Como estreante em uma Copa do Mundo, Cabo Verde transformou a campanha da seleção em um momento de afirmação nacional. O país africano formado por um arquipélago no Oceano Atlântico disputa pela primeira vez o principal torneio do futebol e chega à fase de 16-avos de final para enfrentar a Argentina nesta sexta-feira (3). Para o presidente José Maria Neves, a trajetória dos Tubarões Azuis reforça a identidade de uma nação que busca ampliar sua presença no cenário internacional.
Antes do confronto, Neves afirmou que a participação na Copa representa uma oportunidade para o mundo conhecer melhor Cabo Verde. Segundo o presidente, a seleção simboliza a capacidade do país de superar desafios e pode fortalecer a imagem de uma nação marcada pela paz, pelo desenvolvimento e pela diáspora.
“Nós somos um Estado oceânico, um grande Estado oceânico, e o fato de sermos os Tubarões Azuis acaba por ressignificar a nação cabo-verdiana. E esta presença mostra a grandeza do país, mas, sobretudo, o caráter, a resiliência, a capacidade de superar todos os limites, e vai abrir novas possibilidades e novos caminhos na construção deste grande Cabo firme”, disse em entrevista produzida em parceria entre a teleSUR e a TV Brasil.
Neves disse ainda que a maioria da população de Cabo Verde, antes da estreia da seleção do país, costumava torcer pela seleção brasileira em Copas do Mundo e destacou os laços históricos e culturais entre os dois países. “Nós há muito tempo já descobrimos o Brasil, e é bom que esta Copa faça com que o Brasil redescubra Cabo Verde. Mas, mais do que isso, que o mundo redescubra Cabo Verde”, afirmou.
Ao comentar a campanha da equipe, o presidente contou que viveu a estreia da seleção de forma diferente de qualquer outra partida de futebol. Depois do empate com a Espanha, Neves foi ao vestiário para cumprimentar jogadores e comissão técnica e encontrou um grupo tranquilo e confiante. Para Neves, essa postura explica a capacidade de Cabo Verde de fazer história em sua primeira participação no Mundial.
Confira a entrevista na íntegra
TeleSur: Qual é a importância dessa seleção e como está vivendo o seu país nesse momento com essa participação tão bonita dos Tubarões Azuis, da seleção de Cabo Verde, na Copa do Mundo?
José Maria Neves: Esta seleção é a redescoberta de Cabo Verde. Na verdade, nós somos um Estado oceânico, um grande Estado oceânico, e o fato de sermos os Tubarões Azuis acaba por ressignificar a nação cabo-verdiana. E esta presença mostra a grandeza do país, mas, sobretudo, o caráter, a resiliência, a capacidade de superar todos os limites, e vai abrir novas possibilidades e novos caminhos na construção deste grande cabo firme.
O senhor está assistindo ao jogo; o que é que passa na sua cabeça? Assiste tranquilo ou o senhor é daqueles mais nervosos vendo futebol?
Eu sempre, até hoje, assistia aos jogos tranquilamente. Todos os jogos das minhas equipes preferidas ou da seleção nacional. Eu vi a seleção se classificar para a Copa do Mundo. Mas agora eu fui a Atlanta ver o jogo de abertura, estava com o coração na mão, extremamente nervoso, e nunca tive um sentimento dessa grandeza; foi simplesmente transcendental.
O senhor, que acompanhou esses meninos gigantes que estão fazendo história, como é que eles estão nos bastidores? Como é o sentimento deles lá?
Quando terminou o jogo em Atlanta, o primeiro jogo, depois do empate com a Espanha, eu desci ao balneário para cumprimentar a equipa técnica e os jogadores. Eu estava ainda com o coração na mão, extremamente excitado, e, quando cheguei, o Bubista, o treinador, me recebeu à porta com uma serenidade, uma tranquilidade, um sorriso.
Os jogadores também estavam muito tranquilos, muito serenos, brincando, e percebi que os Tubarões Azuis estavam muito bem preparados e com uma liderança muito forte para participar nesta grande competição do futebol mundial.
Qual a importância dessa seleção, desse jogo e dessa Copa do Mundo para que o mundo conheça Cabo Verde?
Sabe uma coisa? O cabo-verdiano é muito amigo do Brasil. A maioria dos cabo-verdianos acho que torce pelo Brasil na Copa do Mundo. E desta vez temos a nossa própria seleção. Nós, há muito tempo, já descobrimos o Brasil, e é bom que esta Copa faça com que o Brasil redescubra Cabo Verde. Mas, mais do que isso, que o mundo redescubra Cabo Verde como um país onde há humanidade, onde há paz, onde há amizade e não há violência.
