Moradores de Diamantina (MG) lutam para manter Parque do Biribiri público

Por kátia Torres06/07/2026 às 16:480 visualizações
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Brasil de Fato

Mãe Dalva olha para o Biribiri, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha (MG), e não enxerga apenas uma “unidade de conservação” ou uma fonte de receitas. Aos 64 anos, a ialorixá do terreiro no Mirante da Palha enxerga uma entidade. “Onde a gente busca energia espiritual sempre é nas águas, nas matas, nas pedreiras. A gente vai perder essa entidade que a gente tem”, afirma.

Para ela, o Biribiri é o corpo físico de uma ciência que o Estado não consegue medir. É a terra da “desabuso”, erva medicinal cujo saber vem de “antes de se conhecer o Biribiri”. Mãe Dalva guarda a herança de sua mãe, Dona Teresa Joana, benzedeira que sustentava a família lavando roupa no Poço da Sentinela e curava o povo da cidade sem cobrar um centavo. “O que é encontrado na natureza não tem preço”, ensina.

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Mãe Dalva ao centro com o Grupo Maracatu Estrela da Serra – Crédito: “Nosso Biribiri”

O edital do Parque Estadual do Biribiri integra o Programa de Parcerias em Parques de Minas Gerais (PARC-MG), política do governo Romeu Zema (Novo) que prevê repassar a gestão de dezenas de unidades à iniciativa privada por até 30 anos. Enquanto o Estado defende a medida como uma modernização para fomento ao turismo, opositores apontam o risco de mercantilização do espaço público. 

Para lideranças religiosas e moradores locais, um dos problemas é a possível cobrança de ingressos — prevista nos estudos de concessão do parque. Para eles, isso seria uma barreira para o exercício da fé, do lazer e da pesquisa.

Parlamentares que visitaram o local recentemente, como as deputadas Beatriz Cerqueira (PT), Bella Gonçalves (PT) e Duda Salabert (Psol), criticaram o que chamam de transferência de bens coletivos sem a devida oitiva da população.

Em discurso durante manifestação nas ruas de Diamantina, Mário Mariano, um dos participantes do movimento contra a concessão, resumiu o sentimento de quem vive no território: “essa proposta não teve nenhum diálogo com a população. Ela só tem os interesses do grande empresariado, que quer lucrar com as nossas cachoeiras, transformando-as em mercadoria”.

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Comissão discute concessão do Parque do Biribiri – Crédito: Katia Torres

A frente, que já reuniu mais de 5 mil assinaturas contra a concessão e levou o debate a uma audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), entende que contemplar o território não é mais suficiente; é preciso lutar por ele.

A retórica do caixa

A história do Biribiri carrega cicatrizes antigas de rupturas econômicas. Em 1973, durante a ditadura militar, a Fábrica do Biribiri foi fechada sob a justificativa de “situação antieconômica”. Na época, alternativas como a transformação da unidade em uma cooperativa sequer foram cogitadas. Sem qualquer política de transição, cerca de 250 famílias de trabalhadores foram desamparadas, marcando o fim de um ciclo na vila.

Hoje, a justificativa oficial do Estado para a concessão esbarra em críticas contundentes da sociedade civil e políticos que abraçaram a causa. Enquanto o governo alega restrições de caixa para manter o patrimônio público, a deputada estadual Beatriz Cerqueira aponta uma contradição bilionária. 

A parlamentar critica a precarização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente — sugerindo que o sucateamento da estrutura alimenta as propostas de privatização — e lembra que o Estado abre mão de R$ 24 bilhões em renúncias fiscais para grandes empresas.

O argumento ganha contornos ainda mais nítidos com os dados trazidos pela deputada Bella Gonçalves (PT). Em suas redes sociais, a parlamentar detalhou o destino dessas isenções, apontando que 20 empresas concentram 40% do benefício. 

Na lista, figuram gigantes como Ambev (R$ 1,5 bilhão), Souza Cruz (R$ 600 milhões) e Mercado Livre (R$ 500 milhões), além da Eletrozema, empresa ligada à família do ex-governador de Minas, beneficiada com R$ 2,2 milhões. 

“Sabe quem paga imposto aqui? Você, que paga imposto todo dia para ver uma isenção fiscal de empresas superar o orçamento anual da saúde do Estado de Minas Gerais”, criticou Gonçalves.

