Por Diego dos Santos Reis*
Os corpos tombaram no asfalto antes mesmo que a notícia alcançasse as famílias. Ele, 18 anos, mecânico; ela, 17 anos, estudante de enfermagem. Moradores da periferia de João Pessoa, voltavam para casa quando um tiro de fuzil 5.56 atingiu o piloto da moto na cabeça. Era o fim do ano de 2024 e o ritual já é amplamente conhecido: estampidos, correria, sirenes, medo, silêncio.
A versão inicial da Polícia Militar dava conta de um acidente de trânsito, após fuga de uma blitz em alta velocidade. Mas, naquela noite, Ana Luiza Bandeira e Guilherme Pereira Rodrigues foram executados, conforme evidenciaria o laudo do Instituto de Polícia Científica (IPC) da Paraíba. A bala do fuzil, que entrou pela nuca de Guilherme, saiu pela testa. A colisão fatal em um poste também vitimaria sua namorada, após o impacto do tiro no corpo do condutor, que pilotava a 10 km/h.
Silêncio.
Nas horas seguintes, os nomes dos jovens seriam reduzidos a mais um número nas estatísticas da violência do/de estado. Negros, pobres, periféricos. Um perfil que, na Paraíba e no Brasil, aparece repetidamente nos mapas da morte e na geografia da execução sistemática da população negra. Mapas de não retorno.
A história dos jovens não é exceção. Ela reflete, sistematicamente, os modos de operação que, de norte a sul, seguem aniquilando famílias inteiras, sonhos e possibilidades de vida digna. O Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que a violência letal na Paraíba continua profundamente racializada.

Embora o estado tenha registrado redução de 35,6% na taxa geral de homicídios em relação a 2014, os dados mostram um recrudescimento recente da violência: entre 2019 e 2024, houve aumento de 8,4% nos assassinatos. Em 2024, a taxa paraibana chegou a 25,7 homicídios por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 20,1.
Mas é quando os números ganham cor que o retrato da violência se torna ainda mais brutal e ostensivo. Na Paraíba, pessoas negras têm 5,5 vezes mais chances de serem assassinadas do que pessoas não negras, cifra que explicita uma das maiores disparidades raciais do país, atrás apenas dos estados de Alagoas, Amapá e Sergipe. Os dados, repito, não revelam apenas desigualdades sociais: revelam uma geografia racial da morte.

Por isso, o Atlas desmonta a ideia de que a violência atinge igualmente a todas as pessoas. Não atinge. Ela acomete de modo mais insidioso territórios, corpos e perfis específicos, como de Guilherme e Ana Luiza sobre a moto, “suspeitos até que se prove o contrário”. A população negra, assim, concentra majoritariamente as vítimas da violência letal no estado.
Em 2024, a Paraíba registrou 925 homicídios de pessoas negras. Ainda que o número represente redução de 31,1% em comparação com 2014, houve aumento de 8,4% em relação a 2019. A curva recente indica que a morte “matada” voltou a crescer justamente onde nunca deixou de desaparecer: territórios de extermínio, onde as operações policiais e as execuções sumárias fazem parte do terror cotidiano.
Há algo de perversamente revelador no fato de que o risco de vitimização por homicídio aumente quanto mais escura é a pele e menor a renda. O racismo brasileiro, já dizia Kabengele Munanga (2016), é um crime perfeito. Ele organiza o acesso à cidade, à escola, ao emprego, à proteção estatal e, sobretudo, à possibilidade de permanecer vivo, em contexto de distribuição desigual da violência letal. Algumas vidas são mais protegidas; outras, permanentemente mais expostas ao risco. Porque o racismo define quem será alvo preferencial da violência policial e quem pode ser convertido em estatística antes mesmo de alcançar a vida adulta.
