O acordo
assinado em 26 de junho, que será a base para consolidar o cessar-fogo, dificilmente sairá do papel, como explicitou o professor de história contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (
UFRJ)
Murilo Meihy.
"Esse acordo não foi pensado para resolver um problema regional. Foi pensado para resolver o problema individual de cada um dos integrantes deste acordo. Por isso, ele nasce praticamente falido", opinou.
Meihy, que também é autor do livro "Os Libaneses", citou a baixa popularidade que ambos os líderes dos EUA e de Israel enfrentam domesticamente.
"A gente sabe, especialmente com a guerra com o Irã, [o presidente dos EUA, Donald] Trump vem enfrentando queda de popularidade gigantesca, sobretudo por conta da inflação nos Estados Unidos que vem aumentando pelo custo do combustível. E, no caso de Israel, [o premiê Benjamin] Netanyahu, desde a crise em Gaza, mais diretamente também vem sofrendo uma queda de popularidade grande dentro de Israel."
Os 14 pontos de acordo, segundo ele, atendem às expectativas dos eleitorados estadunidense e israelense sobre os rumos da guerra, cuja resolução é inviável, dado o contexto de décadas de ataques e invasões por parte de Israel e acordos fracassados.
Um dos pontos, que cita a impossibilidade de ambos os Estados processarem o outro por quebra do direito internacional ou crimes de guerra cometidos, evidencia a probabilidade de novas agressões.
"Não há garantias de que Israel não volte a cometer os excessos que comete há tantos e tantos anos em tantas décadas."
A pouca plausibilidade de vários pontos do acordo também foi destacada pelo economista libanês e professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Najad Khouri, a começar pela condição de desarmamento do grupo Hezbollah, que já negou tal possibilidade:
"É uma situação muito complexa para a gente entender ou para que o Líbano consiga ir para frente com esse acordo", disse. "Enquanto não houver confiança um no outro, não há acordo que vá perdurar [...] pode acalmar agora, mas daqui a seis, sete meses, daqui a um ano, começa tudo de novo."
Khouri concluiu que, enquanto o Estado libanês não tiver condições militares e políticas de confrontar Hezbollah e Israel, o Líbano ficará nesse "limbo entre essas duas potências que estão em disputa".
Para Meihy, a paz não é o objetivo de Israel na elaboração dessa proposta ou de qualquer outra.
"Estamos falando de um país com abundância de água potável, que é raríssimo naquela região. Não por acaso, grande parte das discussões é se Israel fica antes ou depois do rio Litani, porque Israel tem problemas de abastecimento de água. Então são várias as declarações de ministros do atual governo israelense falando que o Líbano será de Israel, que o Líbano é um território almejado pela colonização israelense."
A questão hídrica e as ambições territoriais israelenses também foram mencionadas pelo economista libanês, que citou que 6% do
território libanês foi ocupado por Israel, cerca de 10 quilômetros a partir da fronteira, além da destruição de vilarejos.
Ao elencar os sérios problemas que o Estado libanês enfrenta há anos, como falta de energia elétrica, fornecimento de água, condições precárias de infantaria, Meihy chamou o acordo de assimétrico:
"O Líbano está cedendo demais nesse acordo, inclusive isso afeta a sua própria soberania, porque à medida que ele não pode convocar a comunidade internacional para garantir, por exemplo, a sua soberania territorial, esse acordo é um acordo completamente assimétrico, e acordos assimétricos não se concretizam", avaliou Meihy.
Criado na década de 1980, o grupo é patrocinado principalmente pelo Irã, tendo influência crescente tanto militar quanto política no Líbano, com representantes do governo, comentaram ambos os entrevistados.
Cofundador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Oriente Médio (GEPOM), Khouri frisou que a guerra civil, que durou de 1975 a 1990, destruiu praticamente toda a estrutura do Líbano, e o Hezbollah acabou assumindo papéis que o Estado não conseguiu desempenhar em algumas áreas.
Embora atue à revelia do atual governo do Líbano, suas ações foram responsáveis por muitas derrotas militares que Israel teve em
solo libanês, a partir dos anos 1980, ponderou Meihy.
"Isso garantiu a soberania do Estado libanês, mas sobretudo da região sul do país. Historicamente, o Hezbollah tem uma importância estratégica fundamental. O grande problema é que, em determinado momento da sua trajetória, o Hezbollah começa a concorrer com o Estado libanês porque passa a oferecer um conjunto de serviços que o Estado libanês não consegue dar conta."
De hospitais a creches, o grupo acabou exercendo um
governo paralelo em alguns territórios de maioria xiita, que representa grande parcela da população libanesa, prejudicando a autonomia do Estado libanês e dividindo a opinião da
sociedade civil.
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