‘Bateria social esgotada’: a espera de trabalhadores pelo fim da escala 6×1

Por Paula Bianchi03/07/2026 às 08:230 visualizações
“Só tenho quatro folgas ao mês”, diz o garçom Anderson Santos, que se ressente do pouco tempo que tem para ficar com a sua família. (Foto: arquivo pessoal/Anderson Santos)
“Só tenho quatro folgas ao mês”, diz o garçom Anderson Santos, que se ressente do pouco tempo que tem para ficar com a sua família. (Foto: arquivo pessoal/Anderson Santos)
Reporter Brasil

DEPOIS DE PASSAR oito horas atendendo mesas, indo de lá para cá e falando com as mais diversas pessoas, Anderson Santos sai do trabalho exausto. Ele vai para casa encontrar a esposa e a filha, mas sua “bateria social” está esgotada. “Você não quer falar com ninguém”.

O garçom é um dos cerca de 15 milhões de brasileiros com carteira assinada que trabalham na chamada escala 6×1, segundo estimativa do governo federal. “Só tenho quatro folgas ao mês”, diz Anderson, ao comentar o pouco tempo que consegue dedicar à filha. 

Aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/2019 prevê o fim da escala 6×1 ao garantir dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução salarial. O texto também propõe reduzir a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais — medida que pode afetar 38 milhões de trabalhadores. Se aprovada, as mudanças devem ocorrer de forma escalonada, em até 14 meses após a promulgação.

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Agora, a proposta aguarda ser encaminhada para tramitação no Senado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Enquanto isso, a Repórter Brasil foi ouvir quem será diretamente impactado pelas mudanças: os trabalhadores. 

Assim como Anderson, a atendente telemarketing Mariana* trabalha na escala 6×1. Ainda que em um regime menor de horas — a legislação prevê um máximo de 36 horas de trabalho por semana para a função —, faz 15 anos anos que ela sai de casa para trabalhar de segunda a sábado. 

“Só tenho quatro folgas ao mês”, diz o garçom Anderson Santos, que se ressente do pouco tempo que tem para ficar com a sua família. (Foto: arquivo pessoal/Anderson Santos)
“Só tenho quatro folgas ao mês”, diz o garçom Anderson Santos, que se ressente do pouco tempo que tem para ficar com a sua família. (Foto: arquivo pessoal/Anderson Santos)
“Só tenho quatro folgas ao mês”, diz o garçom Anderson Santos, que se ressente do pouco tempo que tem para ficar com a sua família. (Foto: arquivo pessoal/Anderson Santos)

Mãe solo, Mariana lamenta ter perdido momentos importantes do crescimento da filha, hoje com quatro anos. “O dia a dia vai passando e você vai perdendo pequenos detalhes. No final do ano você fala: ‘Nossa, ela aprendeu isso e não fui eu que ensinei’.”

A procura de uma pessoa para cuidar da filha, para compensar sua ausência, tornou-se mais um problema. “Você junta cuidador, convênio médico, aluguel da casa, conta de água, luz, telefone, internet e alimentação. Com um salário mínimo, você não consegue pagar”, diz. 

Mais da metade dos trabalhadores com carteira assinada no Brasil têm jornadas acima de 41 horas semanais. São cerca de 38 milhões de pessoas, de um total de 58 milhões celetistas, ou seja, mais de 60% da força de trabalho formal.

Entre as profissões mais afetadas pela possível redução da jornada semanal e pelo fim da escala 6×1 estão vendedores e prestadores de serviços do comércio, trabalhadores de atendimento ao público e pessoas que trabalham na fabricação de alimentos, bebidas e fumo.

É o caso de Gildo Júnior, que trabalha de atendente no Outback de segunda a sábado, das 17h30 até 00h30, com variações nos dias mais movimentados. O pouco tempo de lazer, somado à carga de trabalho, que envolve passar muito tempo em pé e carregando peso, se reflete também na sua saúde, tanto física quanto mental. 

“Tento treinar, mas não consigo porque estou muito cansado do atendimento, é um ambiente que mexe muito com o psicológico”, diz. “Chego tarde, quero dormir, ao invés de ter que acordar muito cedo pra poder fazer terapia, que acabei cancelando por isso.”

O regime de trabalho interfere também em sua vida pessoal, já que o namorado trabalha na escala 5×2. “Não posso viajar com meu namorado no final de semana porque eu estou trabalhando.” 

Já Letícia França bate ponto de segunda a sábado, das 8h às 17h30, como auxiliar administrativa em uma empresa distribuidora de cimento. Mãe, ela reveza os cuidados dos dois filhos com o marido, que trabalha no turno contrário. “Ainda bem que eu tenho meu marido, que trabalha à noite. Eu chego, ele sai e a gente quase não se vê por isso, né?”

Ela reclama que o período de descanso não é suficiente para conciliar atividades domésticas com lazer. “Se eu for viajar de final de semana, acabou, não tenho tempo para fazer nada em casa. Ou ao contrário, se eu fico em casa e deixo de sair para cuidar dos afazeres, eu não consigo ter lazer.”

O vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende o fim da escala 6×1, em reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Em entrevista à Repórter Brasil, Azevedo destaca que a mudança vai além de trazer descanso aos trabalhadores
O vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende o fim da escala 6×1, em reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Em entrevista à Repórter Brasil, Azevedo destaca que a mudança vai além de trazer descanso aos trabalhadores
O vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende o fim da escala 6×1, em reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Em entrevista à Repórter Brasil, Azevedo destaca que a mudança vai além de trazer descanso aos trabalhadores

Em entrevista à Repórter Brasil, o vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) ex-balconista e um dos líderes pelo fim da escala 6×1, destaca que a mudança vai além de trazer descanso aos trabalhadores.  

“A gente vai trazer o direito da mãe ser mãe por completo, do pai ser pai por completo, do jovem poder ser jovem, poder estudar, se divertir, curtir a sua arte, poder se sentir gente. Então é uma luta para o ser humano ter direito à vida além do trabalho”, resume Azevedo, hoje pré-candidato a deputado federal.

Ele também se contrapõe à ideia de que a mudança seria negativa para a economia do país. “A classe trabalhadora descansada, a classe trabalhadora tendo ali mais tempo, conseguindo esse direito ao tempo, vai consumir mais. As pessoas esquecem que o trabalhador também é consumidor”, afirma.

* Nome alterado a pedido da fonte, que teme retaliações no ambiente de trabalho.

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