Verbete armado: doze anos de blindagem wikipediana em torno de Raimundo Colombo

Fonte: Insubornavel
Por Benito Juarez06/07/2026 às 08:3914 visualizações
🔒 RESERVADO — ARTIGO SOB REVISÃO — NÃO PUBLICADO
Raimundo Colombo como Senador da República, em outubro de 2007.
Raimundo Colombo como Senador da República, em outubro de 2007.
José Cruz/Agência Brasil (CC BY 3.0 BR)

Artigo de opinião — este texto assume, desde o título, que o verbete de Raimundo Colombo na Wikipédia em português não é um registro enciclopédico, mas um instrumento de propaganda eleitoral operado por contas de propósito único ao longo de dezesseis anos, ora a favor do biografado, ora contra ele — e que esse caso não é exceção, é amostra de um desenho institucional maior. Onde a prova já fecha, este texto afirma. Onde ainda não fecha, este texto diz isso explicitamente e apresenta a hipótese como hipótese. Não é reportagem neutra.

Raimundo Colombo — ex-Prefeito de Lages, ex-Deputado Federal e Estadual, ex-Senador (2007–2010), Governador de Santa Catarina entre 2011 e 2018, hoje pré-candidato a Deputado Federal no pleito de outubro de 2026 — tem, desde 24 de setembro de 2006, um verbete na Wikipédia em português. Não é biografia. É o começo de uma peça de campanha que se repetiu em 2010, em 2012 e em 2022, sempre nas mesmas mãos: contas registradas para editar pouco, editar rápido, e desaparecer.

Este texto reconstrói, edição por edição, como isso aconteceu no caso Colombo — com datas, nomes de usuário e trechos exatos, todos verificáveis nos links ao final de cada parágrafo. Depois, mostra que o silêncio do verbete não se limita à Lava Jato: cobre também greves, obras represadas, uma comissão parlamentar e tentativas de privatização que marcaram o mandato. Na sequência, mostra que o mesmo padrão editorial se repete em outros verbetes políticos brasileiros, sob o comando de um punhado de contas que também controlam quem pode editar e o que pode ser citado como fonte. Por fim, sobe um nível: para a estrutura da própria Wikimedia Foundation, a organização americana que opera a Wikipédia — e para as perguntas que essa estrutura ainda não respondeu, algumas com prova, outras apenas com indício razoável para seguir apurando.

(Nota metodológica: cada captura de tela reproduzida neste texto ilustra um documento ou uma página já públicos — verbete da Wikipédia, decisão judicial, publicação de blog, relatório institucional —, sob o direito de citação para fins de crítica, comentário e reportagem: Höfundalög nº 73/1972 [Lei de Direito Autoral da Islândia] art. 14 · Convenção de Berna art. 10. Cada imagem traz link para a fonte original ou, quando o documento não está publicado on-line, a referência processual que permite sua localização — exceto as três imagens do episódio de 2020 (o indeferimento do pedido de acesso e a cobertura de blog), cujo requerente teve o nome tarjado nas próprias capturas: por essa mesma razão, este texto não linka a essas fontes, para não desfazer com um clique a proteção de identidade que a tarja pretende dar.)

Parte I — O caso Colombo: doze anos de blindagem, uma fresta

2006 — Uma enciclopédia nasce como panfleto

O verbete "Raimundo Colombo" foi criado em 24 de setembro de 2006, às 4h21 (horário de Brasília), pelo usuário Felipe Menegaz — trinta e nove dias antes do primeiro turno da eleição de outubro daquele ano, na qual Colombo disputava uma vaga ao Senado Federal. A primeira frase do verbete não descreve uma trajetória: descreve uma candidatura em curso.

"O candidato nasceu em Lages, no Planalto Serrano, em 1955. Para disputar o pleito deste ano, renunciou ao cargo de prefeito de Lages para o qual foi reeleito em 2004 com mais de 70% dos votos."

Uma enciclopédia não escreve "o candidato" nem "o pleito deste ano" — quem escreve assim é uma campanha, com data de validade de poucas semanas. O texto permaneceu com essa arquitetura de vitrine por vinte anos, apenas engordada (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo. Revisão de 24 de setembro de 2006, 04h21. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Raimundo_Colombo&oldid=3298652. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Captura de tela da revisão de criação do verbete de Raimundo Colombo, 24 de setembro de 2006
A revisão de criação do verbete, 24 de setembro de 2006: "o candidato", "o pleito deste ano".
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

2010 — Um parágrafo chega trinta e dois dias antes da urna

Em 1º de setembro de 2010, a conta Ro.teixeira — registrada em 2 de agosto daquele mesmo ano e que concentrou onze edições no verbete de Colombo, todas em agosto-setembro de 2010 — inseriu 3.305 bytes de texto ao artigo. É a maior reescrita do verbete até então. O trecho central:

"Durante seus três mandatos como Prefeito de Lages, Raimundo Colombo destacou-se acima de tudo pela postura humana, transparente e próxima ao cidadão."

Na sequência, uma lista de "prêmios recebidos" (Prefeito Amigo da Criança, Prêmio de Gestão Fiscal, título de Professor Honoris Causa), uma seção inteira de "Aperfeiçoamento profissional" com cursos na Alemanha, nos Estados Unidos e na Espanha, e a promoção de um livro autobiográfico lançado dez meses antes, descrito no próprio verbete como narrado "de forma sincera e emotiva" (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 1º de setembro de 2010, 21h51. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Raimundo_Colombo&diff=21671286&oldid=21671228. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Captura de tela do diff de Ro.teixeira no verbete de Colombo, 1º de setembro de 2010
O diff de Ro.teixeira, 1º de setembro de 2010: 3.305 bytes de texto de campanha.
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

Trinta e dois dias depois, em 3 de outubro de 2010, Colombo foi eleito Governador de Santa Catarina em primeiro turno.

A data não é o único ponto de contato com os autos do processo que, oito anos depois, o levaria a julgamento. Segundo a denúncia oferecida pela Vice-Procuradoria-Geral da República e ratificada pela Promotoria da Zona Eleitoral de Florianópolis, a campanha de 2010 de Colombo recebeu R$ 2.310.000 da Odebrecht em oito entregas ocorridas entre 1º de julho e 15 de outubro daquele ano — sob o codinome "OVO" (uma alusão a "Ovo de Colombo"), ajustadas em reuniões com dirigentes da empreiteira e nunca declaradas nas prestações de contas da campanha. A janela de edição de Ro.teixeira (agosto-setembro de 2010) está inteiramente contida dentro da janela das entregas relatadas nos autos. Isso é uma coincidência temporal registrada e verificável — não uma acusação de que a própria conta tenha relação com os pagamentos, que permanece hipótese de investigação em aberto.

2011–2014 — De panfleto de campanha a release de governo

Já governador, o verbete passou por uma segunda transformação. Em 15 de junho de 2012, a conta Otavioanacleto — de propósito único em políticos catarinenses aliados a Colombo — inseriu 14.439 bytes ao artigo, reformulando-o inteiramente como um informe de obras do governo estadual:

"Em 16 de dezembro de 2011, foi inaugurada a duplicação da SC-401 [...] tendo sido gastos 36 milhões de reais."

"A Ponte Hercílio Luz foi fechada em 1982 devido a problemas na estrutura, e decidiu-se no governo Colombo que o projeto de reforma dela será completamente atualizado."

(WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 15 de junho de 2012, 20h58. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Raimundo_Colombo&diff=30696721&oldid=30696657. Acesso em: 6 jul. 2026.)

