Na edição de 2026 da Copa do Mundo de Futebol, as pausas para hidratação, testadas esporadicamente em edições anteriores, tornaram-se uma obrigatoriedade, paralisando o jogo por volta dos 22 minutos de cada tempo. A justificativa das paradas é a proteção da saúde dos atletas, mas surgiram questionamentos sobre como as empresas que transmitem os jogos utilizam esse intervalo para garantir mais um período extra de publicidade.
Na visão do ex-goleiro de futebol e escritor Mário Lúcio Aranha, o universo do futebol tem se colocado cada dia mais como um espaço de comércio. “A gente sabe que é muito mais pela questão da propaganda, pelo negócio, pelo dinheiro do que justamente pela saúde física e a integridade do atleta. Então, tudo no futebol é comércio, tem que dar dinheiro. É um mundo que movimenta bilhões e bilhões. Na realidade, o jogo é o que menos importa; o que importa é estar dando lucro e fazendo sucesso.”
Racismo e futebol
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Aranha analisou também a atual seleção brasileira. Para ele, houve uma “europeização” do estilo de jogo dessa nova geração. “A gente não tem mais um jogador com característica de futebol brasileiro. Todos já saem daqui justamente porque têm características de futebol europeu. Você tinha um time competitivo como os outros, porém a individualidade sempre acabava resolvendo, definindo, decidindo alguns jogos para a seleção brasileira, coisa que não existe mais. Nós temos um time de alto nível e competitivo, mas igual aos outros.”
Aranha é referência no combate ao racismo dentro e fora dos campos. Ele próprio foi vítima de um episódio em 2014, quando jogava no Santos. Durante uma partida da Copa do Brasil, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, a torcida adversária proferiu ofensas racistas. Na sua análise, aquele episódio foi um momento de virada de chave no futebol.
“A partir daquele momento, os números de denúncias aumentaram e têm aumentado. E tem essa parceria com o Observatório da Discriminação Racial, por meio do Marcelo Carvalho, que tem acompanhado isso desde então”, disse Aranha.
Aranha, que teve a oportunidade de conviver com Pelé, comentou sobre como o Rei do futebol lidava com o racismo. Ele contextualizou que, apesar de Pelé não realizar falas diretas contra o crime, a sua existência e permanência em espaço de destaque já eram uma resistência.
“Ele não tinha um discurso mais afiado, mais agressivo, mais radical, mas a sua presença já era uma afronta, a sua presença abria portas, a sua presença foi mudando a maneira das pessoas terem orgulho. Eu sou de 1980, então peguei uma parte desse pessimismo racial gigantesco, em que a maioria dos negros tinha vergonha da sua própria cor”, recorda.
Literatura
Após se aposentar dos gramados, Aranha desenvolve agora uma carreira na literatura. Já publicou dois livros: “Brasil Tumbeiro” (2021), que apresenta uma reflexão sobre a história das pessoas negras do Brasil; e uma obra sobre o abolicionista negro José do Patrocínio, chamada “Patrocínio” (2022).
Os futuros trabalhos de Aranha devem chegar ao grande público em breve. “Já terminei um sobre Chico Rei, que está com a editora, e tem um outro que eu estou terminando, que é sobre futebol, que vai se chamar ‘Os dois lados da bola’, que é o lado de dentro, o lado de fora, o lado que as pessoas conhecem, enxergam e o lado que só quem trabalha dentro do futebol tem acesso”, comentou o escritor.
Conversa Bem Viver

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