O professor

Por Cidade das Letras: literatura e educação01/07/2026 às 22:430 visualizações

Por Luciano Mendes

Recentemente, um dos principais representantes da extrema direita, em nova investida contra as/os professoras/es e ao bom senso, disse que as famílias não deveriam deixar seus filhos e filhas nas “mãos de pessoas estranhas”, os professores.

Em defesa da “escolarização doméstica”, segundo tal deputado,  melhor seria deixar as crianças em casa. Essa defesa enfática tem um claro horizonte de retrocesso  antidemocrático e, de “maneira oculta”, defende a volta das mulheres à casa, para cuidar da prole e de outros afazeres, como também defendeu recentemente outro representante da mesma laia e do mesmo grupo, o ex-governador de Minas, Romeu Zema (Novo).

As relações de gênero envolvidas no exercício da profissão docente e ameaças de toda ordem trazidas pelos professores e pelas professoras são amplamente encontradas e discutidas, no cinema, na literatura e na produção acadêmica.

No caso da literatura, há anos venho lendo e colecionando obras sobre professoras e professores do Brasil e de outras partes do mundo. São obras e textos de vários gêneros, escritas ao longo dos últimos séculos, que nos ajudam a entender as representações sobre as pessoas que atuam na chamada, muito recentemente, “profissão docente”.

O meu interesse e curiosidade não chegam a ser os mesmos do meu amigo João Valdir Alves de Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que está escrevendo um livro — que aguardo ansioso — sobre os professores na história, mas fazem com que meu olhar capte livros sobre o assunto em estantes diversas.

Este foi o caso, no início do ano, em um dia chuvoso no Porto, em Portugal. Estávamos caminhando com dificuldade pelas estreitas calçadas de uma daquelas ruas também estreitas, a caminho da nossa hospedaria, quando me deu vontade de entrar em uma livraria que se apresentava bem à minha frente. Entrei e, em menos de cinco minutos, já havia encontrado o livro O professor, de Charlotte Brontë, edição de 1964.

Publicado pela primeira vez em 1857, o livro teve inúmeras edições, em várias línguas, ao longo do tempo. É, por assim dizer, um clássico. Como outros livros, esse também não nasceu como um clássico, tendo sido, pelo contrário, rejeitado quase uma dezena de vezes para publicação, vindo à lume somente depois da morte de Charlotte Brontë, já então autora do grande sucesso de Jane Eyre (1847) e de outras obras.

O livro, narrado em primeira pessoa pelo protagonista, conta a história de um jovem inglês que, depois de passar por infortúnios em seu país, aconselhado e recomendado por um quase-amigo, resolve viajar a Bruxelas em busca de uma colocação. Lá, a única ocupação que lhe oferecem é a de professor de um colégio para rapazes. Mas, ao lado deste, funciona também um colégio para moças, no qual ele é, rapidamente, convidado a lecionar.

Não vou aqui, nestas poucas linhas, trazer as reflexões que o jovem professor, recém entrado na profissão, faz sobre seus alunos, suas alunas, sobre os processos de ensino e aprendizagem de seu tempo ou coisas dessa natureza.

Interessa-me apenas assinar um aspecto que, a partir de certa altura, comanda a narrativa, que é a relação entre o mestre e uma de suas pupilas, em que o conhecimento e o conhecer cumpre uma importante função de mediação erótica entre os dois personagens. Aos poucos, o desejo pelo conhecimento e pelo conhecer vai dando lugar a outros desejos, é certo, mas sem que esses nunca percam a sua importância na narrativa.

A relação é, de início e ao longo de todo o romance, desequilibrada a favor do mestre, por certo, mas gradativamente a aluna vai passando a uma outra posição, também de mestra, posição essa que ela, explicitamente, diz não querer deixar quando se lhe apresenta a oportunidade de dedicar-se “apenas” à leitura tranquila e aos labores da casa.

Foi nesse aspecto que o livro oitocentista me fez lembrar outro, com o mesmo título, publicado no Brasil, 150 anos depois. Trata-se do livro O professor, de Cristovão Tezza, que veio à lume em 2010. Nele, um velho professor, já aposentado, por ocasião de uma homenagem, reflete sobre sua longa trajetória docente. Também aqui, há uma relação intensa com uma de suas alunas em que o conhecimento e o processo de conhecer os envolve em intrincadas e complexas relações.

Conhecimento, erotismo, relações entre professor e aluna, seduções. Essas são marcas importantes da literatura que abordam a construção e a sustentação das posições desses sujeitos na/da narrativa (e do desejo).

Mas, pelo que tenho visto, essa dimensão sobressaí quando se trata de professores-homens-masculinos em suas relações com suas pupilas. Há que se aprofundar mais como tais questões/dimensões aparecem quando se trata de professoras-mulheres-femininas. Está aí um bom trabalho a ser feito, ou descoberto.

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outros artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

https://www.brasildefatomg.com.br/colunistas/cidade-das-letras-literatura-e-educacao

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Fonte
Brasil de Fato
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