Captura de tela do diff de Otavioanacleto no verbete de Colombo, 15 de junho de 2012
O diff de Otavioanacleto, 15 de junho de 2012: 14.439 bytes reformulando o verbete como release de governo.
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

A Ponte Hercílio Luz e as rodovias SC-401 e SC-415 não são obras neutras neste texto: são objetos nomeados nas planilhas do sistema Drousys anexadas ao mesmo processo criminal — parte dos R$ 2.070.000 pagos pela Odebrecht em 2010 aparece nessas planilhas com o campo "OBRA" preenchido como "CASAN" (a companhia estadual de saneamento), e em 2011 o próprio Colombo, já governador, propôs os projetos de lei para a venda de participação minoritária na CASAN e na CELESC — movimento que o parecer do Ministério Público leria, anos depois, como a contrapartida ajustada. O verbete anuncia a obra como conquista de governo; os autos leem a obra como moeda de troca.

Em 2013, a mesma conta removeu um parágrafo que dizia que Colombo "assinou documento que aumenta o número de alunos em sala de aula, tornando-as superlotadas, causando a indignação de pais, professores e alunos" — e o substituiu por um bloco promocional sobre o "Pacto pela Educação". No ano seguinte, o bot de patrulha da própria Wikipédia (Salebot) havia detectado e removido parte do conteúdo elogioso do verbete; a conta desfez a remoção do bot no mesmo dia, restaurando a versão favorável. Ao longo de 2012, a mesma conta migrou a técnica para os verbetes de aliados na campanha municipal de Florianópolis daquele ano (Kennedy Nunes, César Souza Júnior, Ayres Marchetti, Jean Kuhlmann) e, em 2013–2014, para Aécio Neves e Álvaro Dias, então em pré-campanha presidencial. Não é um editor com interesse eventual em política catarinense: é uma conta que segue o calendário eleitoral, verbete por verbete, sempre no mesmo sentido — o de valorizar candidatos aliados.

Um dos autos do próprio processo Colombo registra ainda que, segundo a colaboração premiada do ex-executivo da Odebrecht Fernando Reis, Colombo teria solicitado em setembro de 2012 R$ 3.000.000 para a campanha de César Souza Júnior à Prefeitura de Florianópolis — "cuja eleição seria muito importante para o seu projeto político", nas palavras do delator. César Souza Júnior é um dos verbetes catarinenses editados pela mesma conta que, três meses antes, havia reescrito o verbete de Colombo. A ligação entre o financiador relatado nos autos e os verbetes operados pela mesma conta de propósito único consta hoje da denúncia — não é mais apenas hipótese do dossiê.

2014–2022 — Oito anos de silêncio sobre a Lava Jato

Enquanto Colombo ainda era governador em exercício, o Superior Tribunal de Justiça processava contra ele o Inquérito 1139, por suspeita de recebimento de recursos não contabilizados da Odebrecht nas campanhas de 2010 e 2014. Precisão necessária: o crime formalmente apurado não é "corrupção" em sentido genérico, mas falsidade ideológica eleitoral (art. 350 do Código Eleitoral) — a omissão, na prestação de contas de campanha, de doações efetivamente recebidas ("caixa dois"). É um crime eleitoral-contábil específico, e não a imputação difusa de corrupção que os noticiários da época, e o vocabulário corrente da Lava Jato, tendem a sugerir; o que o liga à narrativa mais ampla de corrupção é a origem do dinheiro não contabilizado — pagamentos da Odebrecht relatados nas delações premiadas do próprio esquema Lava Jato. Em 5 de junho de 2017, o relator, Ministro Luis Felipe Salomão, determinou o levantamento do sigilo do inquérito, com a justificativa expressa de evitar que "a imagem dos envolvidos [...] fique exposta além daquilo que realmente é objeto de investigação". Ainda assim, quando o processo desceu para a Justiça Eleitoral de Florianópolis, sob outro número, voltou a tramitar em sigilo — e só reapareceu publicamente, sob um terceiro número, quando a Promotoria da Zona Eleitoral recorreu da sentença de primeira instância e o caso chegou ao Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, em 2021.

Nesses mesmos anos, o verbete de Colombo na Wikipédia recebeu 283 revisões, de 134 editores distintos. Fizemos o download do conteúdo integral de cada uma delas — não apenas os metadados, o texto inteiro de cada versão, do dia da criação em 2006 até hoje. O resultado: em nenhuma dessas 283 revisões, entre 2014 e agosto de 2022, o verbete menciona a palavra "Lava Jato", nem "corrupção" como imputação, nem qualquer delação. O termo "absolv" — de "absolvição" ou "absolvido" — não aparece uma única vez em vinte anos de histórico.

Um processo criminal que tramitou por anos, em três tribunais, com dezessete advogados de defesa e cinco dirigentes da Odebrecht — Marcelo Bahia Odebrecht, Fernando Reis, Paulo Welzel, Eduardo Barbosa e Biagio Cersosimo — depondo sob compromisso, não deixou nenhum traço no verbete que mais concentra a atenção pública sobre este político. Não é uma omissão passiva: em 283 oportunidades de edição, ninguém escreveu — nem para acusar, nem para absolver.

2020 — Absolver em segredo

Em 25 de junho de 2020, um juiz aposentado protocolou, na 12ª Zona Eleitoral de Florianópolis, pedido de acesso à informação solicitando o levantamento do sigilo do processo. O detalhe importa para o que vem a seguir: não é um cidadão qualquer perguntando ao acaso — é um magistrado, que sabe exatamente o que está pedindo e sob que fundamento legal tem direito a pedir. Em 29 de junho, a Juíza Margani de Mello indeferiu o pedido, sob a justificativa de que os autos estavam suspensos pela pandemia. O que o despacho de indeferimento revela, contudo, é que os autos — sete volumes — já estavam "conclusos em gabinete para prolação de sentença": a decisão de mérito estava sendo escrita no exato momento em que o acesso público foi negado.

Decisão da Juíza Margani de Mello indeferindo o pedido de acesso à informação, 29 de junho de 2020, com o nome do requerente tarjado
O indeferimento de 29 de junho de 2020: motivo declarado é a pandemia, não sigilo de justiça — e os autos já estavam "conclusos em gabinete para prolação de sentença". Nome do requerente tarjado.
Fonte: 12.ª Zona Eleitoral de Florianópolis, PA Eletrônico n. 22846/2020 (captura de tela, nome do requerente tarjado).
Segunda página da decisão da Juíza Margani de Mello, com assinatura, 29 de junho de 2020
A assinatura da decisão: Margani de Mello, Juíza Eleitoral, Florianópolis, 29 de junho de 2020.
Fonte: 12.ª Zona Eleitoral de Florianópolis, PA Eletrônico n. 22846/2020 (captura de tela).
Post do blog Olivete Salmória sobre o pedido de acesso à informação, publicado em 27 de junho de 2020, com o nome do requerente tarjado
A cobertura pública e contemporânea do pedido, publicada dois dias depois — antes da absolvição. Nome do requerente tarjado.
Fonte: Olivete Salmória, blog público (captura de tela, nome e contato tarjados).

A justificativa não resiste ao que veio a seguir. Se o gabinete estava sobrecarregado a ponto de não conseguir fornecer uma cópia física por causa da pandemia, como produziu, poucos dias depois, uma sentença de mérito completa sobre um processo de anos, com colaborações premiadas e planilhas financeiras? A alegação de indisponibilidade e a velocidade da decisão que veio em seguida não se sustentam ao mesmo tempo.

Vinte e três dias depois, em 22 de julho de 2020, a mesma Juíza Margani de Mello absolveu Colombo — não por prova de inocência, mas por insuficiência de provas. A própria sentença reconhece, em suas palavras, que existem "fortes indícios do envolvimento em expedientes escusos ligados ao Grupo Odebrecht", mas conclui que a acusação "se limitou a reproduzir as provas colhidas na fase investigativa" sem produzir corroboração suficiente para condenar. (Nota: os autos consultados não identificam pelo nome o Promotor Eleitoral que atuou pela acusação nesta fase de 1ª instância — a peça original não estava entre os documentos obtidos; fica como linha de apuração para a próxima atualização deste texto.)

