‘Zona de sacrifício’: exposição sobre impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha (MG) chega ao Rio — Insubornavel

‘Zona de sacrifício’: exposição sobre impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha (MG) chega ao Rio

Por Redação01/07/2026 às 13:560 visualizações

A exposição fotográfica “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó”, da documentarista mineira Isis Medeiros, expõe os impactos da mineração de lítio na região do Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais. A mostra chega ao Rio de Janeiro na próxima quinta-feira (2º), onde fica em cartaz até novembro no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), localizado no Catete, na zona sul.

São consideradas “zonas de sacrifício” territórios degradados pela mineração onde comunidades vulnerabilizadas, sobretudo indígenas e quilombolas, estão expostas a riscos. A exploração econômica, da vida e do meio ambiente marcam a relação das grandes empresas com os territórios impactados.

O projeto de Isis Medeiros se desdobra em fotografia documental, audiovisual, pesquisa, escuta de territórios e uma exposição itinerante. A fotojornalista completou dois anos de trabalho permanente com foco em Araçuaí e Itinga, dois dos 54 municípios do Vale do Jequitinhonha atingidos pela mineração. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, a documentarista refletiu que a transição energética e a disputa por minerais estratégicos ainda são temas pouco conhecidos no debate público, mas os impactos fazem parte do cotidiano de comunidades como do Vale do Jequitinhonha. Nesse sentido, a mostra revela um “outro lado” invisibilizado dessa corrida.

“A exposição procura revelar justamente esse outro lado da transição energética, aquele que permanece invisível. Enquanto os países do Norte Global buscam reduzir suas emissões e ampliar o uso de tecnologias consideradas limpas, os impactos da extração recaem, em grande parte, sobre territórios do Sul Global. Comunidades convivem com a perda de água, poeira, adoecimento, conflitos e profundas transformações em seus modos de vida”, afirma.

Com trajetória voltada para investigação de violações e crimes ambientais, Isis Medeiros também é autora do fotolivro 15:30, sobre o crime provocado pelo rompimento da barragem da Samarco/Vale-BHP em Mariana (MG), em 2015.   

A exposição “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” é composta por 40 imagens, além de uma instalação na Galeria Mestre Vitalino. Conhecido pela importante tradição de ceramistas, o Vale do Jequitinhonha está amplamente representado no acervo do Museu de Folclore Edison Carneiro. Por isso, algumas peças do museu também fazem parte da mostra, conectando saberes da cultura popular ao contexto documental. 

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No início do ano, a mostra teve uma primeira exibição no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, em Araçuaí. Na abertura da mostra no Rio, será apresentado o documentário Chico, que acompanha a vida dos moradores a partir da rotina do ativista na comunidade Piauí Poço das Antas, em Itinga. 

O Brasil ocupa atualmente o 6º lugar no ranking mundial de reservas de lítio, considerado estratégico para a transição energética global e produtos de alta tecnologia. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a maior parte das terras raras no país está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.

Leia a entrevista:

Brasil de Fato –  Em que contexto surgiu a ideia do projeto?

O projeto surgiu em 2023, quando o Governo de Minas Gerais anunciou, na bolsa de valores Nasdaq, em Nova York, o projeto de exploração do lítio no Vale do Jequitinhonha e passou a promover a região internacionalmente como “Vale do Lítio”. A partir daquele momento, comecei a me preocupar com o que essa nova corrida mineral significaria para o território.

Eu já conhecia Araçuaí havia quase dez anos e tinha um vínculo afetivo muito forte com a região. Sempre foi um lugar que me encantou pela cultura, pelas pessoas e pelos modos de vida. Quando soube da chegada desse novo ciclo de exploração mineral, iniciei uma pesquisa sobre o território, reunindo informações, acompanhando os debates e buscando compreender o que estava em curso.

Pouco tempo depois, fui contemplada pelo 17º Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, que tornou possível desenvolver essa investigação em campo. Foi então que passei a percorrer as comunidades, fotografar, conhecer as pessoas e acompanhar de perto as transformações provocadas pela mineração.

