Quando uma articulação começa a doer, a tendência é poupar os movimentos. Parece lógico: se mexer dói, descansar ajuda. O joelho incomoda ao subir escadas, o quadril dói ao caminhar, as mãos ficam rígidas durante tarefas simples. Nessas situações, repousar ou reduzir a atividade costuma soar como a melhor alternativa.
A ideia de que o repouso protegeria as articulações também orientou o tratamento de muitas pessoas com artrite e artrose. As pesquisas realizadas nas últimas décadas, porém, apontam em outra direção: movimentar-se regularmente não é apenas seguro para a maioria dos pacientes. O movimento ajuda a reduzir a dor, melhora a mobilidade e preserva a capacidade funcional.
Aos poucos, esse conjunto de evidências transformou o papel do exercício no tratamento dessas doenças. A mudança também passou a aparecer nas diretrizes internacionais. Em 2018, a EULAR (Liga Europeia contra o Reumatismo) reconheceu a atividade física como parte do tratamento padrão das artrites inflamatórias e da osteoartrose. A atualização de 2025, publicada em 2026, reforçou essa recomendação.
Benefícios além das articulações
Quando pensamos em artrite, normalmente lembramos de uma articulação dolorida. Um joelho que dificulta a caminhada. Mãos rígidas logo pela manhã. Um punho que limita movimentos simples. A doença, porém, não se restringe às articulações. Muitas pessoas convivem também com cansaço persistente, perda de massa muscular, redução do condicionamento físico e aumento do risco cardiovascular. É por isso que os benefícios do exercício alcançam muito mais do que a região que dói.
Sempre que os músculos se contraem durante a atividade física, eles liberam moléculas que participam da comunicação entre diferentes tecidos e órgãos. Durante esse processo, o organismo passa a regular melhor o metabolismo e a controlar a inflamação. Essas adaptações ajudam a explicar parte dos benefícios observados em pessoas que praticam atividade física regularmente, como menos dor, mais disposição e maior facilidade para realizar atividades simples do cotidiano, como caminhar, subir escadas ou carregar compras.
Os efeitos da atividade física também alcançam o sistema cardiovascular. Pessoas com artrite reumatoide apresentam risco aumentado de doenças cardiovasculares quando comparadas à população geral. A atividade física contribui para melhorar o condicionamento cardiorrespiratório e reduzir fatores de risco cardiometabólicos.
Outro efeito importante envolve a preservação da massa muscular. Quando a dor leva a pessoa a se movimentar menos, a musculatura tende a perder força progressivamente. Esse processo, conhecido como sarcopenia, pode aumentar limitações já impostas pela doença. O fortalecimento muscular ajuda a preservar a capacidade funcional e oferece mais suporte às articulações.
A fadiga também merece atenção. Frequentemente descrita pelos pacientes como um dos sintomas mais incapacitantes da artrite, ela tende a diminuir quando a atividade física passa a fazer parte da rotina. Em outras palavras, quando uma pessoa com artrite se exercita regularmente, ela não está apenas movimentando uma articulação dolorida. Está desencadeando mudanças que envolvem músculos, metabolismo, sistema cardiovascular e processos inflamatórios. Na prática, isso pode significar menos limitações e mais autonomia para realizar atividades do dia a dia.
Impacto na osteoartrose
Se nas artrites inflamatórias os benefícios do exercício já estão bem documentados, o mesmo acontece na osteoartrose, a forma mais comum de doença articular. Por muito tempo, a própria ideia de “desgaste” ajudou a consolidar a crença de que o melhor seria poupar a articulação. O raciocínio parece intuitivo: se uma estrutura está desgastada, usá-la menos deveria ajudar a preservá-la. Foi justamente essa lógica que levou muitas pessoas a evitar movimentos por medo de piorar a doença.
As pesquisas realizadas nas últimas décadas, porém, mostraram que a história é mais complexa. A osteoartrose não envolve apenas a cartilagem. A doença afeta diferentes estruturas da articulação, incluindo o osso subcondral, os ligamentos, a membrana sinovial e a musculatura ao redor. Essa compreensão ajudou a redefinir a forma de encarar o tratamento.
Revisões científicas mostram que programas estruturados de exercício físico ajudam a reduzir a dor e melhorar a função física, especialmente em pessoas com osteoartrose de joelho e quadril. Por isso, as diretrizes atuais consideram o exercício uma das principais estratégias não farmacológicas para o tratamento da doença.
Parte dessa explicação está no fortalecimento muscular. Músculos mais fortes absorvem parte das cargas geradas durante os movimentos do dia a dia, reduzindo a sobrecarga sobre estruturas já comprometidas. A atividade física também ajuda a preservar a mobilidade, o equilíbrio e a autonomia. Além disso, quando associada a outros hábitos saudáveis, pode favorecer o controle do peso corporal, fator particularmente relevante para articulações que suportam carga, como joelhos e quadris.
O exercício não é capaz de reverter completamente as alterações estruturais da articulação. Ainda assim, permite que a pessoa se movimente melhor, sinta menos dor e preserve sua independência pelo maior tempo possível.
Não existe um exercício único para todos
Com o papel do exercício cada vez mais bem estabelecido no tratamento, as pesquisas passaram a investigar quais modalidades poderiam trazer melhores resultados para quem convive com artrite e artrose. Diversos estudos compararam diferentes tipos de atividade física na tentativa de identificar se existiria uma estratégia superior às demais.
Uma revisão que reuniu dezenas de ensaios clínicos envolvendo pessoas com osteoartrose de joelho e quadril encontrou benefícios com diferentes modalidades de exercício, sem identificar uma única estratégia superior. Isso não significa que todas as atividades produzam exatamente os mesmos efeitos ou sejam adequadas para qualquer situação. Significa, porém, que existe mais de um caminho possível.
Os pesquisadores passaram então a olhar também para outro aspecto: a adesão ao tratamento. Afinal, esses efeitos dependem da continuidade da prática. Por isso, a atividade mais indicada nem sempre é a que produz os melhores resultados em condições ideais, mas aquela que consegue ser incorporada à rotina e mantida ao longo dos meses e dos anos. É essa regularidade que permite transformar o que foi observado nos estudos em ganhos reais para a vida cotidiana.
Embora não exista uma modalidade única capaz de atender a todos os perfis, alguns componentes aparecem de forma consistente nas recomendações atuais. De modo geral, elas sugerem uma combinação de exercícios aeróbicos, fortalecimento muscular, mobilidade e equilíbrio, com adaptações de acordo com a condição clínica, as limitações e as preferências de cada pessoa.
Essa mudança de perspectiva pode ser resumida de forma simples: durante décadas, o repouso foi visto como uma forma de proteger articulações doloridas. Hoje, para a maioria das pessoas com artrite e artrose, o movimento ocupa lugar central no tratamento.

É coautora do livro Alimente Sua Mente – estratégias simples para nutrir e fortalecer a saúde mental (Ed. Manole).
Licia Maria H. Mota não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