A Promotoria da Zona Eleitoral recorreu. O parecer do Procurador Regional Eleitoral André Stefani Bertuol, favorável à condenação, aponta ainda que quinze documentos citados pela própria acusação como prova central — o acordo de leniência da Odebrecht, as planilhas do sistema Drousys, os extratos das prestações de contas de 2010 e 2014 — não constam da cópia dos autos nem da lista oficial de documentos do processo eletrônico. Em 8 de junho de 2022, os sete juízes do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina — Leopoldo Augusto Brüggemann (presidente), Alexandre d'Ivanenko, Luís Francisco Delpizzo Miranda (relator), Marcelo Pons Meirelles, Paulo Afonso Brum Vaz, Zany Estael Leite Júnior e Willian Medeiros de Quadros — mantiveram a absolvição por unanimidade, contra o parecer do próprio André Stefani Bertuol, presente à sessão. O trânsito em julgado ocorreu em 23 de junho de 2022 (TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE SANTA CATARINA. Acórdão no Recurso Criminal Eleitoral n. 0600127-76.2021.6.24.0000. Sessão de 8 de junho de 2022. Disponível em: consultaunificadapje.tse.jus.br. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Capa do acórdão do TRE-SC no Recurso Criminal Eleitoral 0600127-76.2021.6.24.0000
A capa do acórdão: absolvição por sete votos a zero, relator Luís Francisco Delpizzo Miranda.
Fonte: Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, PJe (captura de tela, 6 jul. 2026).

Nada disso — a absolvição assinada por Margani de Mello, o placar unânime dos sete juízes do TRE-SC, o parecer de André Stefani Bertuol pedindo condenação, os fortes indícios reconhecidos na própria sentença — chegou a ser escrito no verbete de Colombo. Não pela acusação, e não pela defesa.

Vale registrar também o que não aconteceu depois. O Procurador Regional Eleitoral André Stefani Bertuol não recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral contra essa absolvição — o processo transitou em julgado treze dias depois do acórdão, sem nenhum novo recurso. Há explicação técnica plausível (recurso especial eleitoral, em regra, não reexamina prova, e a absolvição foi por insuficiência probatória) — mas ela desloca o problema para trás: a própria sentença registra que a promotoria de primeira instância "se limitou a reproduzir as provas colhidas na fase investigativa [...] sem requerer quaisquer diligências para produção de provas de corroboração". Se havia dever de supervisão da Procuradoria Regional Eleitoral sobre essa instrução e ele não foi exercido a tempo, o parecer forte de Bertuol no recurso — vindo depois que já não adiantava mais — não é prova de que o sistema funcionou. É demonstração de que a falha, se houve, aconteceu antes, quando ainda dava para corrigir.

26 de setembro de 2022 — Seis dias, três meses

Em 26 de setembro de 2022, às 0h32, a conta WikkerAnom23 — registrada em fevereiro daquele ano, com dezessete edições em toda a sua existência — inseriu no verbete de Colombo o único parágrafo sobre o processo criminal que o artigo já teve:

"Sua gestão não escapou das acusações de corrupção e improbidade que marcaram o debate público durante as investigações da Operação Lava Jato [...] tendo sido incluído tanto em delações [...]"

A mesma edição anuncia: "Em 2022, concorre novamente ao cargo de Senador pelo PSD após a derrota, 4° lugar, na eleição de 2018" (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 26 de setembro de 2022, 00h32. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Raimundo_Colombo&diff=64460735&oldid=64216013. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Captura de tela do diff de WikkerAnom23 no verbete de Colombo, 26 de setembro de 2022
O diff de WikkerAnom23, 26 de setembro de 2022, 0h32: a única menção à Lava Jato em vinte anos de verbete.
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

Mais que a data, importa quem escreve e o que escreve. WikkerAnom23 não é um editor de trajetória: dezessete edições em toda a existência da conta, aberta sete meses antes. E o que essa conta redige não é uma denúncia — é a versão mais amena possível de um fato que, àquela altura, já não dava mais para simplesmente omitir. "Não escapou das acusações" é construção evasiva: não diz do que Colombo foi acusado, não cita valor, não cita autos, não nomeia o crime (falsidade ideológica eleitoral, não "corrupção" em sentido genérico, como a precisão da seção anterior já registrou). "Delações", no plural e sem qualquer nome ou conteúdo, informa tanto quanto esconde. E o que falta pesa mais do que o que sobra: nem uma palavra sobre o desfecho — a absolvição por sete votos a zero, transitada em julgado três meses antes. Quem lesse só este parágrafo saberia que Colombo foi acusado; não saberia que foi absolvido. Não é a correção tardia de oito anos de silêncio — é uma variação dele, redigida para constar sem custar. A data, ainda assim, não é irrelevante: faltavam seis dias para o primeiro turno da eleição de 2022, na qual Colombo disputava uma vaga ao Senado.

O resultado do pleito é onde a coincidência de datas fica mais difícil de ignorar — e mais importante tratar com cautela, sem inflar. Na pesquisa Ipec divulgada em 20 de setembro de 2022, seis dias antes da edição de WikkerAnom23, Colombo liderava a corrida ao Senado com 37% dos votos válidos. Na pesquisa seguinte, divulgada em 30 de setembro — quatro dias depois da edição —, ainda liderava, mas já em queda: 31%. Quando as urnas fecharam, em 2 de outubro, o resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral foi outro: Jorge Seif eleito com 39% dos votos válidos (1.457.405 votos), Raimundo Colombo em segundo lugar com 16% (598.564 votos) (EXAME. Senado em SC 2022: Jorge Seif é eleito com 39% dos votos válidos. 2 de outubro de 2022. Disponível em: https://exame.com/brasil/senador-santa-catarina-eleicoes-2022/. Acesso em: 6 jul. 2026.; NSC TOTAL. Pesquisa Ipec: Colombo segue à frente na disputa para o Senado; Seif é o segundo. 30 de setembro de 2022. Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/terceira-pesquisa-eleitoral-senador-santa-catarina-eleicoes-2022. Acesso em: 6 jul. 2026.). Colombo perdeu quinze pontos percentuais entre a liderança confortável de vinte dias antes e o resultado final. Não é possível, com os dados disponíveis, isolar quanto dessa queda veio de um fator concorrente óbvio — o realinhamento do eleitorado bolsonarista em torno de Jorge Seif, num estado que reelegeu o presidente com folga em 2022 — e quanto, se houve alguma fração, veio da leitura do verbete por eleitores indecisos na última semana. O fato que se pode afirmar com precisão, sem atribuir causa única, é mais estreito: em dezesseis anos de vitrine wikipediana, a única semana em que o verbete mencionou corrupção foi também a única semana em que Colombo perdeu uma eleição para a qual era favorito absoluto.

Pesquisa Ipec de 30 de setembro de 2022 mostrando Colombo ainda na liderança
A pesquisa de 30 de setembro: Colombo ainda líder, com 31%, dois dias antes da votação.
Fonte: NSC Total (captura de tela, 6 jul. 2026).
Resultado oficial do TSE para o Senado em Santa Catarina, 2 de outubro de 2022
O resultado oficial, dois dias depois: Colombo em segundo lugar, com 16%.
Fonte: Exame, com dados do TSE (captura de tela, 6 jul. 2026).

