entrevista Gerson Machado]
Gerson: Eu tinha um braço da Lava Duto ainda aberto, de uma reunião do Alberto Youssef com o Janene. Que eu não tive tempo para investigar. Muito trabalho. A partir de uma conversa de um dos investigados. Do advogado dele, que contava que o Youssef e o Janene estavam juntos numa reunião. Entendeu?
[Natália Viana]
Já deu pra ouvir que tem várias histórias sobre as origens da Lava Jato. Gerson é conhecido, por exemplo, como “o pai” da operação. Segundo ele, ali no embrião estavam duas figuras: o doleiro Youssef e José Mohamed Janene.
[Entrevista Gerson Machado]
Gerson: E aí juntamos… Foi pra Curitiba. Essa é a investigação. Aí tinha lá os colegas. Passei por Curitiba. Entendeu? Amanda: Quem foi o delegado responsável nesse primeiro momento? Gerson: Olha, eu não fiquei preocupado com isso. Tinha os colegas de maior confiança. Não fiquei preocupado, mas depois eu fiquei sabendo que foi o doutor Márcio, que o Márcio tinha sido o meu escrivão aqui.
[Natália Viana]
Em 2014, no dia da prisão de Youssef, o Márcio Anselmo ligou para o Gerson compartilhando a notícia.
[Entrevista Gerson Machado]
Gerson: aí ele me liga, falando, “Gerson, tudo bem?” “Ô, Márcio, você tá ligando pra mim? Quanta honra”, porque a gente não conversa na Polícia Federal. A gente até procura não conversar muito, se não, assim, se encontrar. Até pra não dar falação, né? “Então, é pra dizer, né? Já que você foi o pai da história toda? Pra dizer que nós prendemos o Youssef. Ô, glória a Deus!”
[Natália Viana]
Youssef na época inicial da Lava Jato já era um doleiro com diversas passagens pela polícia.
[Entrevista Gerson Machado]
Gerson: Aqui em Londrina tinha muita investigação do Alberto Youssef, muita. Amanda: E o Youssef tem um poder muito… não sei se ele tem ainda, né? Mas ele tinha um poder muito grande aqui, né? Gerson: Olha, eu não digo que ele tenha poder. Os poderosos precisam desses agentes para fluir. O desejo, né? Precisa lavar dinheiro. Só existe doleiro porque tem demanda.
[Natália Viana]
Mas antes de terminar a entrevista com Gerson Machado, a Amanda fez a nossa pergunta-chave.
[Entrevista Gerson Machado]
Amanda: Tem um dos diálogos que fala sobre o início da Operação Lava Jato, em que a Erika Marena fala para alguns procuradores que receberam informação de intel sobre operações que estavam rolando na fronteira. Então a gente imaginou que esse negócio de intel seria de inteligência. Gerson: Sim. Amanda: E que provavelmente veio a partir das movimentações de doleiros que talvez alguma agência de inteligência, tipo a CIA, FBI, ou sei lá, que atua nessa região, né? De fronteira, enfim, que possa ter comunicado a autoridade daqui. Gerson: Pode. Amanda: Pode ser? Gerson: Pode. Eu ouvi falar, eu já estive em Brasília, na superintendência, com um colega dizendo, ó, aquela sala ali é da CIA, FBI, em colaboração com a polícia, por questão de tráfico de drogas. DEA, tal. Isso… isso é fato, né? Amanda: Uma sala dentro da sede da polícia? Gerson: Ah, é. É. Isso eu ouvi do colega. Agora, eu não posso dizer, mas eu acho bem provável. Amanda: Para o senhor, não parece uma teoria da conspiração, então? Gerson: Não. A informação para os Estados Unidos é tudo.
[Natália Viana]
Gerson Machado ouviu relatos de salas dedicadas às agências americanas dentro da superintendência da PF em Brasília. A informação para os Estados Unidos é tudo. Palavras de Gerson. Agora eu vou fazer uma confissão. Nós já estávamos desistindo de ouvir os doleiros quando mais uma vez a mineiríssima Alice nos enviou por áudio uma tremenda notícia.