O maior desafio foi documentar uma história que ainda está acontecendo.

A transição energética e a disputa por minerais estratégicos ainda são temas pouco debatidos no Brasil, mas seus impactos já fazem parte do cotidiano das comunidades do Vale do Jequitinhonha. Meu interesse sempre foi compreender essa realidade a partir da perspectiva de quem vive no território, acompanhando de perto as mudanças na paisagem, nos modos de vida e nas relações das pessoas com a terra, a água e o próprio futuro.

Mineração muda paisagem no Vale do Jequitinhonha (MG), mostra projeto “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó”
Mineração muda paisagem no Vale do Jequitinhonha (MG), mostra projeto “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó”
Mineração muda paisagem no Vale do Jequitinhonha (MG), mostra projeto “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó”

Qual a importância de trazer para o público as consequências da mineração nos territórios?

É importante que as pessoas conheçam o que existe por trás da mineração. Geralmente conhecemos apenas o resultado final desse processo: os celulares, computadores, carros elétricos e baterias que consumimos diariamente. Mas raramente vemos o que acontece nos territórios de onde esses minerais são extraídos e quais são os impactos deixados para as populações que vivem nesses lugares.

No contexto da transição energética, o lítio passou a ser considerado um mineral estratégico para a produção de baterias, mas também para satélites, tecnologias militares e armamentos. Existe hoje uma disputa geopolítica internacional por esses recursos, que envolve governos, empresas e grandes potências econômicas. O Brasil ocupa uma posição central nessa disputa, especialmente o Vale do Jequitinhonha.

A exposição procura revelar justamente esse outro lado da transição energética, aquele que permanece invisível. Enquanto os países do Norte Global buscam reduzir suas emissões e ampliar o uso de tecnologias consideradas limpas, os impactos da extração recaem, em grande parte, sobre territórios do Sul Global. Comunidades convivem com a perda de água, poeira, adoecimento, conflitos e profundas transformações em seus modos de vida.

Também é importante olhar para uma região historicamente marcada pela invisibilidade e pelo abandono das políticas públicas. Grandes empresas chegam prometendo desenvolvimento, emprego e prosperidade, mas é fundamental perguntar quais benefícios permanecem no território e quais custos ficam para as comunidades.

Mais do que oferecer respostas, a exposição propõe uma reflexão: que transição energética queremos construir? Mineração sustentável para quem? Lítio verde para quem? Desenvolvimento para quem? E quais transformações queremos deixar para as próximas gerações?

Projeto “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” retrata impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha (MG) |
Projeto “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” retrata impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha (MG) | — Isis Medeiros
Projeto “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” retrata impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha (MG) | Crédito: Isis Medeiros

Que histórias as imagens da exposição trazem?

A exposição reúne histórias de pessoas e comunidades diretamente impactadas pela mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha. São histórias de permanência, resistência e pertencimento, também de conflitos territoriais, escassez de água, adoecimento, destruição ambiental e profundas transformações nos modos de vida.

Este trabalho foi construído com essas pessoas, por meio da convivência, da escuta e da confiança estabelecida ao longo da pesquisa. É também resultado da colaboração de pesquisadores, artistas do Vale do Jequitinhonha, movimentos sociais, universidades e dezenas de pessoas que contribuíram para cada etapa do projeto, da pesquisa e da escrita à produção da exposição.

As imagens falam por si, mas falam sobretudo dessas pessoas. Elas revelam um território que resiste, que produz cultura, conhecimento e formas próprias de viver, ao mesmo tempo em que enfrenta uma das maiores corridas minerais da atualidade. Essa exposição nasce desse encontro e é dedicada, antes de tudo, às comunidades que abriram suas casas, compartilharam suas histórias e tornaram este trabalho possível.

Serviço

Exposição “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” 

Inauguração: 2 de julho, às 18h 

Local: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (Rua do Catete, nº 179)

Visitação: terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h  

Em cartaz até 1º de novembro

Fonte
Brasil de Fato
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