Esta não foi uma edição isolada, fora do padrão de atuação da conta. Nos oito dias anteriores, WikkerAnom23 havia editado o verbete do candidato presidencial Felipe d'Ávila (acrescentando "formação acadêmica de alta relevância" e "ocupações de relevância", uma das edições marcada pela própria Wikipédia com a etiqueta automática de "provável parcialidade") e, no ano seguinte, o de Romeu Zema, adicionando detalhes de formação e removendo trechos considerados desfavoráveis. Depois da eleição de 2022, a mesma conta passou a "cuidar" também do verbete do município de Forquilhinha, revertendo edições de terceiros. O padrão é coerente: valorizar candidatos do partido NOVO — e, na única vez em que tratou de Colombo, do PSD, na semana decisiva de uma eleição, aplicar a mesma técnica de conta de propósito único, agora operando no sentido oposto ao de costume.

Aqui está a blindagem que dá título a este texto — e vale dizer exatamente do tamanho que ela tem, sem inflar. Por doze anos — 2010, 2012, os oito anos de silêncio sobre a Lava Jato — o mesmo verbete serviu Colombo: vitrine na entrada, silêncio na saída, sem nunca lhe custar nada. Nenhum tribunal jamais o puniu por nada relacionado a este processo — absolvido em 1.ª instância, absolvido por sete votos a zero no TRE-SC, sem recurso ao TSE, transitado em julgado. Há quem leia nisso a imagem de um corrupto impune; o que os autos permitem afirmar, com rigor, é mais estreito — nesse terreno específico, nenhuma sanção jamais o atingiu, apesar dos "fortes indícios" que a própria sentença de 1.ª instância reconheceu. A única fresta que essa blindagem teve em dezesseis anos aconteceu em 26 de setembro de 2022: pela primeira e única vez, a mesma ferramenta — a mesma técnica de conta de propósito único, o mesmo verbete — operou contra ele, na semana exata em que uma liderança de vinte pontos nas pesquisas virou uma derrota por margem larga. Este texto não afirma que a edição de WikkerAnom23 tenha causado essa virada — havia fator concorrente óbvio, e a queda pode se explicar inteiramente por ele. O que afirma, com prova, é mais modesto: nos dezesseis anos de existência do verbete, a única semana em que ele mencionou corrupção foi também a única semana em que Colombo perdeu uma eleição para a qual era favorito absoluto. Mesmo essa fresta não o deteve: hoje ele é pré-candidato a Deputado Federal. A Wikipédia não fez o papel da Justiça — e a Justiça, nesse processo, também não fez o seu. A blindagem seguiu, no essencial, intacta.

O que é uma conta de propósito único — e por que a Wikipédia não vai chamá-las assim

Ro.teixeira, Otavioanacleto e WikkerAnom23 têm um traço comum: identidades estáveis, sem histórico de vandalismo, que concentram sua atividade em uma janela eleitoral estreita e depois desaparecem ou migram para outro alvo. Este texto as trata como o que são no sentido substantivo do termo: contas de propósito único (em inglês, single-purpose account, SPU) — operadas com função dirigida, ainda que tecnicamente indistinguíveis de um editor comum.

A própria comunidade da Wikipédia em português reserva o rótulo mais grave — "sockpuppet" — apenas para contas formalmente bloqueadas após um procedimento interno de verificação técnica. Nenhuma das três contas descritas acima jamais foi formalmente rotulada como sockpuppet. Isso não é peculiaridade do caso Colombo. É a regra do jogo em todo o pt.wiki — como a Parte III mostra a seguir.

Parte II — O que mais o verbete não conta: o registro de governo

O verbete não é omisso só sobre a Odebrecht. Uma leitura do texto atual da Wikipédia não encontra, também, greves recorrentes com o funcionalismo, a comissão parlamentar sobre a Ponte Hercílio Luz, a controvérsia da Coxilha Rica ou as tentativas de privatização de estatais — todos episódios de domínio público, cobertos pela imprensa catarinense em tempo real. Nem tudo abaixo é acusação: parte é registro de conflito político ordinário, parte é controvérsia com resposta pública do próprio Colombo, e uma parte se resolveu a favor dele. O que une os episódios é o silêncio do verbete — a mesma vitrine que narra prêmios e obras entregues não faz nenhuma menção a nenhum deles.

Greves: um padrão de enfrentamento com o funcionalismo

O mandato de Colombo (2011–2018) atravessou repetidos conflitos com servidores públicos. Em 2011, ainda no início do governo, uma greve de professores da rede estadual se estendeu por semanas em torno da aplicação do piso salarial nacional do magistério (Lei 11.738/2008 — citada aqui apenas como o fato histórico que a greve discutia, não como fundamento normativo deste texto) (UPIARA. A greve, o sonho, a realidade e o desafio de Jorginho em seu primeiro enfrentamento com o Sinte-SC. Disponível em: https://upiara.net/greve-professores-sc-analise/. Acesso em: 6 jul. 2026.). Em 30 de junho de 2017, Santa Catarina aderiu à greve geral nacional contra as reformas trabalhista e da previdência; a Polícia Militar catarinense usou balas de borracha e bombas de efeito moral contra manifestantes, e ao menos dois integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra foram detidos durante um bloqueio na BR-101, em Navegantes (BRASIL DE FATO. Manifestantes são detidos e sindicato é invadido pela PM em dia de greve. 30 jun. 2017. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2017/06/30/manifestantes-sao-detidos-e-sindicato-e-invadido-pela-pm-em-dia-de-greve. Acesso em: 6 jul. 2026.). Detalhes citados por relatos de época — um bloqueio específico da Ponte Colombo Salles, o número exato de feridos — não puderam ser confirmados em fonte independente para este texto e ficam de fora, por ora. Em 2018, Santa Catarina também foi atravessada pela greve nacional dos caminhoneiros, evento de escala federal que qualquer governo estadual daquele momento teria de administrar.

A Ponte Hercílio Luz: o relatório que recomendou o indiciamento, e a comissão que recuou

Fechada para reforma por décadas, a Ponte Hercílio Luz — símbolo de Florianópolis — virou objeto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa de Santa Catarina em 2019. O relator original, Deputado Bruno Souza (Novo), apresentou relatório recomendando o indiciamento de 26 pessoas — entre elas o ex-Governador Raimundo Colombo — e a devolução de R$ 42 milhões aos cofres públicos (BLOG DO PRISCO. Relatório denuncia 26 pessoas na CPI da Ponte Hercílio Luz. Disponível em: https://www.blogdoprisco.com.br/relatorio-denuncia-26-pessoas-na-cpi-da-ponte-hercilio-luz/. Acesso em: 6 jul. 2026.). Esse relatório existiu e é fato — independentemente do que veio a seguir, e o leitor pode conferir a íntegra do documento final da CPI, que reproduz o histórico completo da comissão (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SANTA CATARINA. Relatório Final da Comissão Parlamentar de Inquérito da Ponte Hercílio Luz. Dez. 2019. Disponível em: íntegra em PDF. Acesso em: 6 jul. 2026.).

A comissão rejeitou o relatório de Bruno Souza — e, no dia seguinte, também rejeitou um segundo relatório, do Deputado Ismael dos Santos (PSD, o mesmo partido de Colombo). O relatório finalmente aprovado, de autoria do Deputado Fernando Krelling (MDB), em 18 de dezembro de 2019, substituiu a palavra "indiciamento" por um encaminhamento genérico de apuração ao Ministério Público junto ao Tribunal de Contas (MPTC), ao Ministério Público estadual e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) — sem nomear Colombo ou qualquer um dos 26 (AGÊNCIA ALESC. Aprovado relatório final da CPI da Ponte Hercílio Luz. 18 dez. 2019. Disponível em: https://agenciaal.alesc.sc.gov.br/index.php/noticia_single/aprovado-relatorio-final-da-cpi-da-ponte-hercilio-luz. Acesso em: 6 jul. 2026.). Este texto não afirma que a rejeição tenha sido movida por proteção política — não há prova disso, e comissões parlamentares rejeitam relatórios por motivos legítimos o tempo todo, inclusive dúvida técnica genuína sobre o texto do relator. O que fica registrado, sem inflar, é o fato simples: um relatório recomendou o indiciamento de Colombo, dois relatores tiveram seus textos rejeitados em sequência, e o texto final não indiciou ninguém.