[Efeito sonoro: alerta de recebimento de mensagem]
Alice: Gente, acabei de sair, vim até dar uma passada no shopping aqui que é na frente do escritório dele pra comer um docinho e processar um pouco as informações, mas foi muito mais interessante do que a outra conversa, né? Porque a gente vai criando uma relação de confiança. Ele fala que não tem nada a ver com a Tríplice Fronteira, que não sabe de nada e tal. Mas eu voltei a perguntar pra ele assim, então, você acha que se ele tinha operado nessa região, se ele tinha sido doleiro para os libaneses, né, por causa dessas suspeitas, se isso poderia ter dado start ali nos americanos, se ele podia ter sido monitorado por conta disso. E aí ele falou, eu não posso te falar. (Risos) Ele me disse, eu não posso te falar. Nem que sim, nem que não. Eu não vou falar.
[Natália Viana]
Alice conseguiu o que parecia impossível, fazer uma entrevista com Carlos Habib Chater. Eles se encontraram em um shopping de Brasília que fica ali pertinho do Posto da Torre. Mas Chater preferiu não autorizar o uso do áudio: em vez disso, ele nos deixou ler aqui alguns trechos, sem edição, da sua entrevista. A leitora do relato é a própria Alice Maciel.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: Chater contou que começou a trabalhar aos 8 anos de idade e aos 23 já tinha a Habib Câmbio e Turismo. Ele destacou que na época (anos 1990), por causa da inflação, apesar da ilegalidade, o serviço do doleiro era uma prática comum. Ele disse que entre os clientes da sua empresa estavam policiais civis e federais, juízes, desembargadores e pessoas da alta cúpula do governo federal.
[Natália Viana]
Nessa época Chater chegou a contratar Cid Moreira como garoto propaganda de sua casa de câmbio. Foi pouco depois dessa primeira maré de bonança que aconteceu sua primeira prisão, em 1991, junto com o pai.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: A segunda prisão do doleiro aconteceu em 2008, quando ele tentou viajar para o Líbano com 12,2 mil dólares.“Quando eu fui preso em 2008, eu estava indo para o Líbano com o Salomão”.
[Natália Viana]
Chater, principal alvo da Operação Lava Jato, chegou a ser preso em 2008 no aeroporto de Brasília quando levava 12 mil dólares em dinheiro para o Líbano. Isso cinco anos antes da Lava Jato estourar e focar justamente na pessoa dele.
Salomão é como é conhecido no Brasil o Sleiman, já citado no decorrer desse episódio, investigado lá no início da Lava Jato por envolvimento no tráfico de drogas e que ainda hoje é foragido da justiça. Chater também tinha negócios com Salomão. A Alice segue lendo o relato de sua conversa com o doleiro.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Teve uma época da minha vida que eu tive alguns bingos em Brasília, Goiânia e Anápolis. E aí começaram a fechar os bingos e na época eu falei, “vou pro Líbano. Vou levar umas máquinas pro Líbano”. E o Salomão conseguiu um esquema de eu mandar as máquinas por navio e entrar meio que… porque lá era meio proibido. Numa dessas viagens eu fui preso com aqueles doze mil dólares. Eu fui preso e ele também.”
[Natália Viana]
Essa parceria antiga também rendeu problemas para o Chater anos mais tarde, já na véspera da Lava Jato. O Chater disse que o amigo libanês pediu para ele resgatar um dinheiro no Brasil e repassar em espécie.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Salomão me ligou e falou ‘Carlos, eu preciso trazer uma grana da Europa’. Falei ‘ok’, era o que eu fazia. ‘Quanto é?’ Cento e poucos mil euros, eu imagino. Estava na Holanda a grana dele. Eu peguei a grana dele ou um pedaço, não me lembro. Ele falou ‘Carlos, eu estou indo para o Líbano. Quando você tiver o dinheiro, você me liga, eu vou pedir para alguém passar e pegar’. Quando eu ligo para ele, ele falou ‘vai te procurar um cara chamado Renê’, que era conhecido do Salomão.
[Natália Viana]
Renê Luiz Pereira era o traficante envolvido com o transporte de cocaína apreendido em Araraquara, lembra? E tanto ele, como Salomão, estavam sendo monitorados pela PF. O grampo feito pela polícia flagrou conversas telefônicas de um funcionário de Chater com o próprio Renê, na data de 11 de setembro de 2013, ou seja, na fase secreta da Lava Jato. A seguir, os atores Aury Porto e Dênis Goyos vão encenar esse grampo telefônico.