Nesta nossa região, Cabo Verde é o país onde nunca houve um golpe de Estado. É um país onde há uma ânsia enorme de desenvolvimento, mas um país onde fazemos o nosso trabalho de casa. E Cabo Verde cresceu, se afirmou, se desenvolveu. Digamos que Cabo Verde é a África positiva, a África que quer se afirmar, e é bom que o mundo saiba que a África não é só guerra, não é só maldade, não é só doença. A África é também desenvolvimento e outra humanidade. Então, acho que essa descoberta é muito importante para nós, cabo-verdianos, para a África e para o mundo.
Presidente, falando ainda de Brasil e Cabo Verde, o senhor estudou no Brasil. Qual a importância da relação entre os nossos países, para além da relação política em geral, mas essa relação mais próxima de cooperação?
Ela é extraordinária. Nós, no Brasil, nos sentimos em casa. E há muita coisa em comum entre Cabo Verde e o Brasil: a música, a forma de ser, de estar. Há um poeta cabo-verdiano, Jorge Barbosa, que compara Cabo Verde e o Brasil, um poema lindíssimo em que ele diz que, afinal, somos iguais. E há uma música em que se diz que Cabo Verde é um Brasilzinho, que Cesária canta.
Na verdade, o presidente Lula veio cá e eu disse ao presidente que o Brasil era um Cabo Verde grande, porque há tantas coisas em comum. Eu, quando cheguei a São Paulo, uma grande cidade completamente diferente do ponto de vista cívico e físico, quando a gente sai pelas ruas, chega a um sambão, se percebe que há uma grande identidade. É uma grande comunhão entre Cabo Verde e o Brasil.
Quando se ouve a música brasileira, nos identificamos imediatamente. Eu me identifico com os apóstolos da música brasileira: Caetano, Djavan, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal, Bethânia, Elba Ramalho, etc. Então, há essa grande musicalidade que “nos hermana”. Mas também, quando eu leio “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e leio “Chuva Brava”, de Manuel Lopes, há uma grande similitude entre as escritas e os temas que são debatidos. Ou então quando leio Manuel Bandeira e leio Jorge Barbosa. Há tantas coisas em comum, e se vejo José de Alencar ou se vejo Machado de Assis, também eu me identifico com vários daqueles assuntos, dos temas que são abordados.
Há tanta coisa em comum, não é só futebol, não é só música, não é só literatura, é a forma também de ser e de estar. E, portanto, eu posso dizer que os melhores tempos da minha vida foram quando eu estudei no Brasil e fiz a minha formação.
Uma coisa que a gente ouviu muito aqui foi a palavra “morabeza”. O que é morabeza?
Um brasileiro, que estava querendo decifrar o que é morabeza, disse que é amor à vez. É esse sentimento de recepção, amizade, de profunda identificação com o outro, de comunhão. E essa simplicidade que identifica aquele que é tolerante, que aceita o outro e que considera que a diferença não pode fragmentar, mas criar espaços de união. A ideia é esse humanismo do cabo-verdiano, que se expressa na palavra morabeza.
O senhor comparou a seleção com a questão da independência daqui. O português é a língua oficial aqui, os atos públicos se fazem nela, mas o dia a dia é em crioulo. Qual a importância desse idioma para o seu povo?
O crioulo é um marco identitário cabo-verdiano. É um povo que criou uma língua para poder se comunicar e se afirmar. Aqui, quando os portugueses chegaram, não havia ninguém. As ilhas eram desertas e vieram os europeus, vieram os escravos da costa ocidental africana, migrantes, e deram origem ao cabo-verdiano, e tiveram que criar a sua própria língua. Então, nós somos uma nação crioula.
Neste primeiro momento do nascimento de Cabo Verde e dos cabo-verdianos enquanto nação, foram momentos dolorosos, com muita violência, com muito sofrimento. Mas o mais importante é que conseguimos superar e reinventar uma sociedade.
E a violência não é apenas humana. Cabo Verde também é marcada por uma natureza muito agreste. Tivemos fomes, tivemos secas, tivemos mortandades e tivemos que sair pelo mundo à procura de melhores condições de vida. E, pronto, nós, que somos emigrantes antes de sermos cabo-verdianos, depois da nossa condição de cabo-verdianos, também partimos para o mundo.
Então, a nação cabo-verdiana, esta nação crioula, africana, atlântica, resulta desses momentos dolorosos, de sofrimento, mas também de superação, de reinvenção. E a nossa língua é prova dessa nossa capacidade de superar, de reinventar uma sociedade para vivermos. E, mais do que isso, a nossa sociedade é também, por causa disso, feita de gente muito forte, muito resiliente, que aceita o outro, que se abre para o diálogo, para a discussão e para a busca conjunta de caminhos para o futuro.