A Coxilha Rica: acusação e resposta

Em 23 de novembro de 2017, Colombo assinou a ordem de serviço para o asfaltamento de um trecho da rodovia SC-390, na região da Coxilha Rica, interior de Lages — área onde a família de Colombo possui uma propriedade rural. Críticos, sobretudo durante a campanha de 2018, associaram a obra a benefício pessoal do então governador. Colombo respondeu publicamente, em vídeo e em site próprio, afirmando que o trecho asfaltado (27 km) fica entre 40 e 90 quilômetros de sua propriedade, dependendo do ponto de referência, e que o acesso à fazenda da família segue sendo por estrada de chão (COM SÉRGIO OLIVEIRA. Raimundo Colombo diz que mentem quando falam do asfaltamento da estrada da Coxilha Rica. 22 jun. 2026. Disponível em: https://www.comsergiooliveira.com/2026/06/22/raimundo-colombo-diz-que-mentem-quando-falam-do-asfaltamento-da-estrada-da-coxilha-rica/. Acesso em: 6 jul. 2026.; RAIMUNDO COLOMBO [site pessoal]. A verdade sobre a Coxilha Rica. Disponível em: https://www.raimundocolombo.com/post/a-verdade-sobre-a-coxilha-rica. Acesso em: 6 jul. 2026.). Em setembro de 2018, a Justiça Eleitoral determinou a remoção de páginas no Facebook que repetiam a acusação sem essas distâncias. Este episódio, ao contrário de outros nesta Parte II, tem uma defesa pública contemporânea e documentada de Colombo — incluída aqui por justiça, não por obrigação editorial: o próprio verbete da Wikipédia também não menciona nem a acusação, nem a resposta.

CASAN e CELESC: as privatizações já registradas

A tentativa de vender participação da CASAN (companhia catarinense de saneamento) e da CELESC (companhia catarinense de energia) já está descrita na Parte I deste texto, junto com sua conexão às planilhas do sistema Drousys da Odebrecht. Fica o registro de que essas privatizações tentadas — que tampouco aparecem no verbete — não são fato novo desta Parte II, mas parte do mesmo silêncio.

O Procurador Diogo Ringenberg: a seca do Nordeste e a ponte parada

Diogo Roberto Ringenberg, Procurador do Ministério Público de Contas de Santa Catarina (MPC-SC) desde 2006 e Procurador-Geral de Contas entre 2022 e 2024, foi uma das vozes mais recorrentes a cobrar publicamente o andamento das obras da Ponte Hercílio Luz durante e depois do governo Colombo. Ringenberg apresentou representação ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC) pedindo medida cautelar que obrigasse a elaboração de um plano de contingência para a capital em caso de colapso da estrutura da ponte, e a notificação de moradores próximos sobre o risco — pedido negado pelo TCE-SC (O TRIBUNAL DA GOVERNANÇA PÚBLICA CATARINENSE — TCE/SC. TCE/SC aceita justificativas sobre uso do plano de contingência da capital em caso de colapso da Ponte Hercílio Luz durante reforma. Disponível em: https://www.tcesc.tc.br/tcesc-aceita-justificativas-sobre-uso-do-plano-de-contingencia-da-capital-em-caso-de-colapso-da. Acesso em: 6 jul. 2026.). Em declaração à imprensa, Ringenberg comparou o efeito da ponte parada sobre a economia catarinense ao efeito da seca sobre o Nordeste brasileiro (MINISTÉRIO PÚBLICO DE CONTAS DE SANTA CATARINA. Procurador-Geral de Contas Diogo Roberto Ringenberg. Disponível em: https://www.mpc.sc.gov.br/diogo/. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Uma pergunta em aberto: o Ministério Público sempre socorre Colombo?

Dois episódios já registrados neste texto, somados, levantam uma pergunta que merece ser feita abertamente — dois pontos não bastam para falar em padrão; isso exigiria mapear quantos processos o próprio Ministério Público catarinense já moveu contra Colombo ao longo da carreira, e quantos avançaram. Primeiro: o próprio Ministério Público de Santa Catarina pediu o arquivamento da ação baseada na delação de Ricardo Saud (JBS), citando publicamente a fragilidade das informações do delator — o arquivamento foi decretado pela 2ª Vara Criminal de Florianópolis em julho de 2018 (CONJUR. Justiça arquiva ação penal aberta com base em delação da JBS. 16 jul. 2018. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2018-jul-16/justica-arquiva-acao-penal-aberta-base-delacao-jbs. Acesso em: 6 jul. 2026.; NSC TOTAL. Delator da JBS diz que pagou "propina de R$ 10 milhões" para Colombo. Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/delator-da-jbs-diz-que-pagou-propina-de-r-10-milhoes-para-colombo. Acesso em: 6 jul. 2026.). Segundo: como a Parte I já registrou, o Procurador Regional Eleitoral André Stefani Bertuol não recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral contra a absolvição por sete votos a zero do TRE-SC, mesmo com o parecer do próprio Bertuol favorável à condenação. Há explicação técnica possível para cada um, isoladamente (fragilidade real de um delator específico; limite recursal genuíno de uma ação por insuficiência de provas). Mas a pergunta, feita em conjunto, é legítima e fica registrada como tal: por que, nas duas vezes em que o Ministério Público catarinense ou federal teve a palavra final sobre uma acusação contra Colombo, a palavra final foi recuar?

Parte III — Não é um caso isolado: a rede que decide quem edita e o que é fonte

O mesmo padrão observado no caso Colombo — vitrine para aliados, silêncio ou sanitização para o próprio campo, cobertura completa de corrupção só para adversários — se repete em outros verbetes políticos brasileiros, operado por um número pequeno de contas que, ao mesmo tempo, controlam os mecanismos que deveriam fiscalizá-las. Não é anedota isolada: é desenho institucional.

Os cães de guarda: quem patrulha sem que se saiba quem é, e o que acontece a quem corrige

O verbete de Colombo tem 283 revisões de 134 editores distintos ao longo de vinte anos. Os cinco mais ativos respondem, juntos, por 25,8% de todas as edições. Dois já apareceram na Parte I como contas de propósito único (Otavioanacleto, Ro.teixeira); os outros três são cães de guarda no sentido mais estrito do termo — contas que não escrevem o conteúdo, mas patrulham o que outros escrevem. Rafael Kenneth (26 edições no verbete, 13.287 no total, registrado em novembro de 2009) usa uma ferramenta automática de combate a vandalismo e reverte majoritariamente edições de IPs anônimos. Nicolasbrasil (14 edições, registrado em junho de 2010) edita sobretudo temas eleitorais. Kaktus Kid (11 edições no Colombo, 218.630 no total, registrado em maio de 2007, foco geral em Santa Catarina, sem atividade detectada desde abril de 2022) é citado aqui, por honestidade metodológica, como provável editor voluntário legítimo — o dado serve de contraste, não de acusação.

Nenhum desses nomes corresponde a uma pessoa verificável por qualquer mecanismo público. São apelidos, um padrão de edição, às vezes um "wiki de origem" registrado no sistema — nunca um CPF, nunca um rosto. Essa é a pergunta que a Wikipédia se recusa a responder sobre si mesma: quem, de fato, decide o que o eleitor brasileiro lê sobre um político que vai julgar nas urnas?

