Bem-vindo à Molgóvia

Por Carlos Castelo03/07/2026 às 11:570 visualizações

Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.

Visitei a Rússia ano passado. Aluguei um carro e me embrenhei por estradinhas perto da fronteira com a Noruega. Nem é preciso dizer que o frio era abissal. Cansado de dirigir, vi um posto de fronteira. Li numa placa: “Bem-vindo à Molgóvia”. Nunca ouvira falar daquela nação. Mas a vontade de comer algo quente me fez pedir para entrar. Minutos depois estava entrando num restaurante esfumaçado.

Mal entrei, um sujeito enorme me acenou. Tinha um bigode espetacular, casaco de pele que podia abrigar uma família e uma expressão de euforia incompatível com aquela friaca.

— Sente-se aqui, estrangeiro, e vamos brindar! Hoje é um grande dia! — anunciou.

— Ah, é?

— Começou nossa campanha eleitoral!

— E isso te deixa tão feliz assim?

— Feliz e faminto! — respondeu, batendo os punhos na mesa. — Meu nome é Borislav, cidadão da República de Molgóvia. E, pelos próximos quarenta dias, vou poder comer sem parar.

Pedi uma sopa de beterraba.

— Desculpe, mas qual é exatamente a relação entre eleição e comida?

— Toda.

Ele se inclinou e me deu detalhes:

— Em Molgóvia, o governo é escolhido no Grande Festival Nacional de Receitas. Cada partido apresenta um prato. O povo prova e vota no mais saboroso.

— Então vocês fazem debates culinários?

— Debates são proibidos. Descobrimos, há séculos, que as pessoas mentem melhor do que cozinham.

O argumento fazia sentido.

— O PEP — Partido do Ensopado Patriótico — governa há vinte anos — ele me explicou. Mas, este ano, o PVR — Partido do Vareniki Reformista — está mais forte.

— E os programas de governo? Economia, saúde, educação?

Borislav franziu a testa.

— Programas? Bom, isso vem depois. Primeiro precisamos saber quem cozinha melhor.

— E se o prato vencedor for péssimo para administrar o país?

— Acontece. Mas pelo menos almoçamos e jantamos muito bem.

Era uma lógica difícil de contestar.

A sopa chegou, encarnada e fumegante.

— Então a campanha consiste em cozinhar?

— Exatamente. Durante quarenta dias, todas as praças viram restaurantes. Os candidatos distribuem porções de graça, as famílias discutem receitas, especialistas analisam tortas na televisão. E, claro, há escândalos de especiarias ilegais.

— Especiarias ilegais?

— Nunca ouviu falar do “Caso da Páprica Eleitoral”, de 1997? Derrubou três governos. Um ministro contrabandeou páprica húngara para turbinar o molho. Uma vergonha nacional!

— Nossa.

— O melhor — ele continuou — é que ninguém briga por ideologia. Ninguém chama ninguém de comunista, fascista, essas coisas.

— E você? Já escolheu em quem votar?

— Ainda não. Estou experimentando todos os partidos

— E qual parece melhor?

— Não faço ideia. Ontem comi quatro sobremesas governistas e um estrogonofe de oposição extraordinário.

— Então você vota… pelo sabor?

— Como qualquer cidadão responsável.

Paguei a conta e me despedi de Borislav.

No hotel, pensei naquele sistema em que um frango à Kiev podia decidir o futuro de um governo. Nenhuma pesquisa, nenhum marqueteiro, nenhuma promessa mirabolante.

Enquanto me aquecia nas cobertas, tentei decidir se aquilo era uma democracia genial ou uma loucura completa. Foi quando me lembrei de alguns embates políticos no Brasil. E logo concluí: pensando bem, talvez a Molgóvia não fosse tão diferente daqui.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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