Efeito sonoro: chamada telefônica
Ediel: Alô. Renê: Quem fala? Ediel: Ediel. Renê: O André está aí ? Ediel: Ainda não Renê: Você no escritório trabalha, né? Ediel: Isso. Renê: Você poderia deixar um recado pra ele, por favor? Ele ou Carlos. Diz que o Renê ligou. Ediel: Hã? Renê: E, porque ele tem um TED para duas TEDs pra me fazer aí, com dois números de conta. Diga a ele que aquela de 72.400 não pode mais ser feita nesta conta. Ediel: Ele tem seu telefone? O André. Renê: Ele tem, mas não vai conseguir falar comigo, só um pouco mais tarde Ediel: Tá, eu só vou avisar. Renê: É, a hora que ele tiver o dinheiro, ele fala comigo. Eu dou um jeito de falar com ele. Ele fala já se tá com o dinheiro ou o Carlos me avisa e aí eu passo a conta, porque é. Ele teve a conta, não fez o depósito. Então a outra conta ele pode fazer, o 19 mil e pouco. Ediel: Tá combinado, Renê. Vô avisar aqui.
[Natália Viana]
E foi assim que Chater se viu envolvido num esquema de tráfico internacional, mas ele nega qualquer envolvimento com esse tipo de atividade.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Essa operação do meu amigo, que acabou culminando no Renê, que foi pegar um cheque e acabou dando essa questão do narcotraficante, é uma hawala, pela definição dos procuradores. O Salomão, que é meu amigo, me deu uma grana lá na Europa e eu tô dando pra ele aqui. Isso é hawala, é um nome, poderia ser transferência, poderia ser cabo.”
[Natália Viana]
Chater nunca tinha ouvido a expressão hawala, mas antes de conversar com Alice pesquisou e entendeu o conceito. Era exatamente o que ele fazia, transferência de valores na base da confiança, também conhecido como dólar-cabo.
São justamente essas transferências entre doleiros de ascendência libanesa com remessas destinadas ao Líbano que podem ter chamado a atenção do FBI. Sim, é possível, mas Chatter não acredita na influência dos Estados Unidos no início da Lava Jato.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Eu estive com essa turma (comunidade libanesa) no Paraguai. Mas o que eu percebi é que eles estão lá trabalhando pra ganhar dinheiro como todo bom libanês, como todo bom comerciante. Porque lá não tem só libanês, lá tem chinês, lá tem indiano, lá tem brasileiro. Que está lá do outro lado pra trabalhar. Mas essa questão de você financiar o terrorismo, isso é uma mistura que o Ocidente nunca vai entender porque não quer. Insisto, eles pegam a grana e mandam pra terra deles. O libanês que está no Paraguai manda pra terra – eles compram propriedades e tal, e eles ajudam quem defende eles. Entende?”
[Natália Viana]
Bom, a transferência feita para Salomão envolvendo um traficante internacional chamou a atenção da PF de Curitiba. Mas Chater diz ter certeza que não foi nessa época que ele começou a ser monitorado.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Eu sei que fui monitorado muito antes das autorizações legais. Eu tenho certeza que a Polícia Federal me monitorou ilegalmente por muito tempo antes.”
[Natália Viana]
Chater lembra que um ano antes da operação, policiais federais estiveram no Posto da Torre. Na visão dele, o alvo inicial era Alberto Youssef. E aí chegamos na relação entre o Chater e o Youssef. Chater contou que conheceu Alberto Youssef em 2004 a 2005 por meio de um amigo em comum.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: Chater contou que conheceu Alberto Youssef em 2004 ou 2005, por meio de um amigo em comum. Ele destacou que também teve uma casa vizinha a de Youssef, no litoral de Santa Catarina. “Somos amigos, era uma relação pessoal, falo com ele até hoje, às vezes.”
[Natália Viana]
A relação de amizade com Youssef era também guiada pelos negócios em comum. Carlos Chater afirmou que pegava dinheiro emprestado com Youssef para comprar combustível mais barato, com pagamento à vista.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Quando eu vi que Youssef era um cara que tinha liquidez, eu falei “bom, eu tenho oportunidade de comprar combustível mais barato, se eu tiver grana na mão”. Foi a fome com a vontade de comer porque o Youssef sempre precisava de dinheiro vivo.