A resposta importa menos do que o que acontece a quem tenta corrigir, e não apenas patrulhar. Em 24 de setembro de 2025, a conta Portafechada — registrada em agosto daquele ano, com 279 edições em 89 artigos distintos, todos de políticos (Alexandre Kalil, Rodrigo Maia, Kim Kataguiri, Ciro Nogueira, Ângela Amin, entre outros) — corrigiu a infobox do verbete de Colombo, unificando as datas de filiação partidária ao PFL e ao DEM, o mesmo partido sob nomes sucessivos. A conta Fabricin2004 desfez a edição no dia seguinte, classificando-a como correção de "vandalismos" (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 26 de setembro de 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?diff=70926501. Acesso em: 6 jul. 2026.). Portafechada tentou novamente horas depois; Fabricin2004 reverteu de novo, agora citando a política interna "WP:POV" (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 26 de setembro de 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?diff=70928248. Acesso em: 6 jul. 2026.). Quarenta dias depois, em 5 de novembro de 2025, Portafechada foi bloqueada permanentemente pelo checkuser Conde Edmond Dantès — o mesmo administrador citado a seguir —, sob o motivo "verificação-conta", com todas as restrições ativadas: sem e-mail, sem edição, sem criação de nova conta, sem direito a resposta na própria página de discussão (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Special:Log/block — Portafechada. 5 de novembro de 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/api.php?action=query&list=logevents&letype=block&letitle=Usuário:Portafechada&lelimit=50&format=json. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Captura de tela do diff em que Fabricin2004 reverte Portafechada, 26 de setembro de 2025
A primeira reversão de Fabricin2004 contra a correção de Portafechada: "Corrigindo vandalismos".
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).
Registro de bloqueio permanente de Portafechada por Conde Edmond Dantès, 5 de novembro de 2025
O bloqueio permanente de Portafechada, 5 de novembro de 2025: checkuser Conde Edmond Dantès, "verificação-conta".
Fonte: Wikipédia em português, Registo de bloqueios (captura de tela, 6 jul. 2026).

A correção nunca foi restaurada — nem por Portafechada, impedida de editar, nem por ninguém depois dela. Mas alguém tentou de novo, com lastro melhor. Em 4 de dezembro de 2025, a conta Fabricin2023 refez a mesma unificação, desta vez citando explicitamente a Petição n. 1826 (processo 29794-53.2006.6.00.0000) e a página oficial de partidos registrados do próprio Tribunal Superior Eleitoral, para sustentar que o DEM "se tratava de uma mudança de nome do Partido da Frente Liberal, e não um novo partido" (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 4 de dezembro de 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?diff=71292682. Acesso em: 6 jul. 2026.). Quatro minutos depois, o administrador e checkuser Érico desfez a edição — e o resumo que escreveu é o mais revelador de toda essa cadeia: reverteu "para a última revisão de Fabricin2004", citando a conta por nome, como se fosse ela, e não o Tribunal Superior Eleitoral, a referência a restaurar (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Raimundo Colombo — diferença entre revisões. 4 de dezembro de 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?diff=71292701. Acesso em: 6 jul. 2026.). Fabricin2023 foi bloqueada por uma semana no mesmo dia, pelo próprio Érico; 26 dias depois, em 30 de dezembro de 2025, Conde Edmond Dantès a bloqueou permanentemente, confirmando-a tecnicamente como conta-fantoche de Fabricin2004.

Captura de tela do diff em que Fabricin2023 cita o Tribunal Superior Eleitoral, 4 de dezembro de 2025
Fabricin2023 refaz a correção citando a Petição n. 1826 e o site oficial do TSE.
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).
Captura de tela do diff em que Érico reverte Fabricin2023, 4 de dezembro de 2025
Quatro minutos depois: Érico reverte "para a última revisão de Fabricin2004".
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

A comparação que fecha o argumento: Otavioanacleto transformou o verbete de Colombo em material de assessoria de governo durante anos e nunca foi incomodada (Parte I). Duas contas diferentes tentaram, em momentos diferentes, uma correção factual apoiada no site do próprio Tribunal Superior Eleitoral — e as duas foram eliminadas em semanas. Não é que patrulhar seja errado. É que a mesma ferramenta de patrulha — reverter, depois bloquear — protege a distorção por uma década e mata a correção em semanas, acionada por quem tem poder de checkuser e de burocrata ao mesmo tempo, e cuja identidade real, fora da própria Wikipédia, ninguém tem como conferir.

Quatro pessoas para 3,4 milhões de contas

Levantamento via API pública da Wikipédia (`https://pt.wikipedia.org/w/api.php`), feito em 28 de junho de 2026: a Wikipédia em português tem 1.176.207 artigos, 3.440.667 usuários registrados — e apenas quatro checkusers, as únicas pessoas autorizadas a verificar se uma conta anônima é, na prática, uma segunda conta de outra pessoa. São eles Érico, Conde Edmond Dantès, Little Sunshine e Albertoleoncio. Dois — Érico e Conde Edmond Dantès — acumulam também o cargo de burocrata (que nomeia e remove administradores) e de administrador (que bloqueia contas e protege artigos). Investigador, promotor e juiz na mesma pessoa, sem supervisão externa.

Cruzando a lista de administradores com os artigos políticos mais editados, o mesmo nome aparece repetidamente entre os maiores editores dos artigos que ele próprio tem poder de proteger e cujos editores tem poder de bloquear: Érico soma 271 edições no verbete de Aécio Neves (222 delas de conteúdo, o restante ações administrativas), 56 no de Lula (11,2% de uma amostra de 500 edições recentes), 23 no de Dilma Rousseff; Chronus soma 110 no de Jair Bolsonaro (22% da mesma amostra). Não há regra da Wikipédia que impeça isso.

Um episódio no verbete de Aécio Neves ilustra o padrão com nitidez. Em 5 de setembro de 2013, Érico removeu uma seção inteira que relatava um fato favorável a Aécio — a anulação unânime, pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, de um processo de improbidade administrativa contra ele. O sumário da edição: "se ele não foi considerado culpado, PORQUE ACHA QUE ISSO DEVE FICAR AQUI?! A Wikipédia NÃO ALIMENTA POLÊMICAS!" (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Aécio Neves — diferença entre revisões. 5 de setembro de 2013. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?diff=36838055. Acesso em: 6 jul. 2026.). A mesma lógica — "a Wikipédia não alimenta polêmicas" — nunca foi aplicada ao verbete de Colombo, onde a acusação de corrupção permanece sem o registro da absolvição por sete votos a zero.

Captura de tela do diff em que Érico remove seção favorável a Aécio Neves, 5 de setembro de 2013
"A Wikipédia NÃO ALIMENTA POLÊMICAS!" — Érico remove a anulação do processo contra Aécio Neves.
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

Fabricin2004: cobertura nacional, tratamento assimétrico

A conta Fabricin2004 (mais de 25 mil edições, registrada em janeiro de 2024, ativa nesta própria semana) edita artigos de políticos em todo o país, com foco na Bahia. Comparando o conteúdo sobre corrupção nos verbetes que ela mais edita: o de Jaques Wagner (PT-BA) omite qualquer menção a "Lava Jato" nas 642 revisões do artigo — a única corrupção mencionada é um escândalo recente (Banco Master, 2026); o de Elmar Nascimento (União-BA, aliado do governo) menciona a Operação Overclean mas omite as palavras "fraude", "licitação" e "corrupção"; já os de Aécio Neves (PSDB, oposição) e André Janones (Avante, alvo político recorrente) trazem cobertura completa — propina, gravação, JBS, rachadinha, peculato, tudo presente.

