Mais de 550 pessoas, entre brasileiros residentes, descendentes e cidadãos chineses, participaram da terceira edição da Festa Junina de Pequim, organizada pelo Conselho de Cidadãos Brasileiros da capital. O evento integra o Ano Cultural Brasil-China, que desde 2025 tem levado ao país asiático artistas, músicos, filmes e exposições.
No mesmo evento, a editora Chaohua instalou um estande com a edição em mandarim de “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, lançada em abril com apoio dos dois governos, e saiu com 35 exemplares vendidos.
As barracas montadas para a ocasião entregaram um cardápio brasileiro: o restaurante Latina, cujo chef Luis Enrique Ribeiro venceu a competição 2025 da That’s Beijing, serviu sanduíches de picanha e linguiça, pão de queijo e curau. A Ju Homemade levou brigadeiro, cocada, bolo de milho e pamonha.
A festa coincidiu com o período do Festival do Barco do Dragão, celebrado nesta mesma época na China com o consumo de zongzi, um bolinho de arroz cozido em folha de bambu que os organizadores comparam à pamonha. “Eu acho bem legal mostrar para o chinês que a cultura brasileira não é tão distante da cultura dele”, disse Rafael Zerbetto, membro do Conselho e um dos organizadores. No palco, um grupo multicultural de dança, liderado por Liu Xiaoyan e formado majoritariamente por dançarinos chineses, apresentou samba.
A maioria dos presentes era chinesa. “O que vem mais aqui para conhecer são os chineses”, afirmou William Guey, doutorando em engenharia de produção na Universidade Tsinghua e integrante do Conselho de Cidadãos Brasileiros. Para Judy Chen, intérprete e tradutora chinesa casada com brasileiro, a festa cumpre uma função prática: “É uma desculpa para a gente se encontrar com amigos brasileiros e também com amigos chineses que têm interesse sobre a cultura do Brasil. Vai desenvolver mais relações entre os dois países“.
A Tsinghua tem hoje 38 alunos brasileiros matriculados no campus de Pequim, o maior contingente de sua história, segundo Guey, que também atua no apoio à admissão de estudantes internacionais na universidade. “Em Pequim agora não é só diplomata e empresário. Tem muito mais acadêmico, tem muito mais artista”, afirmou. Com a isenção mútua de vistos entre os dois países, o fluxo empresarial também cresceu: Guey disse ter observado mais de dez excursões de empresas de diferentes setores visitando a capital nos últimos meses.
Zhao Qian, diretora do Primeiro Centro Editorial da Chaohua, disse que a reação mais comum dos leitores desde o lançamento do livro em abril é de reconhecimento: “O livro ajudou eles a entenderem a alma do Brasil, os elementos culturais mais profundos do país, e eles se reconheceram nesses elementos.” Para ela, Ribeiro é “um dos grandes pensadores do Brasil” e “um profundo conhecedor da alma brasileira”. “Ao participar de um evento assim, sentimos que realmente entramos na cultura brasileira”, disse.
Motor de arranque
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, disse durante visita a Xangai, em maio, que o objetivo do Ano Cultural Brasil-China não é promover artistas, mas “abrir um mercado” para que a arte brasileira seja consumida de forma regular na China. Zerbetto retomou o ponto: “Isso não pode ficar como algo isolado. Esse tem que ser só o motor de arranque, pra depois você fazer a coisa continuar se movendo por si mesma”, afirmou.
Para o gerente comercial Daniel Chen, “chineses e brasileiros têm histórias semelhantes de defender a independência de colônia ocidental”. “Os brasileiros também estão lutando pela vida melhor, pela vida com mais dignidade e liberdade”, afirmou.
“Eu acredito que o brasileiro que vier para cá vai amar a China. Desejo que, no futuro, possamos ter mais brasileiros que venham para cá para conhecer a China pelos olhos deles”, acrescentou.
Judy Chen observa que o movimento já acontece nos dois sentidos: “Cada vez tem mais brasileiros vindo para cá viajar, conhecer a história da China. E os chineses também têm muito interesse em conhecer o Brasil’, disse. “Cada vez vai ter mais chineses viajando para o Brasil.”