Divórcio: peça escrita a partir de cartas da década de 1980 e relatos discute violência de gênero nas relações afetivas

Por Redação02/07/2026 às 19:410 visualizações

No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas de vigência no Brasil, o espetáculo “Divórcio” estreia no Complexo Cultural Funarte SP, convidando o público a um mergulho reflexivo nas dinâmicas da violência de gênero.

A montagem, que fica em cartaz entre 3 e 26 de julho, articula documentos reais, pesquisas de campo e testemunhos para debater como o patriarcado molda as relações afetivas e atravessa diferentes gerações e classes sociais.

O ponto de partida da dramaturgia, criada por Raíssa Gregori e Alexandre Dal Farra, foi a descoberta de cartas reais de um processo de divórcio na classe média alta paulistana, na década de 1980. Para a diretora Raíssa Gregori, trazer esse recorte temporal é fundamental para entender a própria existência da mulher na sociedade brasileira.

“Até 1977, os casais não tinham o direito de se divorciar. Quando a gente fala em ‘casais’, a gente está falando da mulher, porque toda a estrutura do matrimônio, a própria palavra, mater, anuncia a diferença de condição para uma mulher quando ela se casa, não para um homem”, explica Raíssa Gregori em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato.

Para Gregori, que também dirige o espetáculo, a Lei do Divórcio foi o marco que permitiu à mulher “existir na sociedade para além da instituição do casamento”.

Do documento ao palco

A peça transita entre a ficção e o testemunho real. Além das cartas da década de 1980, a pesquisa envolveu mais de dois anos de entrevistas com psicanalistas, advogados, mulheres acolhidas em centros de referência e homens que participam de grupos reflexivos previstos pela Lei Maria da Penha.

A proposta do espetáculo é enfrentar o paradoxo brasileiro: embora o país tenha uma legislação de proteção à mulher bastante sofisticada, que se moderniza constantemente, como a recente derrubada da tese da “legítima defesa da honra”, a tradição cultural machista ainda resiste.

“O Brasil é um país que tem uma legislação quanto à violência contra a mulher já bastante evoluída. É a nossa tradição cultural que ainda não seguiu a nossa legislação”, pontua a diretora.

Papel dos homens

Em cena, dois personagens masculinos tentam compreender seus próprios comportamentos em uma sociedade machista. Segundo Raíssa, o feminismo precisa ser uma pauta assumida também pelos homens, pois não há possibilidade de “separação” em uma sociedade em que as violências ocorrem entre amores, parentes e amigos.

“A gente tem os agressores achando que não são culpados e as vítimas se sentindo culpadas. A conta não fecha. A mensagem da peça é que a gente precisa aprender a amar melhor”, reflete a atriz.

Ao incorporar vozes como as do livro “Melhor não contar” (2024), de Tatiana Salem Levy, e relatos da coletânea “Histórias de Marias”, o espetáculo busca desconstruir a ideia de que a violência de gênero é um fenômeno estritamente biológico ou privado. “O que nos une enquanto gênero é justamente estarmos passíveis de desigualdades e diferenças de gênero”, conclui Gregori.

Serviço:

Espetáculo: Divórcio
Temporada: 3 a 26 de julho de 2026
Horários: Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h (em dias de jogos da Seleção Brasileira, o espetáculo será transferido para a quinta-feira seguinte)
Local: Complexo Cultural Funarte SP (Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos, São Paulo)
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), disponíveis na plataforma Sympla
Duração: 90 minutos | Classificação: 12 anos

Para ouvir e assistir

É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.