No verbete de Wagner, a categoria que indexava o artigo como "Pessoas envolvidas na Operação Lava Jato" existiu — e foi removida em 17 de junho de 2017 por uma conta hoje renomeada como "Renamed user a467e20280c0f1faa51eb9960c47aedb", com sede formal na Wikipédia em inglês e mais de 120 mil edições em toda a rede Wikimedia. A remoção nunca foi revertida (WIKIPÉDIA EM PORTUGUÊS. Jaques Wagner — diferença entre revisões. 17 de junho de 2017. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?diff=49064614. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Captura de tela do diff que remove a categoria Lava Jato do verbete de Jaques Wagner, 17 de junho de 2017
A remoção da categoria "Pessoas envolvidas na Operação Lava Jato" do verbete de Wagner — nunca revertida.
Fonte: Wikipédia em português (captura de tela, 6 jul. 2026).

Essa mesma conta, batizada de operária de flora e fauna do sul do Brasil em sua atividade mais recente, fez entre agosto de 2016 e dezembro de 2018 7.518 edições em pauta política — Jair Bolsonaro (124 edições), Operação Lava Jato (96), Governo Michel Temer (92), Brasil Paralelo (70), Olavo de Carvalho (69), Movimento Brasil Livre (54), Sergio Moro (35) — com picos de atividade coincidindo com a greve dos caminhoneiros de 2018, o atentado contra Bolsonaro e o segundo turno da eleição presidencial daquele ano. A remoção da categoria Lava Jato do verbete de Wagner é uma entre 854 edições feitas por essa conta só no mês de junho de 2017 — rotina operacional, não anomalia. Hoje essa conta está bloqueada globalmente pela própria Wikimedia Foundation, sem que o motivo do bloqueio tenha sido publicado. Uma segunda conta, também renomeada e também bloqueada globalmente, ocupava o segundo lugar em atividade na página interna que decide quais fontes jornalísticas podem ser citadas como confiáveis no pt.wiki — mesma ausência de explicação pública.

Quem guarda os guardiões das fontes

A Wikipédia em português não tem uma lista formal de "fontes confiáveis" como a versão em inglês, mas tem o equivalente funcional: as páginas internas "Fontes confiáveis", "Fontes não confiáveis" e a "Central de confiabilidade", onde editores debatem e decidem, caso a caso, se um veículo de imprensa pode ser citado. Quem domina essas páginas:

- Conde Edmond Dantès — o mesmo checkuser e burocrata citado acima — também edita ativamente a Central de confiabilidade. A mesma pessoa que decide quem pode editar decide também o que pode ser citado como prova. - Renato de Carvalho Ferreira — responsável por 79 das 281 edições da lista de "Fontes não confiáveis" (28% do total, controle desproporcional para uma única pessoa) — tem um perfil de edição dominado quase inteiramente (mais de 99%) por taxonomia de insetos e moluscos. Uma pessoa cuja atividade visível é catalogar espécies decide, na prática, se veículos de jornalismo investigativo podem ser citados em qualquer artigo político da Wikipédia lusófona. - Heylenny — com sede formal na Wikipédia em inglês e mais de 180 mil edições globais, lidera a atividade recente na Central de confiabilidade e tem penetração pontual, mas real, em biografias políticas brasileiras (Cid Gomes, Ivo Gomes, Eduardo Cunha, Aécio Neves). - Yanguas — administrador que disciplina editores de conteúdo político (advertiu Otavioanacleto por violação de direito autoral em 2016) e ao mesmo tempo edita as próprias páginas de política de fontes.

Nenhum desses quatro nomes é, isoladamente, prova de conluio. Juntos, formam um padrão estrutural: as mesmas poucas pessoas decidem, ao mesmo tempo, quem pode editar (verificação de conta), quem é punido (bloqueio administrativo) e o que pode ser citado como prova (fontes confiáveis) — sem que nenhuma dessas três funções seja exercida por instâncias independentes entre si.

A fachada dos números: 672 bloqueios que não são o problema

Um contraponto necessário, para não inflar o que a prova não sustenta: dos 672 bloqueios de contas de usuário aplicados pelo checkuser Conde Edmond Dantès sob o motivo "verificação-conta" (sockpuppet confirmado, parte de um total de 3.740 ações de bloqueio do mesmo administrador), uma amostra aleatória de 31 contas mostrou que apenas 0,8% das edições tocavam conteúdo político — a maioria espalhada por temas diversos (81%), seguida de futebol (12%) e fandom (4%). Esse volume de bloqueios funciona como métrica de produtividade vistosa (milhares de contas eliminadas), mas não é onde está a captura política. A captura está nas contas do tipo Otavioanacleto, Ro.teixeira, WikkerAnom23 e a "Renamed user a467e2" — identidades estáveis, sem padrão de vandalismo, que operam pontual e cirurgicamente em janela eleitoral e sobrevivem exatamente porque não se parecem com sockpuppets.

Parte IV — A estrutura por trás: a Wikimedia Foundation

Conformidade no papel, vácuo na prática

A Wikimedia Foundation (WMF) — organização sediada nos Estados Unidos que opera a Wikipédia e os projetos irmãos, mantida por cerca de US$ 180 milhões por ano em doações — tem um aparato formal de conformidade robusto no papel: um Código de Conduta Universal, um código de conduta interno para funcionários, uma política de ações executivas diretas (Office Actions Policy), políticas de privacidade e termos de uso, uma equipe de "Confiança e Segurança" e um departamento jurídico.

Na prática, a aplicação desse aparato é inteiramente delegada a uma comunidade voluntária e anônima. Não há verificação de identidade de editores (o equivalente ao "conheça seu cliente" que bancos são obrigados a fazer), não há auditoria externa de neutralidade, e os três centros internos que de fato decidem o que fica e o que sai — o comitê de arbitragem, a ferramenta de verificação de conta e as páginas de fontes confiáveis — operam sem transparência substantiva sobre seus próprios critérios.

Duas provas de que a opacidade é escolha, não necessidade

A defesa costumeira da WMF é que esse desenho seria "a única forma viável" de operar uma enciclopédia colaborativa em escala. Duas alternativas em funcionamento contradizem esse argumento: o Citizendium, criado em 2006 pelo próprio cofundador da Wikipédia, Larry Sanger, com identidade real obrigatória dos editores; e o Scholarpedia, com curadores identificados e revisão por especialistas convidados. Ambos operam há duas décadas. A opacidade da Wikipédia, portanto, é escolha de desenho — não necessidade técnica.

Larry Sanger: o cofundador que virou o crítico mais qualificado

Larry Sanger — que cunhou o nome "Wikipedia" e redigiu as primeiras políticas editoriais do projeto antes de romper com Jimmy Wales em 2002 por divergência sobre esse mesmo desenho institucional — é hoje o crítico mais qualificado do projeto, por testemunho de dentro (insider testimony, categoria de prova de peso elevado em investigações administrativas e judiciais). Em 2020 publicou o ensaio "Wikipedia Is Badly Biased" (SANGER, Larry. Wikipedia Is Badly Biased. 2020. Disponível em: https://larrysanger.org/2020/05/wikipedia-is-badly-biased/. Acesso em: 6 jul. 2026.); em setembro de 2025, o ensaio-livro "Nine Theses on Wikipedia" (37 mil palavras), no qual propõe, entre outras reformas, o fim do bloqueio indefinido de contas e a criação de uma assembleia editorial eleita por voto direto (SANGER, Larry. Nine Theses on Wikipedia. Set. 2025. Disponível em: https://larrysanger.org/nine-theses/. Acesso em: 6 jul. 2026.).