Para os críticos, esse cenário escancara o financiamento público do lucro privado, enquanto o Vale do Jequitinhonha — território já pressionado por grandes empreendimentos de exploração ambiental, como a mineração e a monocultura do eucalipto — é entregue à iniciativa privada sem a devida fiscalização. 

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Manifestante com cartaz em protesto à privatização – Crédito: “Nosso Biribiri”

Esse coro ganha força nas vozes de lideranças locais. Magali Maia, representante da Associação do Bairro Cidade Nova, rejeita a tese de que a concessão seja a única saída. Em audiência pública, ela reiterou a posição contrária da comunidade ao modelo apresentado e cobrou que o Estado assuma sua responsabilidade, investindo diretamente na infraestrutura local. Para Maia, o Biribiri é um “patrimônio coletivo inegociável”. 

Meio ambiente sob custódia

O debate atual esbarra na própria fundação do Parque Estadual do Biribiri. Criado por decreto estadual em 1998, o parque foi instituído sem a participação das comunidades do entorno. Como aponta a pesquisadora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Beatriz Roque, a criação “de cima para baixo” ignorou o plantio e o extrativismo que garantiam o sustento de Mendanha, Cidade Nova e Pinheiro, municípios da região, intensificando a “marginalização” de quem sempre viveu ali.”

O temor de repetir erros do passado ganha força diante do histórico recente de fiscalização ambiental no estado. Opositores relembram a Operação Rejeito, da Polícia Federal (PF) — cujas repercussões pautaram a ALMG em setembro de 2025 —, que revelou fraudes em órgãos do meio ambiente para beneficiar empreendimentos. 

O movimento local também cita o caso do Parque Estadual do Ibitipoca, em Lima Duarte, já concedido à iniciativa privada, relatando o receio de que o mesmo modelo traga para Diamantina a gentrificação e a exclusão ocorridas lá.

Resistência e farmácia viva

Para enfrentar o avanço do edital, o movimento Nosso Biribiri se consolidou como uma frente organizada e fincada no território, reunindo representantes de diversos segmentos. 

Quando o Estado tentou esvaziar o debate na primeira audiência pública, a comunidade respondeu com organização. Articulados em grupos de mensagens com mais de 150 pessoas, entre organizadores e simpatizantes, eles percorreram as ruas de pedra de Diamantina, passando por bairros e comunidades como Vila Operária e bairro Pinheiro. 

A mobilização foi além: levaram a pauta à ALMG e entregaram cerca de 5 mil assinaturas ao prefeito — que as encaminhou ao governador. A articulação também ocupou os espaços acadêmicos. O grupo debateu o tema com alunos da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e cobrou um posicionamento firme da reitoria da UFVJM.

A resistência é feita, sobretudo, de memórias de pés no chão. “Com nove ou 10 anos de idade, a gente já passava dentro do Biribiri, vindo a pé do Inhaí para cá, tudo aberto. A gente tomava água limpinha, descansava na beira da água, comendo farinha com rapadura”, recorda Mãe Dalva.

Ela conhece o mapa de uma farmácia que não está nos editais. “Lá para o lado do Cruzeiro, perto da cachoeira, a gente busca o capim cabeludinho para fazer chá para quem está com problema de rins e infecção. Tem também o pé de sapo na beira da água e muitas outras ervas”, ensina.

O receio de que o novo modelo apague essa relação histórica une gerações. A foto física se perdeu, mas a cena do menino de sete anos pulando de uma pedra a outra na Cachoeira dos Cristais continua viva. Hoje pai, Thiago Cruz repete o gesto com o filho, mas entende que a presença no local agora exige mobilização. Nas redes sociais e nas ruas de Diamantina, ele faz sua parte, mostrando que contemplar o território não é mais suficiente; é preciso lutar por ele.

Em tom de canto e manifesto, Mãe Dalva resume o espírito de quem se recusa a ser apagado do mapa mais uma vez: “cheguei para ficar. Não chegamos para ir embora. Precisamos do Biribiri para nossos filhos, para Diamantina e para quem busca cura nas águas.”

Outro lado

Solicitamos posicionamento do prefeito, da Câmara dos Vereadores de Diamantina e do reitor da UFVJM, mas não obtivemos respostas até o momento.

Fonte
Brasil de Fato
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