Não é à toa que a juventude negra é o epicentro dessa engrenagem. Em 2024, a taxa de homicídios juvenis na Paraíba chegou a 53,1 por 100 mil jovens, uma das mais altas do Brasil. Entre jovens de 15 a 29 anos, foram 510 assassinatos apenas em 2024, aumento de 15,6% de 2019 a 2024, sendo 480 homens. E o país naturaliza a morte de jovens negros como parte da paisagem social, como se determinadas vidas já nascessem fadadas à descartabilidade, seja pela via da bala de fuzil, ou pela não assistência que, do nascer ao morrer, tinge de preto e vermelho as vielas, as quebradas, grotões e covas rasas pelo país.
As periferias paraibanas convivem, há décadas, com a combinação explosiva entre precarização urbana, seletividade penal e militarização cotidiana da pobreza. A juventude negra aparece, simultaneamente, como vítima preferencial da violência e como alvo prioritário do aparato repressivo, que não poupa nem as crianças. A lista de nomes e identidades é vasta. Se você não conhece alguém, tem o privilégio, de algum modo, de ser blindado(a) de uma das faces do terror de Estado, que, não raro, chega a esses territórios apenas pela força do aparato policial. As operações marcadas pela espetacularização, por execuções sumárias e abordagens racialmente orientadas evidenciam a presença violenta, constante e seletiva do poder punitivo, onde a garantia de direitos e as políticas públicas sociais estão, de outro lado, ausentes.
Os dados municipais, por sua vez, ajudam a compreender essa distribuição territorial da violência. João Pessoa apresentou taxa estimada de 26,6 homicídios por 100 mil habitantes, em 2024. Patos registrou taxa de 26. Já Campina Grande, apresentou índice menor, de 8,2 homicídios por 100 mil habitantes. Em que pese a subnotificação, as falhas na produção de dados e a ausência de tipificação adequada, as diferenças revelam que a violência não é homogênea, mas acompanha desigualdades raciais, territoriais e econômicas profundamente enraizadas no estado.
O discurso público, todavia, continua insistindo em vias exclusivamente repressivas e mais rentáveis “politicamente”, diante dos anseios de higienização racial e da percepção de que matar os suspeitos se converteria em uma vida melhor aos/às pretensos/as “cidadãos/ãs de bem”. Mais policiamento, mais encarceramento e endurecimento penal, ressoa o coro dos descontentes. Como se fosse possível dar conta desse cenário apenas com a ampliação de mecanismos de punição. O próprio Atlas demonstra o contrário: quando políticas de segurança não contemplam justiça racial, a violência segue renitente, mirando nos mesmos alvos. A violência letal, desse modo, é a face mais nefasta de um sistema contínuo de negação de direitos e distribuição desigual da morte.
Por isso, enfrentar a violência na Paraíba exige mais do que reduzir números. Exige romper com as condições históricas que transformaram a morte negra em elemento cotidiano da sociedade paraibana – e brasileira. Isso implica combater a letalidade policial, investir em proteção comunitária e implementar formação antirracista nas instituições públicas. Implica também reconhecer que segurança pública sem combate ao racismo produz apenas segurança seletiva, pois o racismo não é um efeito colateral da sociedade brasileira. Ele é um dos seus principais organizadores. E enquanto o país continuar tratando a morte negra como rotina estatística, histórias de vida como a de Guilherme e Ana Luiza continuarão sendo interrompidas à queima-roupa.
Para saber mais
ATLAS DA VIOLÊNCIA. [livro eletrônico] / Daniel Cerqueira; Samira Bueno (coord.). et al. São Paulo: Ipea; FBSP: 2026.
MUNANGA, Kabengele. “Racismo é dupla morte”, diz Kabengele Munanga. Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Entrevista disponível aqui.
REIS, Diego dos Santos; STANCHI, Malu. As chacinas como tecnologia de governo no Brasil. InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais, Brasília, Pré-publicação, p. 1-20, 2025.
*Diego dos Santos Reis é professor da UFPB e membro/Pesquisador do Neabi/UFPB. Lidera o Travessias − Grupo de Pesquisa em Filosofia e Educação Antirracista (UFPB/CNPq).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.