2025: quatro frentes convergem sobre a mesma fundação

Esse diagnóstico de dentro converge, sem coordenação aparente, com quatro frentes externas que se abriram em 2025 contra a própria WMF:

- Congresso dos Estados Unidos — os deputados James Comer e Nancy Mace, do Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara, enviaram carta em agosto de 2025 à CEO da WMF, Maryana Iskander, pedindo registros sobre má conduta de editores e análises de padrões de viés, com prazo de resposta em 10 de setembro de 2025 (U.S. HOUSE COMMITTEE ON OVERSIGHT AND GOVERNMENT REFORM. Comer and Mace Investigate Efforts to Manipulate Information on Wikipedia. Ago. 2025. Disponível em: https://oversight.house.gov/release/comer-and-mace-investigate-efforts-to-manipulate-information-on-wikipedia/. Acesso em: 6 jul. 2026.). - O Procurador Federal interino do Distrito de Columbia (interim U.S. Attorney — cargo de chefia do Ministério Público Federal americano na jurisdição de Washington) — Edward R. Martin Jr. enviou carta à WMF em 24 de abril de 2025 alegando que a Wikipédia "permite que atores estrangeiros manipulem informação e espalhem propaganda", pedindo documentos para avaliar se a fundação ainda cumpre os requisitos da isenção fiscal da Seção 501(c)(3) do código tributário americano (MARTIN JR., Edward R. Carta ao Wikimedia Foundation. 24 abr. 2025. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Letter_from_interim_US_attorney_for_DC_Ed_Martin_to_Wikimedia_Foundation_2025.pdf. Acesso em: 6 jul. 2026.). - Anti-Defamation League (ADL — organização americana de combate ao antissemitismo), em março de 2025, e o Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council (DFRLab — laboratório de investigação digital do centro de estudos Atlantic Council), em março-abril de 2025, publicaram relatórios técnicos independentes documentando, respectivamente, viés sistêmico antissemita/anti-Israel e uma rede pró-Kremlin ("Pravda") alterando artigos para promover narrativas anti-Ocidentais (ANTI-DEFAMATION LEAGUE. New ADL Report Finds Evidence of Biased, Coordinated Campaign on Wikipedia Related to the Israeli-Palestinian Conflict. Mar. 2025. Disponível em: https://www.adl.org/resources/press-release/new-adl-report-finds-evidence-biased-coordinated-campaign-wikipedia-related. Acesso em: 6 jul. 2026.; DFRLAB, ATLANTIC COUNCIL. The Pravda Network. 2025. Disponível em: https://dfrlab.org/the-pravda-network/. Acesso em: 6 jul. 2026.).

Quatro fontes independentes — poder legislativo, ministério público federal americano, sociedade civil técnica e testemunho de dentro — convergiram, em meses contíguos, para o mesmo diagnóstico em frentes temáticas distintas (Israel, Rússia, viés ideológico geral). Isso não é padrão de incidentes isolados: é padrão sistêmico imputável ao desenho institucional da fundação, não a editores individuais.

Comunicado do Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA sobre a investigação à Wikimedia Foundation, agosto de 2025
O comunicado de Comer e Mace, agosto de 2025: pedido de documentos à WMF sobre má conduta de editores.
Fonte: U.S. House Committee on Oversight and Government Reform (captura de tela, 6 jul. 2026).
Ensaio de Larry Sanger, Wikipedia Is Badly Biased, 2020
"Wikipedia Is Badly Biased": o cofundador do projeto, por dentro.
Fonte: larrysanger.org (captura de tela, 6 jul. 2026).
Relatório da Anti-Defamation League sobre viés anti-Israel na Wikipédia, março de 2025
O relatório da Anti-Defamation League, março de 2025: viés sistêmico documentado.
Fonte: adl.org (captura de tela, 6 jul. 2026).
Relatório do Digital Forensic Research Lab sobre a rede Pravda na Wikipédia, março de 2025
O relatório do Digital Forensic Research Lab: a rede pró-Kremlin "Pravda".
Fonte: dfrlab.org, Atlantic Council (captura de tela, 6 jul. 2026).

Parte V — O que ainda é hipótese, e por que vale a pena seguir apurando

Até aqui, cada afirmação teve fonte primária citada e conferível. Esta seção é diferente por declaração explícita: reúne linhas de investigação em aberto, que ainda não têm prova suficiente para afirmação categórica, mas que têm lastro razoável para continuar sendo apuradas — e que não devem ser abandonadas só porque ainda não fecharam.

A hipótese do crime organizado transnacional. A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (Convenção de Palermo, 2000, ratificada pelo Brasil em 2004) define, no art. 2º, alínea "a", "grupo criminoso organizado" (organized criminal group) como grupo estruturado de três ou mais pessoas, existente há algum tempo, atuando concertadamente com a finalidade de obter, direta ou indiretamente, benefício financeiro ou material (UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. United Nations Convention against Transnational Organized Crime. 2000. Disponível em: https://www.unodc.org/unodc/en/organized-crime/intro/UNTOC.html. Acesso em: 6 jul. 2026.). Os elementos da definição, aplicados à estrutura descrita neste texto: três ou mais pessoas associadas (trivialmente satisfeito, dada a escala da comunidade); grupo estruturado, sem necessidade de papéis formalmente definidos entre os membros (parcialmente demonstrado — checkusers, administradores, gatekeepers de fonte —, mas a hierarquia completa, do Conselho de Curadores da WMF até o editor de base, ainda precisa ser mapeada por inteiro); e finalidade de benefício financeiro ou material (a vantagem reputacional e ideológica já é visível; o nexo causal direto entre manipulação de conteúdo e captação de doações — cerca de US$ 180 milhões por ano — é o elo que, se provado, muda o peso do argumento). O caráter transnacional é dado: fundação e servidores nos Estados Unidos, impacto direto sobre o Brasil e sobre outros países — exatamente o tipo de estrutura que a Convenção de Palermo existe para alcançar, caso os elementos venham a se confirmar por inteiro. Hoje, alguns elementos são fato provado; outros são hipótese em apuração, e é assim que devem permanecer até que a hierarquia completa da fundação seja mapeada com o mesmo rigor documental empregado nas Partes I e II deste texto — nem inflados a certeza, nem descartados por incompletos.

Este texto termina onde a prova termina. A Parte I documenta, edição por edição, como o verbete tratou o processo Odebrecht/Lava Jato: vitrine na entrada, silêncio quase absoluto na saída. A Parte II mostra que esse silêncio se estende ao resto do mandato — greves, a Ponte Hercílio Luz, a Coxilha Rica, as tentativas de privatização: nada disso está no verbete, e nem tudo aí é acusação contra Colombo, mas nenhuma enciclopédia séria omitiria por completo um mandato inteiro. A Parte III mostra que o padrão de captura editorial não é peculiaridade do caso Colombo: um punhado de administradores e checkusers decide, ao mesmo tempo, quem edita, quem é punido e o que pode ser citado como fonte em toda a Wikipédia lusófona. A Parte IV mostra que isso também não é peculiaridade brasileira: em 2025, quatro frentes independentes — Congresso americano, Ministério Público Federal americano, sociedade civil técnica e o próprio cofundador do projeto — chegaram, sem combinar entre si, ao mesmo diagnóstico sobre a mesma fundação. A Parte V afirma menos do que poderia soar mais contundente, porque a prova ainda não fecha — e é exatamente por isso que a linha de investigação continua aberta, não arquivada. Quis custodiet ipsos custodes? Quem vigia os vigilantes? Enquanto a Wikimedia Foundation não responder isso sobre si mesma, o verbete de um pré-candidato a Deputado Federal segue sendo, ao mesmo tempo, vitrine de campanha e arquivo com página faltando.

Para explorar: todas as fontes, com notas

O verbete de Colombo, edição por edição

O processo criminal e a absolvição

O registro de governo (Parte II)

O padrão em outros verbetes políticos

A estrutura da Wikimedia Foundation

Marco jurídico internacional

Produzido com Claude Fable 5 (Anthropic, IA), sob direção e responsabilidade de Benito Juarez.

Nota de estilo — o Insubornável escreve com a maiúscula reverencial do Português clássico e a estende a todo ofício anteposto a nome: o Engenheiro, o Antropólogo, o Engraxate — no mesmo ápice do Governador.

Atualizado em 06/07/2026 às 09:33

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