Entre tigrinhos e tigrões, palanque de Flávio balança no Rio

Por Marina Amaral03/07/2026 às 20:001 visualizações
Agencia Publica

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui

Depois de se queimar com o caso Vorcaro e tomar uma lavada da madrasta em seguida, Flávio Bolsonaro enfrenta agora o dilema de equilibrar o palanque de sua campanha no Rio entre a tentativa de evitar novos bombardeios à sua reputação e manter as alianças que sustentam o bolsonarismo em seu berço político.  

Não é tarefa fácil, até porque as digitais do candidato a presidente do PL estão também onde não deviam estar na cumbuca que mistura governo, polícia e crime no Rio de Janeiro. 

Nesta semana, o nome do senador Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL no Senado e articulador da campanha de Flávio, apareceu em uma investigação da PF sobre desvio de cota parlamentar. Um golpe e tanto para o candidato. 

Sóstenes também era visto como opção para substituir a candidatura ao Senado de Cláudio Castro (PL-RJ), que além de envolvido até a medula no caso Master, para quem entregou o dinheiro de fundo de previdência do Rio, é acusado de favorecer a Refit, empresa de Ricardo Magro, o maior sonegador do Brasil, e suspeito de ligação com o PCC

Ricardo Magro, aliás, foragido nos Estados Unidos, foi denunciado pelo presidente Lula a Donald Trump, antes da tal da decretação das facções criminosas como terroristas, que até agora parece ter parido um ratinho em termos de investigação enquanto de fato demarca a invasão da nossa soberania. 

Seria interessante que os investigadores americanos conhecessem melhor a história de Cláudio Castro, até outro dia um dos articuladores do palanque de Flávio no Rio. Foi mandado para escanteio, depois que se tornou “radioativo”, como dizem os políticos, mas há rastros comprometedores nas indicações que Flávio fez para as secretarias de Castro. 

A pedido de Flávio Bolsonaro, Castro recriou a Secretaria do Consumidor para acomodar seu indicado, Gutemberg Fonseca, ex-árbitro de futebol, publicitário, velho amigo e articulador político do clã, que também havia ocupado cargos no governo estadual nesta e em outras gestões, sempre por indicação de Flávio. Mesmo depois de acusado de ter recebido um líder do CV, o Índio do Lixão, Gutemberg se manteve no cargo até sair para fazer campanha a deputado federal neste ano.

Mas deixou outro petardo no caminho de Flávio, o advogado Alessandro Carracena, que curiosamente deixou o cargo de secretário de esportes para se tornar subsecretário de Gutemberg. À polícia, Carracena confirmou a reunião de Gutemberg com o traficante. Depois foi preso na operação “Unha e Carne” da PF, a mesma que deteve o presidente da Assembléia Legislativa, Rodrigo Bacellar, por ter avisado ao ex-deputado TH Jóias, ligado ao CV, de uma operação da Polícia Federal. O que não deixa de ser um novo risco, dada a possibilidade de delação

Embora sempre tenha negado a relação com Índio do Lixão, o personagem reapareceu na campanha de Gutemberg deste ano, apoiada por Flávio, quando seu coordenador de campanha, Marcos José Menezes, foi acusado de ter feito uma nomeação na secretaria chefiada por Gutemberg a pedido do traficante no segundo semestre do ano passado. 

Se a relação dos Bolsonaro com a milícia já era conhecida, uma relação com o CV pareceria mais comprometedora para o seu eleitorado. Até porque, embora tenham sido poupadas da classificação de terroristas pedida por Flávio a Trump, milícias e tráfico se confundem cada vez mais no Rio de Janeiro, com as extorsões características da milícia imitadas pelas facções, e o tráfico cada vez mais presente em regiões da milícia. 

Em fevereiro deste ano, Castro também foi peça-chave para fechar outra aliança importante para Flávio Bolsonaro, em uma região fundamental para o clã, a baixada fluminense. Em Nova Iguaçu, onde Jair Bolsonaro obteve um de seus recordes de votação nas eleições de 2022 – 63% do total – conhecida pela dominação das milícias, Flávio estava estremecido com um poderoso cacique local, o médico e deputado Dr. Luizinho (PP-RJ). 

Ex-secretário de saúde de Nova Iguaçu, e duas vezes na pasta de saúde estadual, primeiro na gestão do governador Pezão, depois na de Cláudio Castro, Luizinho foi exonerado em 2023 na esteira de uma série de contratos ilegais na Fundação Saúde e depois apanhado em um escândalo ainda mais grave: a contaminação de seis pacientes por HIV depois de transplantes realizados sob responsabilidade da secretaria chefiada por ele. O laboratório contratado para realizar os exames dos órgãos a serem transplantados é de um tio do deputado do PP, e a diretora da Fundação Saúde, que contratou o laboratório, é sua irmã. 

Durante o governo Bolsonaro, o deputado entrou em conflito com Flávio ao tentar assumir o Ministério da Saúde a pedido do Centrão. Perdeu para o filho do presidente, que por sua vez foi acusado pelo ex-governador Witzel, em sessão secreta da CPI da Covid, de ser o “dono” dos hospitais federais durante o governo do pai. Além de contratos suspeitos e demissões de funcionários durante a pandemia, em alguns hospitais o domínio da milícia era tão evidente que cobrava estacionamento dos funcionários dos hospitais, como lembrou o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha. 

No início deste ano, Dr. Luizinho acabou fazendo as pazes com Flávio com ajuda de Castro e os dois fecharam a chapa para o governo do estado, com Douglas Ruas (PL), acusado de tentar dar um golpe na Alerj, candidato a governador, e o vice Rogério Lisboa (PP), ex-prefeito de Nova Iguaçu e também fiel aliado do clã Bolsonaro. 

Mas se o palanque se mantiver, o candidato pode ter que dar outras explicações para o seu eleitorado evangélico. Uma alentada reportagem da Agência Pública, apontou o Dr. Luizinho como um dos líderes da bancada das bets no Congresso – Flávio se posiciona publicamente contra as apostas online, também criticadas por pastores. 

Com o crime tão organizado, pode ser difícil para Flávio se manter longe do tiroteio e o interesse público distante de seus esqueletos no armário durante essa campanha. 

Fonte
Agencia Publica
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.