[Natália Viana]
Mais uma vez, esse tipo de transferência nada mais é que a hawala ou dólar cabo. Antes da Operação Lava Jato ser deflagrada, Chater já estava desconfiado que algo aconteceria, porque ele já tinha sido chamado a prestar esclarecimentos por causa dessas transferências feitas para empresas de Youssef. Sobre o dia de sua prisão, ele confidenciou detalhes inéditos à Alice.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: Ele contou que tinham uns dois ou três delegados e uns vinte agentes. “Parecia um negócio… Pablo Escobar. Eu acordo normalmente 3 horas da manhã, eu acordo muito cedo. No dia da operação eu ouvi os cachorros latindo diferente. E eu morava numa casa, meio que numa chácara, no Lago Norte. Eu era vizinho do Collor. E aí eu ouvi um som de sirene, mas eu imaginei que fosse uma ambulância, lá atrás. E eu ouvi os cachorros latindo e aí passou um pouco de tempo – minha casa é térrea, onde eu morava – e eu ouvi ‘pá, pá, pá’, batendo no meu quarto, na varanda do quarto: ‘Polícia Federal’, já levantei e falei ‘deu ruim’.
[Natália Viana]
Desde o dia em que foi preso, ele sofreu muita pressão para se tornar delator. Ele lembra que ficou 45 dias preso na Polícia Federal e que nesse período era retirado da cela quase diariamente para fazer a delação. Chater disse que os federais ameaçavam prender seus familiares, mandá-lo para prisão comum e acusá-lo de narcotráfico. A pressão era para que ele delatasse agentes públicos e políticos, segundo o doleiro.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Eles falavam muito em agentes públicos, antes mesmo de políticos. A sanha deles era para agentes públicos. Não sei o que eles queriam dizer com agentes públicos. Depois políticos, principalmente do PT. Os policiais diziam: olha, Carlos, eu tenho como liberar você em uma semana, mas eu preciso que você me dê alguns nomes, porque aí eu falo com o Sérgio Moro e você sai em uma semana. Chater decidiu não delatar ‘porque não conseguiria conviver com isso. Isso é uma questão pessoal, porque eu fui criado assim. Entende? De onde eu vim, como, por onde eu passei… Muito novo eu saí da guerra e vi algumas coisas… Eu não conseguiria, mesmo que eu tivesse alguma coisa para entregar.’
[Natália Viana]
O fato é que ele é um dos poucos que preferiu ser preso a se tornar delator. Ele contou para Alice que a prisão até o tornou uma pessoa melhor, mais tranquila. Mas também contou que não foi assim para outros presos durante a Lava Jato. Em especial, um personagem central dessa trama. Mas primeiro vamos ao personagem:
[Audios arquivos]
William Bonner: A Polícia Federal prendeu hoje de manhã um ex -diretor da Petrobras. Paulo Roberto Costa é suspeito de envolvimento em operações de lavagem de dinheiro que movimentaram dez bilhões de reais
[Natália Viana]
Paulo Roberto Costa foi um dos primeiros delatores da Lava Jato e foi graças ao seu depoimento que todo o esquema da Petrobras começou a ser desvendado. Ele virou alvo quando a PF descobriu que Alberto Youssef tinha dado um carro, uma Land Rover, de presente para o ex-diretor de abastecimento da Petrobras. Chater contou para Alice detalhes do dia em que Paulo Roberto Costa foi levado para a prisão solitária.
Leitura entrevista Chater por Alice Maciel: “Tiram ele da cela, encostam ele na parede com o rosto colado na parede. Colocam aquele cinto na cintura, prendem os braços dele e as mãos no cinto, com as algemas. Colocam as algemas nas pernas e transportam esse senhor, provavelmente, num camburão atrás. Ele chorava copiosamente. Esse senhor voltou depois de uma semana muito magro. Eu vou exagerar, talvez uns 20 quilos mais magro. Ele, lógico, pirou. Ele só voltou depois que eles ‘quebraram a espinha dele’, vamos dizer assim, e aí ele topou fazer a delação.” Foi um tipo de tortura? perguntei. “Tortura, pronto. Medieval.”
[Natália Viana]
A delação de Paulo Roberto Costa é a espinha dorsal do que se tornaria a grande Operação Lava Jato, sem ela, talvez nem esta série existiria. Mas o relato de Chater não é o único a lançar suspeitas: Teve até grampo escondido na cela em que eles estavam presos. Será que esses e outros métodos foram usados porque a Lava Jato queria mesmo era chegar na Petrobras de qualquer jeito? Será que tem dedo dos americanos nisso? Precisamos descobrir.
[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
















