O que será das cidades, das famílias e das casas com a elevação da temperatura global? Como a nova realidade impactará o acesso a água, a produção de alimentos e outras questões básicas da sobrevivência humana no planeta? Enquanto o mundo sente a temperatura média subir ano após ano e a Europa contabiliza vítimas fatais de mais uma onda de calor, existem 30 milhões de brasileiras e brasileiros no semiárido nordestino criando, todos os dias, formas de viver e produzir adaptadas ao clima quente e à escassez de água.
É para conhecer e dar visibilidade a essas tecnologias que centenas de pessoas estão reunidas em Pernambuco para a 2ª edição da Caatinga Climate Week (Semana do Clima da Caatinga), que se propõe a mostrar que o mundo tem muito a aprender com as soluções criadas no interior do Nordeste brasileiro. O evento começa nesta quarta-feira (1º), com painéis e mesas de debate ao longo de todo o dia no museu Cais do Sertão, no Recife. O evento é gratuito e aberto ao público.
O programa É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, entrevistou um dos organizadores do evento, o mestre em agroecologia Carlos Magno, coordenador do Centro Sabiá e colunista do Brasil de Fato.
Magno explicou que a proposta do evento é romper com o formato tradicional que os países do Norte global promovem o debate climático. “As semanas do clima pelo mundo se distanciam dos territórios e trazem grandes especialistas do Norte Global para falar em painéis de alto nível. Mas nós temos dito que os painéis de mais alto nível estão, na verdade, nas comunidades, com as populações que realmente são afetadas pelas mudanças climáticas e que construíram respostas para lidar com essas questões”, pontua.
As atividades também devem reforçar a importância ambiental e climática do bioma Caatinga, muitas vezes desprezado no debate ambiental brasileiro. Uma pesquisa do departamento de ciências agrárias da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) mostrou que a Caatinga é o bioma brasileiro com melhor desempenho na captura de gases do efeito estufa, especialmente em períodos chuvosos. Em alguns anos, o bioma — que é exclusivo do Brasil e corresponde a 11% do território nacional — foi responsável por cerca de 50% de toda a captura de gás carbônico no país.
O especialista lamenta os falsos estigmas e o desconhecimento de grande parte da população acerca da Caatinga, sempre atrelado à pobreza, seca e sofrimento. “Essa é uma história que foi contada e na qual acreditamos por muitos anos. Há uma grande responsabilidade da mídia hegemônica sobre isso, porque ela contou essa história para as pessoas de outras regiões do Brasil e também para nós. Os outros passaram a vida inteira falando dos nossos problemas, mas é hora de falarmos de criatividade, inovação, geração de renda, dignidade, resiliência e adaptação climática a partir dos territórios e das comunidades onde as pessoas vivem”, defende.
Imersão territorial
Na quinta e sexta-feira (dias 2 e 3), os participantes do evento seguem para o Agreste do estado, onde conhecerão uma série de experiências de convivência e adaptação ao clima semiárido, como os quintais produtivos numa comunidade quilombola de Garanhuns, a relação entre natureza e fé no povo indígena Xukuru do Ororubá, as hortas e agroflorestas em Vertentes e Bom Jardim, a rede de sementes crioulas em Jucati, a recuperação de nascente de um rio pelas mãos de famílias de Jataúba e a luta das famílias agricultoras de Caetés contra os aerogeradores de energia.
Na sexta-feira (3), o foco é na produção, com experiências de apicultura e cultivo de uma variedade de alimentos por famílias rurais de Caruaru, além de sua produção têxtil e de artesanato. O evento é promovido pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), tendo como tema “A Caatinga falando para o mundo”. A primeira edição aconteceu em outubro de 2025.
