O Irã iniciou, nesta sexta-feira (3), as cerimônias fúnebres do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em Teerã. O funeral contará com medidas de segurança reforçadas até 9 de julho e ocorre em meio a novos alertas do governo iraniano aos Estados Unidos e a Israel sobre possíveis ataques durante o período de luto.
O corpo de Khamenei foi levado à Grande Mosalla de Teerã, um dos maiores complexos religiosos do mundo, na manhã desta sexta, e colocado no salão principal de orações. O velório público terá duração de dois dias e seguirá até domingo (5). Na segunda-feira (6), será realizado um cortejo pelas ruas de Teerã. Depois, o corpo seguirá para a cidade de Qom. Também estão previstas cerimônias em Bagdá, Karbala e Najaf, no Iraque, antes do sepultamento em Mashhad, marcado para 9 de julho.
O funeral acontece durante o mês islâmico de Muharram, período ligado ao luto no islamismo xiita em memória a Imam Hussein, considerado o neto do Profeta Maomé e reverenciado pelos muçulmanos xiitas. O caixão foi coberto pela bandeira que estava sobre o santuário de Hussein. Segundo uma publicação do governo iraniano, a bandeira é um “símbolo de resistência, sacrifício e devoção inabalável à verdade”. O velório público de sábado também coincide com as celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos.
As autoridades iranianas reforçaram a segurança para todas as etapas do funeral. A Organização de Aviação Civil informou que haverá restrições temporárias ao espaço aéreo sobre Teerã, Mashhad e outras cidades durante as cerimônias. O objetivo é ampliar a proteção dos eventos que devem reunir multidões e delegações estrangeiras.
O Corpo da Guarda da Revolução Islâmica afirmou que as cerimônias representam uma renovação do compromisso com a Revolução e declarou que as Forças Armadas permanecem em alerta militar e operacional máximo sob a nova liderança do país. O aiatolá foi assassinado em um ataque terrorista no início da guerra travada contra o Irã por Estados Unidos e Israel, e sua morte fortalecerá a determinação do país.
A Guarda também afirmou que qualquer ação hostil ou erro de cálculo estratégico dos adversários receberá uma resposta que será lembrada ao longo da história. O órgão convocou a população a participar em grande número das cerimônias de despedida, funeral e sepultamento para demonstrar apoio à liderança iraniana e enviar uma mensagem aos adversários do país.
O comandante do Quartel-General Central do Irã, Ali Abdollahi, reforçou o alerta aos Estados Unidos e a Israel. “Advertimos os inimigos do Irã, especialmente os EUA e o regime sionista (Israel), para que evitem qualquer erro de cálculo e reflitam sobre a dura retaliação que nossas forças armadas aplicariam a qualquer ameaça e agressão contra nosso país”, afirmou.
Na quarta-feira (1º), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, também afirmou que Teerã responderá de forma imediata e contundente a qualquer ameaça contra o povo iraniano ou a liderança do país. A declaração ocorreu após o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmar que Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, estava “marcado para morrer”.
Quem foi Ali Khamenei?
Ali Khamenei nasceu em Mashhad em 1939 e ocupou o cargo de líder supremo do Irã desde 1989, após a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini. Formado no estudo do Alcorão, se tornou clérigo e participou da oposição ao xá Mohammad Reza Pahlavi antes da Revolução Islâmica de 1979. Foi preso seis vezes, passou pela clandestinidade e sofreu exílio interno. Em 1981, sobreviveu a um atentado que comprometeu os movimentos do braço direito.
Durante sua liderança, ampliou sua influência sobre o Judiciário, a Guarda Revolucionária, o Parlamento, a polícia, os serviços de inteligência e os meios de comunicação.
Em seu primeiro discurso como líder supremo, afirmou ser “uma pessoa com muitas faltas e deficiências, e verdadeiramente um modesto seminarista”. Também declarou que utilizaria “todas as minhas capacidades e toda a minha fé no Todo-Poderoso para poder assumir esta pesada responsabilidade”.
Seu governo enfrentou protestos em diferentes períodos. Organizações de direitos humanos acusaram, por exemplo, as forças de segurança de usar “força letal” contra manifestantes. Khamenei respondeu afirmando que “aqueles que estão vinculados a Israel e aos Estados Unidos causaram enormes danos e mataram vários milhares”.
Na política externa, defendeu que o programa nuclear iraniano tinha fins pacíficos, enquanto governos ocidentais acusavam o país de buscar capacidade para produzir armas nucleares. Após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear em 2018, o relacionamento entre os países voltou a se deteriorar.
Khamenei era casado com Mansoureh Khojasteh Baqerzadeh e tinha seis filhos. O segundo deles, Mojtaba Khamenei, assumiu a liderança suprema do país após a morte do pai.